Na primeira proposta, Vorcaro dizia que havia bancado benefícios como viagens, festas e picardias por causa de uma linda e “grande amizade” com Ciro. Broderagem, sem pedir nada em troca. Mas depois da primeira proposta rejeitada pela PF e pela PGR, Vorcaro mudou de advogado e apresentou uma nova versão: os repasses passaram a ser descritos como tentativa de cooptação do senador para defender interesses do Banco Master. Ou seja, aquela palavrinha que todo mundo anda evitando dizer em público: propina. ... Assine Não É Imprensa para desbloquear o restante.Torne-se um assinante pagante de Não É Imprensa para ter acesso a esta publicação e outros conteúdos exclusivos para assinantes. Uma assinatura oferece a você:
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quarta-feira, 10 de junho de 2026
#OValorDeUmaAmizade
O Stalin Das Nossas Paixões
Obrigado pela sua leitura! O Stalin Das Nossas PaixõesQuando viúvas alegres e ninfetas macabras colaboram com o fim do erotismo
“Você não pode mudar a natureza humana”, afirmam ao russo Boris Lermontov, personagem de Os sapatinhos vermelhos (1948), filme da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger. “É verdade”, ele diz. “Mas posso fazer algo melhor: ignorá-la”. Alterar ou ignorar o ser humano? Esta é a questão secreta que une Sobre a Revolução, de Hannah Arendt, e A Viúva Grávida, de Martin Amis. O primeiro é um clássico da filosofia política que, após trinta anos da publicação original, se mostra mais interessante pelas imprecisões apresentadas do que pelos raciocínios que deveria demonstrar. O segundo, lançado em 2010, exibe um escritor no domínio da forma romanesca e sem medo de tocar o dedo na ferida de quem acha que a revolução é um bom negócio. Arendt medita sobre as revoluções políticas, com ênfase na Americana (1776) e na Francesa (1789), comparando uma com a outra, analisando as diferenças e, muitas vezes, querendo encontrar semelhanças que, no fim, não existiam. Já Amis dramatiza, no verão de 1970 em um castelo italiano, o ápice da “revolução sexual”, por meio da história de Keith Nearing, erudito de 20 anos, sua namorada Lily, e a amiga de ambos, Scheherazade, por quem Keith nutre uma profunda atração. O que a não ficção complica, a ficção elucida com uma clareza peculiar; Amis vai além em relação aos teoremas de Arendt justamente porque não ignora a natureza humana. Ela não distingue ao leitor o que deveria ser a liberdade exterior de uma revolução que funda um novo governo e a liberdade interior de quem conquistou certas virtudes em relação aos assuntos obscuros do coração. Nas primeiras trinta páginas, elimina logo qualquer possibilidade de uma revolução ser analisada como um “fenômeno pseudo-religioso”. Contudo, usa e abusa de metáforas como “à procura de um absoluto”, “o lado sombrio da alma” e “paradigma transcendente”. Seria uma inadequação habitual para alguém que sempre acreditou no liberalismo imanentista e não percebeu que este também era uma pseudoreligião? Além disso, ao comparar as Revoluções Americana e Francesa, Arendt se preocupa em diagnosticar se a primeira perdurou porque criou uma Constituição que mantinha a liberdade política, enquanto a segunda não conseguiu nada disso. Na verdade, os americanos triunfaram na sua revolução porque respeitaram a natureza humana, com sua suspeita do poder e da moral anti-religiosa; já os franceses desejavam alterá-la a qualquer custo – mesmo em nome da liberdade. Martin Amis não cai nessa armadilha em seu último romance. Narra um trauma sexual ocorrido no sonho de uma noite de verão que, sem aviso, tornou-se um pesadelo niilista. Os jovens do escritor inglês são escravos de suas emoções e sentimentos, vivendo uma mentira romântica disfarçada de sexo, literatura inglesa e conversas sem rumo. Quando a velhice surpreende a todos, o que resta é o passado que cresce igual a um tumor e o memento mori como a lição adiada há tempos. Afinal, não é o que todos ignoram quando se fala da natureza humana? O fato de que todos morrerão – e o mundo sempre preferirá o aumento do poder em vez do surgimento da liberdade? Hannah Arendt e Martin Amis querem ver o que sobrou do ser humano com tantas revoluções sonhadas e vividas. Foi pouca coisa – e não há como ignorar isso. *** Vamos despi-la dos clichês, querida Lolita. Todos sabem das suas histórias: a do padrasto que te estuprava todas as noites, a do dramaturgo bizarro por quem você se deixou seduzir, a de sua morte cruel enquanto estava prestes a dar