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DICAS DO ZE
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domingo, 24 de maio de 2026
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#Cultura: o cinema brasileiro é um exercício de resistência
#Cultura: o cinema brasileiro é um exercício de resistência"É difícil aceitar que o Brasil, com sua grande literatura, sua música e até suas artes plásticas, ainda não tenha aprendido a fazer cinema"
A prática leva à perfeição, mas somente se houver talento. Do contrário, a prática só leva à prática mesmo. Ainda mais quando não se está aberto à crítica. No cinema nacional, ocorre o segundo caso. É difícil aceitar que o Brasil, com sua grande literatura, sua música e até suas artes plásticas, ainda não tenha aprendido a fazer cinema – a despeito do rio de dinheiro que corre, sem margens, no segmento. E apesar da choradeira e das mentiras que se contam por aqui, em Cannes ou em Hollywood, essa é uma verdade inapelável. Tudo em nosso cinema é fraco, feio e, não raro, pretensioso. Nunca fizemos um filme em que tudo funcionasse. Colocando uma melhoria aqui e falhando acolá, é como se estivéssemos aprendendo, a conta-gotas, a encher o vaso das danaides. Às vezes, por tédio, imprudência ou falta de amor-próprio, atrevo-me a assistir a algum filme feito por aqui. Não recomendo essa medida extrema. Aconselho uma atividade mais atlética, como catar coquinho na ladeira ou, mais edificante, como investir no tigrinho, postar foto de comida ou encher a cara de Corote. Tudo é melhor que o nosso cinema, até o rock nacional. Os dois casos mais recentes de ufanismo ou delírio coletivo são Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, filmes que passaram sem as devidas palmadas ou, ainda pior, que foram decantados como ambrosia. As péssimas ou comuníssimas atuações, as personagens ocas e sem identificação possível, a fotografia feia ou sem graça, o ritmo despencado, o ridículo de algumas cenas: como aquela em que a Fernanda Torres marca os dias na cadeia como se fosse o Conde de Monte Cristo; ou o soco que o Wagner Moura desfere num empresário-assassino ítalo-paulistano que, sem nenhuma razão, ofende sua mulher. Tudo isso e muito mais fazem dos dois filmes, um chatíssimo e outro horroroso, cada um à sua maneira, experiências insuportáveis. A quem, por desventura, acredite que o Wagner Moura seja um grande ator, recomendo, fortemente, que assista àquela bobagem chamada Elysium. Ademais, não entendo como paulistanos conseguiram assistir a toda aquela raiva, em audiovisual, que o Sr. Kléber Mendonça Filho dirige contra eles, como já havia feito em Bacurau, e volta a mostrar na sua última obra-prima. Será que o paulistano ficou tão passivo que não conseguiu entender o que esse senhor sente pelo povo daqui? Até meus brios de radicada sentiram o cheiro de discriminação. Respeito sim, mas não para quem nasça em São Paulo. Confere? Cumpre ressaltar que as supostas irregularidades investigadas pelo TCU na distribuição de O Agente Secreto não interessam a este texto. O assunto aqui é outro; o pecado também — embora ambos pertençam ao oitavo círculo do Inferno. É verdade que aqui, em se plantando, tudo dá – até o vinho –, mas não o cinema. O cinema não é feito com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Ele também não é um brinquedo de meninos ricos que podem pendurar a câmera até no céu. Ele é um jogo de adulto, é arte. Quando as luzes se apagam, numa sala pública ou num cômodo privado, deve, obrigatoriamente, acontecer uma mágica, mas um filme brasileiro é a ausência total de arrebatamento. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Durante muito tempo, os problemas técnicos eram evidentes no som. Diálogos mal captados, ruídos indesejados e mixagens desequilibradas comprometiam a imersão. Quase não havia construção de ambiente sonoro. Sem camadas de sons que dessem textura ao espaço, enfraquecia-se a representação do mundo e a dramaticidade. Essas impropriedades, sempre lá, comprometiam a sensação de ser cinema. Agora, superado, em grande parte, esse problema, a sensação permanece. As outras carências ficaram ainda mais nítidas porque já não são escondidas pela deficiência no som ou porque, simplesmente, ainda não foram assumidas. A fotografia, responsável por grande parte da experiência cinematográfica, costuma ser pouco expressiva ou feia mesmo. Ela oscila, com frequência, entre a falta de intenção estética, a intenção bobinha e o excesso de artificialidade. Ora excessivamente iluminada, sem contraste e com aparência televisiva, pensada apenas para tornar tudo visível; ora escura demais, indicando falta de controle, nossa fotografia rivaliza com a indignidade de nossos diálogos. Desprovida de tratamento artístico consistente, nossa fotografia oscila entre a paleta monocromática sem intenção plástica e o excesso de cores de um carnaval da terceira divisão. Ela não só falha em criar atmosfera como parece empenhada em afastar qualquer dose de beleza. Também ainda se pode ver erros primários como céus e janelas estourados – exposição para a qual me faltam palavras. Mesmo quando há bons equipamentos, o enquadramento e a montagem seguem uma lógica de receita de bolo. Podem objetar