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domingo, 22 de fevereiro de 2026
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#Literatura: Epidemia de certezas absolutas
#Literatura: Epidemia de certezas absolutas"A Peste" de Camus e a permanência silenciosa das doenças morais e políticas
Certos livros não se esgotam na leitura. Permanecem em estado de latência, como uma infecção que nunca desaparece por completo. É o caso de A Peste, de Albert Camus. Uma obra-prima que não se limita a narrar história de uma epidemia, mas também diagnosticar um vício demasiadamente humano. A cidade sitiada não é apenas Orã. Pode ser qualquer sociedade que, diante do medo, aceita a lógica do contágio — não apenas biológico, mas moral, ideológico e político. O bacilo pode permanecer dormente por décadas, até o dia em que, “para o infortúnio e também o ensinamento da humanidade”, ela pode reaparecer em ratos que sempre encontram um corpo social disposto a abdicar da lucidez em troca de conforto ou segurança. É quase uma tradição interpretar a peste narrada por Camus como uma crítica ao nazismo. Mas se a literatura pode ser assim polissêmica, a peste, nesse sentido, pode ser interpretada como qualquer ideologia. O que muda é sempre a linguagem. A forma, o modus operandi, permanece o mesmo. Há sempre um vocabulário de urgência, um apelo à necessidade histórica, uma justificativa para reduzir o indivíduo a numa peça de um sistema maior. Camus observa isso através da frieza clínica do seu protagonista, o Dr. Rieux. Não importa se o argumento vem revestido de justiça, progresso ou tradição — a peste se manifesta no instante em que a consciência individual aceita abrir mão da racionalidade, visando um bem maior que ninguém sabe explicar exatamente. O contágio, portanto, não se dá apenas pelo ar, mas pelas palavras. Ideias se espalham como febre: simplificam a realidade, elegem os culpados, prometem soluções totalizantes em forma de sacrifícios. E, como em toda epidemia, os efeitos são previsíveis: medo, conformismo, e uma estranha sensação de alívio ao transferir a responsabilidade para um institucionalismo abstrato. A peste ideológica é sedutora porque dispensa o esforço da dúvida. Ela transforma a complexidade do mundo em narrativa simples, única e moralizante. Uma verdadeira epidemia de certezas absolutas. Nos momentos de crise, essa dinâmica se intensifica. O isolamento, a ameaça invisível, a estatística que substitui o rosto humano: tudo contribui para um ambiente onde medidas excepcionais – sempre totalitárias – parecem não apenas aceitáveis, mas inevitáveis. Em A Peste, Camus não nega a necessidade da ação coletiva; o que sua história expõe é a facilidade com que o excepcional se transforma em permanente, e o provisório em absoluto. A peste não precisa vencer pela força, basta que seja aceita como norma. Então, a própria norma passa a ser imposta pela força. A resposta nunca pode ser ideológica. Porque não há sistema salvador. Não há promessa de purificação histórica nem a ilusão de que uma ideia é capaz de imunizar o mundo todo. O que a história de Camus nos mostra é que, no final, o que resta são gestos discretos, quase anônimos, de homens comuns exercendo uma decência obstinada, quase silenciosa. Por isso, resistir não é aderir a uma causa grandiosa, mas recusar o automatismo moral para se preservar a integridade diante da pressão do contágio. É continuar agindo como se cada vida importasse, mesmo quando o mundo – e suas circunstâncias – insiste no contrário. Não há, portanto, vitória definitiva, apenas a recusa contínua em ceder ao autoritarismo. Porque, a peste ideológica pode ser inevitável, mas o consentimento à sua doutrina continuará sendo sempre uma escolha pessoal. Se você gostou deste texto, ASSINE e contribua com o nosso site. A gente precisa da sua ajuda a manter e ampliar o nosso trabalho. ______________
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#ProntoProOscar
#ProntoProOscarExatamente por ser um filme monótono e tedioso, "O Agente Secreto" encontra terreno fértil em premiações internacionais
O crítico Carlos Boyero, do El País, deu uma esculhambada no filme O Agente Secreto. Ele diz, em suma, que é um filme sonso. Flerta com um crítica social, mas até nisso falha. Boyero até viu a sombra da ditadura, a promessa do suspense, o rosto contido de um homem perseguido. Ainda assim, não ficou entretido nem tenso. Ele não sentiu nenhuma tensão e nem um calorzinho da tragédia. Para ele, o que deveria inquietar permanece inerte. É um filme monótono e, principalmente, sem pé nem cabeça: “Necessito, inclusive, que algum de seus espectadores entusiasmados me explique seu argumento, porque não entendi nada”, ironiza. De forma seca, direta, enfim, muito espanhola, Boyero sintetiza a sua experiência: nada o perturba, nada o distrai. E, num thriller, isso não é apenas uma falha; é a ausência de propósito. O crítico espanhol afirma não ter conseguido seguir plenamente a narrativa, como se a história se dissolvesse antes de se formar. Não há fio condutor evidente, nem clareza para sustentar o interesse. Kleber Mendonça faz umas embaixadinhas, para mostrar para os críticos que tem cultura cinematográfica, mas a essência de se contar uma história passa ao largo. O espectador, em vez de cúmplice, torna-se estrangeiro. E assim o tempo se alonga. As duas horas e meia de duração não expandem o mundo do filme, apenas esticam a sensação de vazio. O olhar escapa para o relógio, não por impaciência ruidosa, mas por um cansaço silencioso. Nessa hora, já sem a pipoca, o espectador pode até pensar em ir embora. Mas o que diria para os amigos da Vila Madalena que festejam mais um filme que entra no radar do Oscar? Nem mesmo a atuação de Wagner Moura comoveu o crítico Carlos Boyero. Há até um reconhecimento técnico, um respeito discreto pela sobriedade do protagonista, mas nenhuma adesão emocional. Uma coisa meio burocrática, no sentido de sempre faltar um entusiasmo diante de uma roteiro ruim, de uma história que não rende, de um personagem incapaz de evoluir, independente da qualidade do ator. Parece até que o diretor optou deliberadamente por não tocar o espectador, mantendo-o sempre numa certa distância, atrás do cordão sanitário. É uma crítica dolorosa. Porque Carlos Boyero é um homem de esquerda, escrevendo num jornal de esquerda sobre um filme de uma turma da esquerda de um país latino americano e subdesenvolvido. Mas diferente dos críticos brasileiros, que não sabem nada de cinema e, deslumbrados, rasgam elogios compostos pelo ChatGPT, Boyero é sincero. Até reconhece o valor do contexto, da proposta, da ambição política, mas encontra um resultado que lhe parece opaco, fechado em si, incapaz de comunicar sua própria indignação. E é justamente nesse desalinho que emerge uma conclusão irônica. Se O Agente Secreto pode soar frio, hermético e arrastado para um crítico sincero, talvez esteja perfeitamente calibrado para um outro tipo de consagração. Um cinema que privilegia a intenção sobre o impacto no público, a mera leitura política sobre a experiência sensível da arte, encontra terreno fértil em premiações que, há tempos, se tornaram previsíveis em seus critérios e preferências ideológicas. Nesse sentido, O Agente Secreto estaria pronto para o Oscar. Não por seus méritos, que o crítico espanhol nega existir, mas, paradoxalmente, por causa dos defeitos que ele assinala e, de certo modo, até lamenta. Se você gostou deste texto, ASSINE e contribua com o nosso site. A gente precisa da sua ajuda a manter e ampliar o nosso trabalho.
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