#Interlúdio: humano, demasiado humanoA humanidade, que antes cabia numa palavra só, agora precisa de uma sequência crescente de letras, seguidas daquele famigerado +
MMIWG2SLGBTQQIA+ é a nova sigla identitária usada por uma parlamentar canadense para reclamar da falta de recursos públicos para as políticas de combate à violência às minorias. Leah Gazan, a parlamentar criativa, usou a sopa de letrinhas para criticar o governo por cortes no orçamento, classificando a situação de GC (Genocídio Contínuo). Já o governo classificou a situação com a sigla ODA (O Dinheiro Acabou). Foi difícil a um PRLASDNB (Pobre Rapaz Latino Americano Sem Dinheiro No Bolso) como eu, descobrir que MMIWG2SLGBTQQIA+ quer dizer Missing and Murdered Indigenous Women, Girls, Two-Spirit e pessoas LGBTQIA+. A gente já percebe uma certa preguiça quando a descrição nominal termina com uma sigla e o famigerado +, que significa que o mundo identitário é que nem coração de mãe, ou seja, TLPTM (Tem Lugar Para Todo Mundo). A linguagem moderna, cheia de gírias e, sobretudo, acrônimos, está se tornando cada vez mais difícil. Até o ChatGPT, oráculo da modernidade, tem uma certa dificuldade de compreender a dinâmica das classificações identitárias.
Até os robôs já perceberam que o ser humano gosta de complicar as coisas. Cada letra acrescentada parece um tijolo novo numa muralha que vai nos isolando cada vez mais. Mesmo assim, nessa torre de babel ideológica, querem nos convencer que é uma boa ideia separar seres humanos em grupos, subgrupos, guetos, tribos ou raças. Mas, ironicamente, quanto mais letras se acumulam, mais a ideia de “ninguém” vai se fragmentando em “quase ninguém”. O humano, que antes cabia numa palavra só, agora precisa de uma sequência crescente de letras e aquele famigerado +, como se a dignidade dependesse de caber num recorte cada vez mais específico, de um grupo, subgrupo, gueto, tribo ou raça. O conceito de humano é fragmentado a cada tentativa de combater uma violência que não está muito interessada em siglas longas e complexas, nem em grupos, subgrupos, guetos, tribos ou raças. Segundo as estatísticas do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômica Aplicada), se contabilizarmos todas as categorias e subcategorias de mortes violentas no Brasil, o número passa de 100 mil pessoas que perderam a vida no ano passado. Significa que a violência não consulta pertencimentos, não distingue siglas, não respeita grupos, subgrupos, guetos, tribos ou raças. Se você vive no Brasil, corre o sério risco de ser morto violentamente numa esquina qualquer. E não vamos ficar mais seguros inserindo uma letra a mais na longa e confusa sigla. É preciso fazer que a lei não proteja uns mais que os outros, mas proteja a todos nós. No fim, o que permanece não é o tamanho do acrônimo, mas o vazio que ele tenta preencher. Um vazio que não se resolve com siglas mais longas e um famigerado +, nem com infinitas categorias e subcategorias, grupos, subgrupos, guetos, tribos ou raças. Mas com algo muito mais simples, a decisão de tratar todos com apenas seis letras, formando uma só palavra: humano. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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quarta-feira, 6 de maio de 2026
#Interlúdio: humano, demasiado humano
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