que a coisa tem melhorado nessas questões mais técnicas, uma vez que o avanço da tecnologia faz parte do trabalho limpo. Mas o que dirão do resto? Pela direção de atores e pela encenação, paga-se ainda mais caro. De modo enigmático, até atores relativamente bons em TV ou teatro, não conseguem ser convincentes quando atuam em filmes. O efeito de teatro filmado ou de novela tem a ver com a forma como o ator é dirigido. Em alguns filmes, as interpretações são excessivamente naturalistas, sem a afinação que o cinema exige. Em outros, são declamatórias, com falas marcadas demais. Parece faltar-lhes subtexto. Personagens falam exatamente o que sentem e pensam, diálogos viram teses em vez de representar a vida – o texto soa escrito. A encenação também fica problemática porque a marcação é, para dizer o mínimo, frágil. Atores, na maioria das vezes, ficam parados com a audácia de um aparador de pratos. Não há a combinação de corpo, espaço, câmera e tempo. Agora vem a hecatombe: as deficiências do roteiro e da construção dramática. Somos obrigados a chamar de cinema filmes com conflitos pouco claros ou óbvios demais, arcos frouxos e finais anticlimáticos. Às vezes, o trabalho, que nesse caso quer dizer apenas força × deslocamento, é aplicado num realismo bruto que simula profundidade. Falta progressão verdadeira nas tensões, viradas e transformações. Já os diálogos são um suplício à parte – sem espírito, sem verossimilhança, sem ritmo ou, simplesmente, constrangedores. Sobre esta questão do roteiro, diferente do que acontecia com o som, os filmes brasileiros mais antigos eram até melhores do que os contemporâneos, pois nossos escritores eram muito superiores e as pautas, ou os temas das religiões, ainda não eram obrigatórios. A dinâmica dos gêneros nem sempre é dominada – o suspense não gera verdadeira expectativa e o drama não nos carrega. Ou alguém já se emocionou, de verdade, com algum filme brasileiro? E ainda tem o problema do dinheiro. O cinema é uma arte caríssima. Orçamentos baixos ou mal direcionados tornam difícil a profissionalização a sério dos especialistas técnicos – sem os quais o diretor não pode fazer nada. Hollywood, imitado por outros cinemas de sucesso, é uma maravilha operada por muitos santos. Não é coisinha de edital ou de uma vaquinha gorda, alimentada por critérios extra-artísticos. Sem aquela tradição industrial, onde padrões de excelência foram se cristalizando por mais de um século, tudo se reduz ao vai que vai. Portanto, não basta despejar dinheiro, a torto e a direito, é preciso orientá-lo na construção de uma tradição para que não fiquemos para sempre à espera de um milagre. Nesse ponto, o Sr. Walter Salles até pode sair com certas vantagens, mas nem todo o dinheiro do mundo consegue lhe comprar o talento para fazer mais do que seu cinema simplório, chocho e sem comoção. Tanto é assim que, para arrancar algum sentimento do espectador sério e compensar a aborrecida música minimalista de Central do Brasil, o cineasta teve de se valer da gravação do Cartola, nos créditos finais. É verdade que esse filme é um pouco menos chato do que aquele que lhe rendeu o Oscar, mas não passa disso. Um grande filme deve ficar não como mera lembrança, mas como um paradigma, um acontecimento. Além de tudo isso, é impressionante que o cinema brasileiro, ao menos o mais conhecido, gire em torno de três ou quatro temas: os traumas da ditadura; a miséria e a exploração no sertão; a violência urbana; os bandidos e os policiais massacrados por eles mesmos, pela consciência ou pelo salário; bem como as piadas ou os dramas românticos da burguesia da Zona Sul, que entre Copacabana e o Leblon, só precisam se preocupar com a tosa do pet, um fora ou o horário da terapia. Do favela movie ao drama de apartamento, somos obrigados a reconhecer nossa identidade enquanto indivíduos ou como povo, mas o espectador fica apenas com a impressão de que já viu esse polícia, esse traficante mirim e esse casal sem graça com vista para o mar. Não sou nenhum connaisseur de cinema, nunca estudei sua linguagem. Mas, além de já ter visto muitos filmes bons, todos esses problemas parecem gritar da tela, soando como franco amadorismo. A fim de evitar a antipatia e a injustiça, estou até agora à procura de uma menção honrosa, onde tudo esteja no lugar certo. No entanto, juro que não a encontro. Quem quiser pode dizer a sua. Confesso que até consigo imaginar algumas que podem passar pela cabeça, mas posso apostar que serão mais fruto de orgulho ou de generosidade do que de verdadeira admiração. Pois, encontrar, entre nós, uma grande obra cinematográfica, como entre nossos vizinhos argentinos, por exemplo, é o décimo-terceiro trabalho de Hércules. Mesmo com cúmplices em coprodução gringa, os filmes nacionais continuam ruins. Já estou ouvindo os aplausos na linha de chegada do grande lançamento do ano – o já maravilhoso Dark Horse do Sr. Quem Quer Que Seja. Ou alguém duvida de que ele encontrará plateia satisfeita? Afinal de contas, por aqui, certas obras já estreiam consagradas. __________________ Mariella Augusta é contista, pesquisadora e ensaísta. Autora da coletânea de contos Suíte (Ed. Faria e Silva) e outros.
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