#Cinema: o filme mais iconoclasta de todos os temposA Montanha Sagrada (1973), de Alejandro Jodorowsky, apresenta uma busca pelo ecumenismo supremo na sociedade atual
O cineasta, escritor, quadrinista, ensaísta e ator chileno Alejandro Jodorowsky costuma fazer filmes esquisitos, excêntricos, grotescos e repletos de humor ácido sob uma perspectiva bastante teatral, conforme podemos verificar nas obras Fando e Lis (1968) e El Topo (1970), muito influenciadas pelas peças experimentais do dramaturgo (alegado como apátrida) Fernando Arrabal e também pelo movimento literário espanhol denominado “tremendismo”, escola de vanguarda caracterizada pela existência de uma busca imanente por parte dos artistas que estão inseridos na cultura da oralidade e das tradições popularescas do interior da Espanha por um conteúdo mais extremo do que a alma humana pode refletir, especialmente em contextos de violência desmesurada, adultério e hipocrisia social generalizada. A Montanha Sagrada (1973) vai na mesma direção da procura pelo excêntrico e não convencional, porém, ao contrário da miserabilidade e da busca da violência extrema das suas duas películas anteriores, Jodorowsky pretende indagar a espiritualidade e o ecumenismo (para não chamar de sincretismo religioso) da sociedade hispânica, conforme padrões das crendices populares e das tradições não documentadas em livros de Antropologia e de Sociologia, numa obra em que ele mesmo dirige, roteiriza e atua como personagem protagonista, espécie de Deus onipotente, onisciente e sabedor de todas as coisas e representante máximo de todas as religiões. O cineasta chileno, no entanto, cria uma entidade supra-religiosa denominada “O Alquimista”, em que há a possibilidade deste em controlar Jesus Cristo, Buda, deuses romanos, cartas de tarô, a população local e a espiritualidade do Planeta Terra, retratada sob uma perspectiva sincrética numa cidadezinha do interior do México pela qual se torna o microcosmo de toda a humanidade, conforme podemos constatar no começo da trama, quando somos transpostos a uma realidade ainda que iconoclasta contra a religião católica, ao ser retratada a imagem de Cristo como moldes em formato de bolos de festa infantil, pelo qual é destruído pela população num espetáculo de incivilidade característico de cidades pobres ao redor do Brasil, e também como um pedinte abandonado e repleto de moscas, rodeado por anões, pessoas portadoras de deficiência e esmoleres nus, cuja representação circense blasfema e grotesca conflui-se com o popularesco e também, em certa medida, com o dantesco, justamente por se retratar tudo o que há de mais nojento na sociedade atual. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Em sendo, Jesus Cristo, na verdade, é retratado um ladrão, que tenta, a todo custo, galgar uma posição na sociedade através da sua procura por pepitas de ouro e enriquecer facilmente. Além disso, a imagem do Filho de Deus pode ser vista como um títere (ou até mesmo um aríete) nas mãos de uma super-entidade que o controla de forma vil (e também espalhafatosa) tal qual um ventríloquo manejado num espetáculo de “teatro de mamulengos”. O destino, então, deste boneco já está traçado e pode soar como algo já determinado por um plano imutável. Então, para romper esse liame, Cristo, que também pode ser visto como um pobre pecador, especialmente quando se envolve com uma andarilha, retratada como prostituta, numa clara referência à Maria Madalena, precisa despertar o seu papel como o homem celestial que é. Então, para que possa atingir a aura divina, com o fito de expiação dos seus pecados, enfrenta provações determinadas pelo Alquimista, como subir uma montanha íngreme e inacessível. Ao chegar ao destino, o ladrão defeca no ambiente e o Alquimista transforma os seus excrementos em ouro e o aceita como aprendiz, o que deixa Cristo bastante entusiasmado. Para que se torne um Mestre, o ladrão é acompanhado por vários deuses, a saber Vênus, Marte, Júpiter, Netuno e Plutão, em uma viagem guiada pelo Alquimista para que este encontre a espiritualidade. E, assim, ao chegarem ao destino, a entidade afirma que todos eles estão preparados para a “vida real”. Jodorowsky, por meio de um figurino excêntrico e luminoso, e também pela sua fotografia peculiar repleta de tons auríferos, constrói uma peça cinematográfica coesa e bastante sincrética do povo de vista artístico, numa experiência que pode ser vista como lisérgica pelo seu espectador. E além disso, apresenta-nos uma obra da qual a interpretação deste filme pode seguir por várias direções, entre essas a da primeira camada: blasfêmia pura e simples da sua parte. Porém, quando se entende a proposta da cinematografia, o espectador pode entender que, por mais o artista possa ser enquadrado como louco pelas suas excentricidades, há outros níveis de profundidade interpretativa da película, entre eles a de que um indivíduo, que se acha acima de todas as convenções sociais, isolado tal qual um eremita, é capaz de manipular até Jesus Cristo para tentar alcançar os seus objetos, ou também que as provações pelas quais uma pessoa precisa passar podem quebrar paradigmas estabelecidos por uma sociedade que busca estabelecer padrões graníticos e desafiadores. Os interessados na apreciação de “A Montanha Sagrada” podem encontrá-lo na Claro TV. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
|
DICAS DO ZE
Total de visualizações de página
domingo, 4 de outubro de 2026
#Cinema: o filme mais iconoclasta de todos os tempos
#CopilotoDoTerror
#CopilotoDoTerrorPiloto indiano evitou ataque terrorista em Israel
O general Hamad Saif Al Shamsi, procurador dos Emirados Árabes Unidos, confirmou ontem que “o incidente com o avião da FlyDubai que voava para Israel foi um ataque terrorista. O copiloto, Hammam al-Hammami, cidadão de Omã, utilizou um machado de emergência, localizado na cabine, numa tentativa de assassinar o piloto indiano Smit Machchhar e assumir a aeronave. Mesmo ferido, o piloto conseguiu destravar a porta da cabine, permitindo que passageiros e tripulantes pudessem impedir que o copiloto assumisse o controle do avião que transportava 182 pessoas. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo.
Continue lendo este post gratuitamente no app Substack
© 2026 Não é Imprensa |




