#Cinema: o filme mais claustrofóbico de todos os temposEntre Kafka, Platão e a Nouvelle Vague japonesa, “A Mulher da Areia” expõe o cárcere invisível da vida moderna.
Você já pensou em estar preso em uma situação da qual não tem controle e não se pode livrar? “A Mulher da Areia” ou “A Mulher das Dunas”, filme japonês de vanguarda dirigido por Hiroshi Teshigahara e com duração de 2 horas e 20 minutos, retrata muito bem essa situação. Um clássico do período denominado Nuberu Bagu, corruptela japonesa de Nouvelle Vague, movimento cinematográfico francês de vanguarda que influenciou diversos outros países. Esta película inovadora, lançada em 1964 e baseada no romance homólogo, de autoria de Kobo Abe, reflete o ethos de uma sociedade adoecida em que situações que fogem do escopo de qualquer pessoa, especialmente quando esta não consegue evadir-se de de problemas pelos quais está inserida, sendo intencionais ou não. Sob essa premissa, acompanha-se, logo de início, uma expedição do entomologista Niki Junpei (Junpei Niki, no tradicional japonês), famoso e respeitado professor universitário que tenta coletar algumas espécies de besouros nativos de uma duna não especificada do seu país. Nisso, numa criteriosa observação, a efemeridade do tempo advém e, como num estalar de dados, o alvorecer aflora, num crepúsculo avistado como fantasmagórico, num belíssimo plano sequência com uma proposta bastante ousada de preambular o caos vindouro. Nesse ínterim, ao deslocar-se ao redor do ambiente, depara-se com um grupo de guardas inescrupulosos que o interpelam e o manietam acerca de informações distorcidas acerca do local. O entomologista, então, argui se ele pode passar a noite no local e, ao perceber a fragilidade do interlocutor, todos o enganam sobre uma cabana de difícil acesso no despenhadeiro, que pode servir de hospedagem. O bobo professor desloca-se até o estabelecimento com o auxílio de cordames e de um andaime puxados pelos homens e, num ato de traição, todos eles recolhem os meios de locomoção. Eis que o pobre homem está preso no casebre e sem acesso ao mundo exterior, como no mito da “caverna de Platão” ou na acusação de Joseph K, simpático personagem da obra O Processo, de Franz Kafka. Numa tomada sem fôlego e, parcialmente, aterrorizadora, avista-se, como num umbral, a figura de uma viúva vestida completamente de preto. Exsurge na película a figura de uma senhorita sem nome aparente, que o tenta consolar, porém a mulher, com esse ato, acarreta uma reação esperada: o professor, num ataque furibundo, tenta-a agredir e evadir-se desesperadamente do local com a justificativa de ser casado e ter filhos. Num corte abrupto, a mulher, vista como um corpo estranho, tenta-o mais uma vez consolá-lo em vão. A seguir, numa outra tomada, a do clarear do dia, quando há uma espécie de arrebol plúmbeo com forte teor semântico e simbólico, o homem tenta escalar o monte de areia numa atitude desesperada e não encontra sucesso mais uma vez, porém com o intenso gracejo dos homens inescrupulosos acima da cabana que, num tom de mofa, afirmam que ele nunca mais poderá sair do local. Num surto de desespero, o professor inquire a viúva sobre a sua situação e ela especifica como vive naquele ambiente afastado da civilização. A senhora explica de que forma consegue água e mantimentos e o porquê de viver ali naquelas condições. O professor condói-se pelas condições da senhora e passou a vê-la como uma vítima da situação, mas não como a sua rival, conforme os seus pensamentos anteriores. O clima pesaroso é substituído pelo de romance intenso entre os dois, que se tornam um casal. Enquanto o homem é visto como alguém irrequieto e angustiado, a mulher é esmiuçada como dependente e sensível, numa espécie de retrato do arquétipo de ying-yang em que ambos encontram o ponto de equilíbrio. A obra cinematográfica, que era vista antes como fantasmagórica e claustrofóbica, torna-se erótica e delicada, como um belo poema visual ao mostrar estes dois amantes como um casal que vivencia momentos tórridos, que parecem conhecer-se faz muito tempo. O clima de romance vigora até quando o homem, que bola um plano de fuga em segredo, consegue escapar dessa situação adversa que ele se envolveu. Ao ver que logrou êxito com a fuga, depois de uma perseguição por parte do bando inescrupuloso que o envolveu, o remorso o aflige. Ele retorna, depois de tantos percalços, para a cabana a fim de resgatar a viúva, contudo ela o impede de tentar levá-la consigo. Dois homens do bando viram essa situação inesperada e tentam convencê-los a fugirem em definitivo, mas a mulher é reticente. O professor consegue evadir do local mais uma vez e contempla a alvorada. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Trata-se, então, de um filme apolíneo em que a evocação de uma situação trivial vista como claudicante e fustigante é transpassada ao espectador sob o intenso escrutínio da alma humana que se desespera por passar por situações inesperadas, além de retratar uma volta ao ponto de conformação pela situação em que se vive, em que uma prisão é vista como algo aterrador e também reconfortante. Abe e Teshigahara desenvolveram uma técnica fílmica bastante inovadora para os padrões modernos, com foco em uma mensagem filosófica profunda, sobrepujamento de planos-sequência entrecortados e conteúdo bastante aterrador, mas também profundo e introspectivo . E a boa notícia é que a obra está disponível gratuitamente no YouTube com legendas em português. Tenham todos uma boa experiência cinematográfica. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. 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DICAS DO ZE
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sábado, 13 de junho de 2026
