Antes de Molière, o teatro francês era uma praça em movimento. Não tinha ainda o brilho regulado das grandes salas nem a autoridade tranquila dos clássicos. Nascia entre sinos, procissões e mercados, misturando o sagrado e o riso, a oração e a careta, o mistério da fé e a malícia do povo. A cena podia ser uma rua, um tablado, uma festa; e os atores, muitas vezes, pareciam sair da própria multidão que os assistia.
Nos mistérios medievais, Deus descia à cidade pela voz dos homens. Os santos, os anjos, os demônios e os pecadores ocupavam o mesmo espaço que os artesãos, os comerciantes e as crianças curiosas. Mas, ao lado da solenidade religiosa, crescia uma gargalhada indisciplinada. A farsa ridicularizava maridos enganados, médicos ignorantes, juízes vaidosos, velhos avarentos. O povo reconhecia ali seus medos e seus vícios, e ria porque o riso também sempre foi uma forma de verdade...
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