|
DICAS DO ZE
Total de visualizações de página
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
100839 é o seu código de verificação do Substack
domingo, 30 de agosto de 2026
#Literatura: Duas Odisseias num Mundo Woke
#Literatura: Duas Odisseias num Mundo WokeO identitarismo não arrefeceu, ao contrário, cristalizou-se
Quando, em 2018, a Unicamp anunciou que os Racionais MC’s entrariam na leitura obrigatória para o vestibular, ao lado de Camões, afundei-me em depressão. Para alguns, isso pode soar como exagero ou mesmo mentira. Não é nenhuma coisa nem outra. Apenas percebi, naquele instante, o tamanho do buraco em que estavam metendo a literatura e o quanto me machucava que ela estivesse tão longe de casa. O assunto me pareceu gravíssimo porque os grandes nomes da literatura, cujas obras são a expressão do mais alto valor estético e intelectual, passavam a dividir o palco com os autores dos seguintes “versos”: “Olha quanto boy, olha quanta mina / Afoga essa vaca dentro da piscina”. A eloquência do exemplo, espero, dispensa conceituação. A justificativa era a promoção da diversidade e da inclusão da cultura periférica – uma cultura periférica que toca no rádio e gera milhões de reais. Mas a escola não deveria ensinar aos alunos justamente aquilo que eles não conseguem aprender na rua ou na maioria de suas casas? Para que serve a escola se a literatura que chega ao estudante é escolhida para confirmar aquilo que ele já encontra no ambiente social, nas redes e na cultura de massa? Nada disso importava. O que importava é que a literatura deixaria de ser escolhida por seu valor literário e passava a ser escolhida por aquilo que pudesse representar social, política e ideologicamente. Conta cara! Não sei quando voltaremos a ter crédito na praça. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Em 2025, novo susto. Por quatro anos, a lista de livros da FUVEST será composta exclusivamente por escritoras. Isso mesmo: excluímos Machado, Bandeira, Pessoa, Rosa e por aí vai. Quando o sexo do autor se transforma em critério determinante para a composição de uma lista de literatura, já não estamos mais falando de literatura, certo? Nos dois casos, já não se pergunta por que uma obra é grande, mas quem a escreveu, que grupo representa e que dívida histórica sua presença pode reparar. A ideia de reorganizar a literatura para corrigir desequilíbrios históricos de gênero, raça e representação deveria ressuscitar os mortos para um piquete. A enumeração dos grandes escritores da língua portuguesa, referência na formação dos letrados, não deveria funcionar como um sistema de cotas. O que tudo isso tem a ver com a força intelectual e estética de uma obra literária capaz de formar o espírito humano? Antes de tudo, deveria importar aquilo que a obra realiza enquanto obra. Caso contrário, seria mais adequado estudá-la nas ciências humanas do que no campo das linguagens. Essa inversão também atingiu o próprio artista. Já não importa apenas o que ele sabe fazer, mas o que representa e como vota. Um exemplo recente é o da escoiceada Regina Duarte. Por que diabos um caderno de cultura quer saber o que a Viúva Porcina pensa sobre um único candidato ou sobre o politicamente correto? A resposta é simples: querem caçá-la até o fim. Estão todos ligados, wokes que são. A direita também é sectária, dogmática e castradora. A diferença está no alcance. Seu potencial destrutivo é menor, pois ela não ocupa na universidade, na imprensa, nas artes e na crítica os mesmos espaços que a esquerda. Ideias ruins, confinadas a alguns grupos, produzem danos, mas ideias ruins, incorporadas pelas instituições que selecionam e legitimam a cultura, produzem um sistema. De qualquer forma, voltarei aqui para reclamar do sono ignorante e preconceituoso da direita. Mas hoje é o dia dos despertos. O identitarismo não arrefeceu, ao contrário, cristalizou-se. Infiltrou-se em todas as camadas da sociedade, pois já não é privilégio da estúpida elite brasileira. Ele invadiu o cinema, as novelas, os programas de televisão e as redes sociais. O que antes circulava apenas nos ambientes militantes passou a ser repetido aqui e acolá, não necessariamente porque o povo tenha se convertido às suas teorias, mas porque, de tanto encontrá-las, acabou incorporando suas palavras e a maneira de pensar que elas carregam. O identitarismo não venceu porque convenceu, mas porque se tornou onipresente. Um ótimo exemplo da naturalidade com que os ideais wokes entram no imaginário coletivo e derrubam a tradição está na Odisseia do Sr. Christopher Nolan. Antes, o identitarismo selecionava os autores; agora, seleciona a maneira como os autores devem ser lidos. Quem não leu Homero e só viu o Odisseu do Matt Damon não tem a menor ideia de quem é o herói, pois o Sr. Nolan teve a desfaçatez de criar um Odisseu desconstruído que aprendeu a questionar o mundo violento do patriarcado a que pertenceu e do qual agora se arrepende. Odisseu é o arquétipo do homem persuasivo, astuto e paciente, mas ele também é um guerreiro que deseja a glória por seus feitos de antes, de durante e de depois da guerra. Ele não quer dormir em paz sua consciência pesada. A guerra nunca lhe é um problema. Ao contrário, ela é a razão pela qual os homens conhecem seu nome e o de seus companheiros, tantas vezes cantados ao longo do poema entre as gentes que o povoam. O Odisseu homérico não se arrepende de nada. Já o do Sr. Nolan carrega o fantasma de uma jovem que resolveu assombrar não os caras que a mataram, mas aquele que a viu morrer. Parece que o fantasminha é a projeção da culpa de um homem que ainda vai matar um monte de gente, mas decidiu se ocupar justamente com uma morte que