#Cinema: o filme mais claustrofóbico de todos os tempos
#Literatura: Arrume um emprego
#Literatura: Arrume um empregoO trabalho, além de dignificar o homem, alimenta a imaginação dos escritores
Em Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke não entrega ao jovem Franz Kappus a ilusão romântica de que a poesia bastaria para sustentar uma vida. Antes de tudo, pede-lhe que pergunte a si mesmo, no silêncio mais íntimo, se precisa escrever; mas também o reconduz à realidade: é possível ter uma profissão, aceitar um ofício, suportar a disciplina cotidiana, e ainda assim preservar dentro de si a chama secreta da criação. Em palavras mais rudes: arrume um emprego, assim tua arte jamais será corrompida pelo monstro dos boletos. Essa talvez seja uma das verdades menos ornamentais da literatura. O escritor, antes de tornar estátua em praça pública ou nome de rua ou alameda, foi alguém que precisou ganhar o pão de cada dia. A literatura nunca começa com glamour – e hoje em dia, talvez, nem termine. Exceto os herdeiros ou os nepobabies, a vida do escritor comum, ordinário, é com a barriga no balcão, na trincheira do dia a dia ou, na melhor das hipóteses, num escritório cinzento cheirando a nicotina. James Joyce, por exemplo, não escreveu apenas a partir de Dublin, ainda que Dublin nunca tenha saído dele. Houve um Joyce bancário por mais ou menos 8 meses deslocado em Roma, medindo o tempo entre papéis, contas alheias e expedientes burocráticos. Enquanto a cidade estrangeira o afastava da Irlanda, a memória lhe devolvia Dublin com mais força. Talvez seja assim que certos livros nascem: da distância, do exílio, da inadequação. Vai saber. O homem civil atende ao banco; o escritor, em silêncio, inspira-se na musicalidade da língua. Por trás do bancário de 8 meses e meio, já existia o autor de Ulisses, para quem, num único dia, fez conter uma civilização inteira. Vladímir Nabokov, por sua vez, um herdeiro clássico – e filho preferido, dizem. Teve uma infância quase perfeita, não fosse a revolução comunista que obrigou sua família burguesa a fugir da Rússia. Acabou exilado em Cambridge, literalmente caçando borboletas, antes de vagar pelo resto da Europa e também Estados Unidos. As palavras sempre o perseguiram, desde a sua adolescência em São Petersburgo, então, a zoologia deu lugar ao estudo das letras. A memória já me trai, mas estou certo de que algum biógrafo deve ter dito que a entomologia não foi um capricho lateral na vida de Nabokov, mas uma escola do olhar. Quem observa asas, nervuras, metamorfoses e mínimas variações de cor em borboletas, aprende que o mundo sempre se esconde nos detalhes. O cientista e o romancista tem alguma semelhança: ambos classificam e descrevem, ambos desconfiam da aparência, ambos sabem que uma forma delicada pode guardar perigo. Talvez Lolita tenha escandalizado o mundo porque Nabokov compreendia, como poucos, a beleza e a armadilha das metamorfoses humanas. T. S. Eliot também conheceu o peso das horas úteis. Antes de se tornar uma das vozes decisivas da poesia moderna, como Joyce, passou num tempo como funcionário de um banco em Londres. Há algo de profundamente moderno nessa imagem: o poeta vivenciando o tédio da contabilidade e da névoa financeira da cidade, contemplando, ao mesmo tempo, a secura interior dos homens. O expediente de segunda a sexta e um sábado por mês num porão escuro, não foi capaz de destruir sua poesia. Pelo contrário, deu-lhe, talvez, uma consciência mais aguda da vida fragmentada, da alma administrada, da espiritualidade soterrada sob papéis e relógios. O banco não era a poesia de Eliot, mas ajudou a compor a Terra devastada onde sua poesia pôde ouvir passos. Tolstói veio de outro cenário: não o escritório, mas a guerra. Antes de se entregar inteiramente à literatura, serviu o exército, no Cáucaso, na Crimeia, no front. Ali, onde a vida é reduzida à sua forma mais extrema, aprendeu que nenhuma ideia abstrata vale muito se não atravessa o corpo. A guerra lhe mostrou o horror, a grandeza, a contradição, a consciência moral. Depois, quando escreveu sobre famílias, impérios, batalhas, culpa e redenção, não falava apenas como quem imagina: falava como quem vira o homem em Guerra e Paz, diante do medo, da morte e da vaidade. No Brasil, Machado de Assis talvez seja a prova mais elegante e mais severa dessa mesma verdade. Antes de ser o bruxo do Cosme Velho, foi aprendiz de tipógrafo, homem de imprensa e funcionário público. Tornou-se um observador paciente da engrenagem social brasileira. A repartição pública, longe de sufocar sua ironia, talvez a tenha ampliado. Foi onde Machado aprendeu a ver os homens em seus gestos calculados, suas pequenas ambições, seus silêncios interessados. Da burocracia e da vida urbana ele extraiu uma metafísica da dissimulação. Seus personagens parecem nascer justamente desse olhar de quem conhece a superfície respeitável das instituições e, por baixo dela, o teatro íntimo das conveniências humanas. E toda essa conversa serve apenas para dizer que as dificuldades se vencem com tempo e constância. O emprego, que alguns jovens escritores temem como inimigo da literatura, é o laboratório de experimentações da literatura. O ofício cotidiano disciplina o olhar, aproxima o escritor da experiência e da fala comum, além de obrigá-lo a conviver com os tipos humanos dos mais esquisitos que nenhuma criatividade ficcional é capaz de inventar. A vida prática fere, cansa, interrompe; mas também oferece cenas, ritmos, humilhações, desejos, máscaras. Minha pátria é o mundo, dizia Sêneca. Se você gostou deste texto, ASSINE o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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