Diário e rememoração, XI Por Alexandre Sartório Nos últimos dias, li dois livros do meu querido Fitzgerald – O Último Magnata e O Grande Gatsby –, em que, notei pela primeira vez, os protagonistas (cujas vidas são narradas em primeira pessoa por personagens simpáticos a eles) têm uma ânsia de grandeza, causada por uma espécie de experiência espiritual – formulada, no caso do primeiro, em termos da linguagem mito-poética platônica, ou mesmo mística clássica (p. 36), e no segundo, numa imagem mística belíssima (pp. 172-173): num jardim com atmosfera enfumaçada, no qual o Gatsby vê uma escada pela qual poderia subir e “sugar o seio da vida, absorvendo o incomparável leite de seu assombro” (p. 173) –, que lhes dá grandeza e responsabilidade – e leva-os por um caminho trágico: no caso de Gatsby, por concentrar o eros no amor por Daisy, amor que o leva a misturar o desejo pela mulher com o desejo da riqueza e da vida glamurosa, e, ao fim, ao auto sacrifício. Fitzgerald soube como poucos tratar das tensões das experiências anímicas de pessoas que sabem que foram destinadas à grandeza: foi dos poucos que teve a impressão profunda, e soube expressá-la, de que, apesar de o eros poder se mover para todos os lados, devemos impulsioná-lo para o alto: de que devemos viver para que a alma faça seus movimentos, ao mesmo tempo, mais excelsos e mais difíceis (”todos os movimentos naturais da alma são regidos por leis análogas à do peso material. A única exceção disso é a graça”, diz Simone Weil) – ainda que eles, quase invariavelmente, nos abandonem nos terrenos do trágico. Também li Os Anos, da Annie Ernaux, de que gostei. O diálogo com Proust (acho que ela sabe bem que não se dialoga com Proust – deve-se, sim, reverenciá-lo) é bom, produtivo: ela cria literariamente uma outra versão do “milagre da analogia” para captar uma luz que incide sobre as imagens e histórias de sua vida, na esperança de salvar – ainda que numa salvação frágil e trágica – esses momentos da morte pelo tempo. ** Li Acima de tudo, Heather, primeiro – e bom – romance do Matthew Weiner, criador de Mad Men e Sopranos. Genericamente, o livro trata da ambição, do desejo, da mediocridade e dos ajustes da psique humana a ela, do abandono, da compensação, da disputa – acima de tudo, do desejo mimético. A obra é curta; a narrativa, em terceira pessoa, é rápida, com poucas cenas e muitos panoramas e incursões interiores em diversos personagens – numa sucessão constante de pontos de vista, que se expressam por meio de um discurso indireto livre bem feito –, dos quais o escritor explora os desejos, sempre miméticos – por vezes, em clarões, os próprios personagens se descobrem miméticos em disputa –, que levam às disputas, principalmente por Heather: que se reveza no papel de modelo do imitador, objeto do desejo – até esquentar rapidamente o lugar do bode expiatório, e o vagar para Bobby, o menino ignorado por todos, que mal aprendeu a desejar, até chegar à percepção de que poderia simplesmente pegar tudo, pois tudo lhe pertencia, tornando-se, paradoxalmente para a história, um sociopata. Acabei de reler O Terceiro Homem (1950), do Graham Greene. Nos últimos tempos, também li Música de Câmara (1907), do Joyce, livro de espírito francamente simbolista, presente também, aliás, no Retrato – apesar de, no livro de poemas, ao contrário do que acontece no romance, a influência simbolista dominar mais Joyce do que ser dominada por ele. ** Por esses dias, assisti a The Lady from Shanghai (Welles, 1947) – cujo final tem, como em Kane, em que o protagonista aparece envolto por inúmeras obras de arte, caixas, tudo o que acumulou na busca por Rosebud, uma cena de forte caráter simbólico, a antológica (e tropos cinematográfico) cena do tiroteio na sala de espelhos, na qual o cruzamento da cobiça e da perfídia dos personagens, as quais causam vertigem, se expressa como imagem em movimento – e The Woman in the Window (Fritz Lang, 1944) – maravilhoso noir psicológico de Lang, um mestre em mostrar em imagens e símbolos as manchas mais recônditas da alma humana, e, no caso deste filme, o faz por meio de: vários espelhos e vidros que mostram os duplos de cada personagem; as pinturas de Adão e Eva acompanhados de serpente e maçã na parede do restaurante na noite em que Professor Richard Wanley (Edward G. Robinson) e Alice Reed (Joan Bennett); as obras de arte (o quadro inspirado em Alice e o torso que adorna a lareira dela, que claramente mimetiza a beleza clássica da atriz, ambos, novamente, duplos) as plantas e pinturas de plantas na casa de Alice, as quais dão a ideia de viço, é a maçã edênica, que é a fonte da virada na vida de Wanley, da sua expulsão do paraíso pequeno burguês (digo-o sem tom pejorativo): de um pacato professor casado, de vida quase sonolenta, a alguém que planeja um assassinato a sangue frio e mata outro homem em legítima defesa (pois são muito nuançados os atos limítrofes do homem, como o próprio professor, no início do filme, explica em uma de suas aulas, cortado pelas faixas de luz e sombra provocadas pela cortina). No fim, os conflitos e os assassinatos narrados eram um sonho de Wanley: como uma incursão onírica pelas sombras da sua própria alma – pelas sombras da alma humana. Ouvi Lulu (2011), álbum genial em que Lou Reed, com apoio imprescindível do Metallica, dá voz a almas ressentidas, machucadas, homicidas, invejosas, envenenadas. O disco termina com “Junior Dad”, uma admissão da própria miséria e uma súplica por redenção. O senhor(a) é atualmente um(a) assinante gratuito(a) de Livraria Trabalhar Cansa. Para uma experiência completa, faça upgrade da sua assinatura.
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quarta-feira, 15 de abril de 2026
Diário e rememoração, XI
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