#Cinema: o filme mais aleatório de todos os temposClaro (1975), de Glauber Rocha, retrata a aleatoriedade da existência humana
O filme “Claro”, lançado em 1975, é uma obra um tanto quanto peculiar por conter um plano-sequência bastante diferente e um roteiro com um quê de ilógico. Além disso, discorre sobre a fragilidade da alma humana frente ao mundo repleto de transformações efêmeras, especialmente quando se trata de eventos históricos e culturais. Trata-se de uma obra desafiadora, difícil e profundamente sinestésica e não se sabe qual mensagem que “O Vulcão” queria passar para o espectador, porém, se este tiver paciência, é recompensado com uma experiência singular e enriquecedora, justamente pelo fato de um filme ser uma espécie de declaração de amor para a badalada atriz Juliet Berto, uma das maiores expoentes da Nouvelle-Vague. Berto, logo no começo do filme, é retratada como uma adulta-criança ou uma criança-adulta, a depender do ponto de vista do espectador, em que o seu comportamento lúdico (ou até mesmo visto como esquizofrênico ou como uma pessoa em surto) parece desafiar as convenções pré-estabelecidas, principalmente pelo fato de rolar, de brincar, de espernear e de divertir-se com transeuntes aleatórios (que se mostram assustados e incrédulos com toda a cena) nas ruas de Roma. Durante quase 30 minutos, numa espécie de registro de viagem do casal, Berto e Rocha, que ostentavam oito anos de diferença de idade à época do relacionamento de ambos, entrelaçam uma grande história de amor repleta de cumplicidade, até mesmo numa cena em que hodiernamente poderia ser enquadrada como agressão. Percebe-se, dessa forma, que Rocha, peremptoriamente, construiu um roteiro que deu ampla liberdade criativa de improviso à sua companheira, num mise-en-scène em que nada faz sentido nos seus minutos iniciais. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Após essa tomada inicial, somos transpostos às maravilhas romanas contadas tais quais os mandamentos do ainda incipiente “cinema gonzo” por parte do cineasta baiano, que, enquanto filma e comenta sobre o berço da civilização ocidental, expõe, em tomadas entrecortadas, problemas atinentes às regiões periféricas da cidade, num misto de denúncia, incredulidade, crítica ao capitalismo e um ensaio filosófico acerca das obras de arte romana, livros clássicos, arquitetura e direito romano, numa espécie de docudrama sobre as percepções do cineasta em relação às mudanças culturais e imagéticas da pós-contemporaneidade. Nas demais sequências, contemplamos uma aula de história por parte de diversos especialistas, dos cidadãos comuns e do próprio cineasta sobre as realizações romanas ao longo da existência humana. Os primeiros, ao utilizarem de linguagem técnica e científica, expõem “A Cidade Eterna” por meio de uma análise fria em que não há emoção. Os segundos recorrem aos ensinamentos populares para mostrar uma visão não tão conhecida da cidade. O terceiro, por fim, utiliza de imagem de arquivo de diversas personalidades históricas para retratar de que forma a cidade foi o berço da civilização ocidental como uma loba que amamentou Remo e Rômulo, os fundadores de Roma. Na outra metade do filme, presenciamos uma dramatização sobre os filmes anteriores de Glauber Rocha, numa espécie de auto-plágio contemplativo, de forma bastante carnavalesca e peculiar do cineasta pelo qual tornou-se conhecido ao redor do mundo. Após também homenagear inúmeros cineastas na parte final, tais quais Dziga Vertov e o seu “Cine-Olho”, Sergei Eisenstein e o seu “cinema épico”, Jean-Luc Godard e o seu “cinema experimental” e Jean-Marie Straub e o seu “cinema econômico”, Rocha encerra o seu docudrama de forma magistral ao fazer uma homenagem, de forma passional, às artes e às relações humanas, tendo como pano de fundo o amor que sentia por sua então namorada, de quem sentia grande afeição, a ponto de a mesma ter afirmado diversas vezes que tinha uma conexão real de corpo e alma com o cineasta baiano, tendo dedicado o filme Le Havre (1986) à memória de Rocha. Para aqueles que se interessarem, o filme está disponível gratuitamente no YouTube. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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sexta-feira, 4 de setembro de 2026
#Cinema: o filme mais aleatório de todos os tempos
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