Se por um lado ele tinha a imprensa prostituta que faz tudo por dinheiro, agora veio à tona o grupo de zap mafioso do banqueiro atrapalhão. “A Turma” era o nome do grupo onde aliados do banqueiro discutiam estratégias para monitorar, pressionar e intimidar jornalistas e desafetos. Ali se trocavam informações sobre rotinas, se planejava levantar dados comprometedores e, em alguns casos, sugeriam-se formas de intimidar críticos que publicavam reportagens sobre os negócios do grupo. Além da vida louca de festas privês, Vorcaro gostava de bancar o bandidão com sua '“turma”. Mas era mais uma máfia de brancaleone. Em vez de pistoleiros em bares esfumaçados, havia celulares e mensagenzinhas mal-educadas. Eles queriam “dar um surto”, “dar um pau”, “quebrar dentes”… No final, Vorcaro parece menos um capo de máfia do que um picaretinha nessa corrida maluca que é o Brasil. Mas ele tem boas amizades. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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quinta-feira, 5 de março de 2026
#TurminhaDoVorcaro
E O Lobo Dá Boa Tarde às Coisas Ali Em Baixo
Obrigado pela sua leitura! E O Lobo Dá Boa Tarde às Coisas Ali Em BaixoUma obituário de André de Leones sobre António Lobo Antunes
(Texto publicado no Estadão em 05.03.2026.) Nascido em 1942, António Lobo Antunes só publicaria seus dois primeiros romances em 1979: Memória de Elefante e Os Cus de Judas. Neste, ficcionalizou pela primeira vez as suas vivências como médico militar na Guerra de Libertação em Angola, onde serviu entre 1971 e 1973. Ele retornaria ao tema direta ou marginalmente em diversas narrativas posteriores, entre as quais se incluem as obras-primas Fado Alexandrino (1983) e Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo (2004). N’Os Cus de Judas, ainda grudado às impressões de uma única primeira pessoa, já se fazem presentes a imageria e o ritmo que o consagrariam: “A pouco a pouco a usura da guerra, a paisagem sempre igual de areia e bosques magros, os longos meses tristes do cacimbo que amareleciam o céu e a noite do iodo dos daguerreótipos desbotados, haviam-nos transformado numa espécie de insectos indiferentes (…)”. No decorrer de uma obra extensa, constituída por mais de trinta romances (além de livros de crônicas e correspondências), Lobo Antunes jamais barateou ou vulgarizou os próprios estilo e memória. Ao contrário, com precisão e parcimônia, ele radicalizou uma forma inconfundível de escrita, fragmentando um emaranhado de vozes e tempos narrativos que se dispersam cada vez nas páginas dos livros, os períodos quebrados representando — inclusive graficamente — uma realidade sempre e cada vez mais estilhaçada. Em Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, por exemplo, as vozes dos doze narradores principais não constituem uma polifonia, mas algo como o indício de uma derruição, espécie de “poliafasia” apontando para a impossibilidade de oferecer significado ao ciclo interminável de violência. A trama diz respeito às viagens sucessivas de agentes portugueses à Angola pós-independência para trucidar aquele que o precedeu e recuperar diamantes contrabandeados. É como se o autor encenasse e reencenasse a descida conradiana ao Coração das Trevas, em que, na vampirização da ex-colônia, os agentes são engolidos por ela. São como touros indo para o abate, um após o outro, e mesmo as suas vozes são invadidas e corrompidas por vozes outras, como a da filha morta de um deles, “invocada” pelo próprio pai: “escreve isto por mim filha, acaba isto por mim, assina com o teu nome, impede-me de dizer o que falta”. N’O manual dos inquisidores, a partir de uma quinta em Palmela, no Setúbal, ou de lembranças sempre ligadas à quinta, o autor se volta para os estertores do salazarismo e a emergência e as consequências da Revolução dos Cravos, recorrendo, inclusive, à voz debilitada de um sujeito que fora ministro do ditador (“O Ministro é Cornudo”). De novo, o ciclo interminável de violências domésticas e públicas, o “panorama habitual, por que motivo, explique-me, nada se altera neste País”. É comum ouvirmos por aí que “a ficção não dá conta da realidade” ou que “a realidade ganha fácil da ficção”. Ora, autores como Lobo Antunes (a rigor, qualquer escritor minimamente talentoso) sabem muito bem disso e, acima de tudo, sabem que não se trata disso. Não há experiência que seja representável ou traduzível por inteiro, e a grande literatura desliza por essa incompletude, faz dessa contradição — narrar o inenarrável, representar o irrepresentável, traduzir o intraduzível — a sua força. Narrar é faltar. Mas, paradoxalmente, à literatura de António Lobo Antunes não falta nada. ****** AQUI, um pequeno ensaio meu sobre Boa tarde às coisas aqui em baixo, meu livro predileto do autor. ****** CINCO VEZES LOBO ANTUNES FADO ALEXANDRINO (1983). Dividido em três partes, “Antes da Revolução”, “A Revolução” e “Depois da Revolução”, o romance reúne em um jantar cinco ex-combatentes (um dos quais estranhamente quieto) que, após a derrocada da ditadura salazarista, rememoram e reinventam o que vivenciaram. A terceira e as primeiras pessoas se atropelam e acontecimentos são narrados de diferentes perspectivas. No final, um novo ato de violência ressignifica todo o percurso. EU HEI-DE AMAR UMA PEDRA (2004). Um caso de amor da juventude é retomado muitos anos depois, na maturidade. “Há quanto tempo isso foi? Terei inventado tudo?”, pergunta-se uma vez. As fotografias que servem à condução da narrativa indicam que não, mas quem sabe? E, se for o caso, não importa. A beleza da fabulação sustenta-se sozinha. ONTEM NÃO TE VI EM BABILÔNIA (2006). No decorrer de cinco horas, em plena madrugada, instigadas pelo suicídio de uma menina, vozes insones dizem, desdizem, relembram, deslembram, ratificam e retificam, em um movimento crescentemente desestabilizador, arrastando o leitor para o centro da polifonia. O MEU NOME É LEGIÃO (2007). Não é “apenas” isso, mas pode ser lido como um amplo e multifacetado painel da violência urbana contemporânea, com especial atenção às populações imigrantes e as condições precárias em que vivem na Europa, em desterro, desconectadas dos lugares de onde vieram e não abraçadas pelo lugar em que se encontram. O TAMANHO DO MUNDO (2022). Derradeiro romance publicado pelo autor, é um dos melhores momentos de sua ficção tardia, na qual a polifonia ainda se instala, mas movimentada por ocorrências mínimas e espectrais. Memória é também fantasmagoria. André de Leones (Goiânia, 1980) é autor dos romances Eufrates (José Olympio, 2018) e Terra de casas vazias (Rocco, 2013), Vento de Queimada (Record, 2023) e Meu Passado Nazista (Record, 2025). Vive em São Paulo. Página pessoal: andredeleones.com.br. Eis o Substack dele. You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription. © 2026 Martim Vasques da Cunha |