ele não causou. E se o fantasminha for Palas Atena, Nolan enlouqueceu de vez. A deusa, que no poema favorece o herói e seu filho, aparece no filme para metê-lo numa espécie de depressão ou, na pior das hipóteses, guiá-lo à verdadeira sabedoria – o arrependimento. Em Homero, Odisseu não desafia os deuses. Ao gabar-se diante de Polifemo, sem saber que falava ao filho de Poseidon, condenou-se à errância. Nolan suprimiu essa causa porque ela enfraqueceria sua versão de que o herói precisava ser castigado não pela arrogância, mas por ter sido um guerreiro na guerra. A maior e mais importante fala de Odisseu, no filme, é um verdadeiro libelo contra a guerra que lhe deu fama. É o discurso de um pacifista avant la lettre que só falta sair abraçando árvore e instaurando o veganismo no seu palácio porque ficou com pavor de ver sangue. Não me importa que a Helena de Nolan seja negra, mas muito me incomoda que ela seja inocente e vítima. Coisa que nem ela mesma acreditaria. Em Homero, ela sim, diferente de Odisseu, sente culpa. Essa forma nova de representar Helena também faz parte dos ditames da cultura woke que o diretor está seguindo, uma vez que ser mulher hoje é ser sempre uma vítima ou uma ovelhinha sem pecado. Outro exemplo de descaracterização está na Circe. No poema, ela é bela, sedutora e perigosa. Em Nolan, é velha, amedrontada e ressentida com os homens. Does that ring a bell? Claro que sim: hoje, os homens não valem o chão que pisam. Por isso, ela os transforma em porcos, não por diversão ou maldade, mas porque essa, ao que parece, seria sua verdadeira natureza. Mais woke impossível! A segunda ausência importante destrói de vez a caracterização do herói e o consolida no ideário militante do filme. Na sua descida ao Inferno, o Ulisses de Nolan não encontra Aquiles. Na epopeia, porém, ele o louva como o maior dos guerreiros – justamente aquele cuja ira matou tantos gregos e tantos troianos. Como esse elogio caberia na boca de um herói arrependido e que quer a paz na terra? Mas, para os gregos esse era o ideal do herói – o renome daqueles que estão mais perto dos deuses, por seus feitos extraordinários, do que do comum dos homens. A cultura woke não quer apenas produzir uma arte nova. Quer também reinterpretar a que recebeu, substituindo seus valores pelos seus próprios e fazendo do passado um aluno que precisa aprender com o presente. Se a literatura se constrói, em grande parte, por meio dos caracteres, percebam como estamos longe de casa: o velho Odisseu, arquétipo da astúcia e da inteligência, no filme do Sr. Nolan, não sabia nada do que esteve fazendo da sua vida. Aquilo que recebemos dos poetas mortos já não pode ser reconhecido por aqueles que ainda os amam. Até quando, Catilina, abusará de nossa paciência? Inovar não é fator de crise. Inovar é preciso. O problema começa quando o novo precisa destruir o antigo; quando a representatividade está acima da qualidade; quando a identidade substitui a obra; quando a política substitui a arte; e quando Homero precisa pedir desculpas como o Fiuk ou o Mamãefalei. Aqueles que gostam de arte simplesmente porque ela é técnica, prazer e expansão da própria consciência estão perdidos como Ulisses. Continuam amando Camões, Machado, a música — tudo aquilo que lhes ensinou a reconhecer a beleza —, mas, em sua própria Odisseia, já não encontram no mundo que os cerca a tradição que os formou. Não abandonaram suas casas, mas as viram transformadas em um lugar que já não conseguem reconhecer, tomadas por pretendentes sem qualquer mérito. O drama é que essa espécie de deriva é calculada, não foi uma mudança espontânea dos costumes. A política descobriu que grupos definidos por raça, gênero ou orientação sexual podem ser mobilizados como eleitorado cativo. O mercado, por sua vez, descobriu que identidades são excelentes categorias de segmentação e consumo. Assim, socialistas e capitalistas encontraram no identitarismo uma ferramenta para angariar votos e para vender produtos. E aqueles, que apenas queriam voltar para casa, descobrem que o seu desterro não passa de um negócio lucrativo para gregos e troianos. E, no fim, capitalistas e socialistas conheceram outro propósito comum além do amor ao dinheiro: demolir a nossa casa, erguida por séculos de tradição, e nos jogar na vala comum dessa muito útil e instrumental cultura de massas.
Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
© 2026 Não é Imprensa |
#Livros: A Mente Cativa, de Czesław Miłosz
#Livros: A Mente Cativa, de Czesław MiłoszPor que pessoas inteligentes colaboram com sistemas políticos nos quais não acreditam
Uma das perguntas mais feitas no século XX é como pessoas cultas, escritores, poetas, enfim, artistas e intelectuais, aceitam ser subservientes a políticos e ideologias que, normalmente, desprezariam. É o que Czesław Miłosz tenta explicar em A Mente Cativa, publicado no Brasil pela Editora Âyiné, em 2022. O livro é de 1953. O autor polonês não tinha apenas uma curiosidade intelectual sobre o tema. Mas uma reflexão viva de quem assistiu tudo de camarote. Depois da guerra, Miłosz foi diplomata da então Polônia comunista em Washington e também em Paris. Aproveitou para romper com o regime e pedir asilo político. Passou a viver na França. Foi nesse processo de mudança de vida que Miłosz escreveu seu livro. Ele mesmo, poeta, romancista e intelectual, se viu obrigado a aceitar se submeter ao comunismo depois de ter combatido, na clandestinidade, as forças de ocupação nazista em Varsóvia. Eles se livraram da ideologia assassina alemã, mas tiveram o azar de cair nas garras dos assassinos soviéticos.
Continue lendo este post gratuitamente no app Substack
© 2026 Não é Imprensa |