à luz. O que os outros não sabem é sobre a sua verdadeira natureza. Eis a razão pela qual ainda sentem fascínio sobre a sua história e personalidade. Talvez o seu criador, Vladimir Nabokov, não tenha calculado seu alcance duradouro. Mas, sem dúvida, pretendia que o efeito fosse equivalente ao de Humbert Humbert quando a viu no jardim da casa de sua mãe, a viúva Charlotte Haze. É claro que o pobre Humbert ficaria ofendido se o chamassem de “pedófilo”. “Não sou nada disso”, exclamaria perante o tribunal do politicamente correto, “sofro de ninfolepsia”. Uma palavra bonita não esconde o lado perverso. Esta era a especialidade de Nabokov: um estilo sinuoso, sensual, repleto de malícia e humor, agasalhando a crueldade humana. Será que você, Lolita, continua em nossas memórias devido a esse estilo sublime que também nos escraviza? No mundo de Nabokov, onde os pervertidos acreditam ser poetas, o esteticismo é um pecado mortal de enorme prazer. Para Martin Amis, autor do posfácio da reedição feita na década de 2010, é a estética bem trabalhada e detalhista que permite reencontrar vários detalhes que pareciam não estar lá, quando você surgiu pela primeira vez em 1952, em uma América com alguma aparência de inocência. É o mesmo Amis que, anos depois, mostraria que Nabokov já sabia que esta inocência não existia há tempos. Em Koba o Terrível, livro sobre os crimes do stalinismo, o escritor inglês faz uma interpretação ousada sobre a sua história, Lolita. Segundo ele, nada há de lírico nela, e muito menos é uma mera sátira antiamericana. Trata-se, na verdade, de um estudo sobre a tirania. Era um assunto que Nabokov entendia como poucos. Afinal, foi um russo que fugiu da Revolução Bolchevique, porque sua família apoiava o czar. E não é por acaso que Humbert Humbert tem as mesmas características de um pequeno ditador em relação às suas vítimas: compra presentes, usa barbitúricos para sodomizar as suas consciências enquanto dormem, recita poemas de Edgar Allan Poe como se fossem cantigas de ninar. Mas você, Lolita, também se mostrou uma perfeita tirana. Enganou Humbert como se fosse um palhaço e fez o mesmo com Clare Quilty, o rival de seu padrasto, hoje reconhecido pelo público através das feições de Peter Sellers. Neste conto de riso amargo, Nabokov mostra a dupla escravidão de quem vive em função da pior das tiranias: a do desejo. Em um mundo onde o fim do erotismo é a nova educação sentimental, você ainda não perdeu o seu encanto, simplesmente porque nos entregamos ao Stalin das nossas paixões. O que pedimos da sua história é que ela nos ensine, como diria o poeta John Donne, a não deixar que nossos afetos nos matem e nem morram. Sua morte foi apenas no papel. Você ainda está viva entre nós. Sua verdadeira natureza é a imortalidade da nossa tirania interior – e isto é a única coisa, querida Lolita, que podemos compartilhar contigo. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: *** AVISO: NOVO CURSO - RAÍZES (E CONSEQÜÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIROUM TRECHO LOGO ABAIXO:Queridos leitores: Temos um novo curso: RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO. (No decorrer das aulas, os alunos perceberão que eu falo “Raízes do autoritarismo brasileiro” o tempo todo, mas o nosso departamento de marketing resolveu alterar o título para melhorar as vendas. Não vou discutir.) Trata-se de um prosseguimento do assunto que abordei nos cursos anteriores (mas agora aplicados na perspectiva brasileira), De Zero a Nero - O que Shakespeare ensinou a Peter Thiel sobre os rumos da liderança, e Além do Zero: Vivendo na Religião da Tecnologia, que você pode adquirir respectivamente aqui e aqui. Serão seis aulas, de 30 minutos a 1 hora de duração, todas já gravadas. Aqui vão os temas abordados: O curso é também uma reflexão sobre certas obsessões minhas e que me acompanham desde a época do meu segundo livro, A Poeira da Glória (2015) e depois em A Tirania dos Especialistas (2019), indo até A Disciplina do Deserto, minha obra derradeira. Este livro será publicado em 2026, se os deuses do mercado editorial permitirem. Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará o curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo:martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - CURSO RAÍZES TOTALITARISMO -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível do curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription.
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