Revi Maltese Falcon, do John Huston, filme que me levou a pensar novamente sobre o livro do Hammett e minha leitura dele. No filme reafirma-se a conduta e a visão de mundo cínica do detetive particular Sam Spade, cujo ponto de vista é o da narrativa da história, cinismo que se espelha em todos os lados, em pequenas comentários, sarcasmos, gestos, ações – cada figura tem um pouco a manifestar esse que parece, ao longo de todo filme, ser o coração daquele mundo, e o coração amargo da realidade. ... Continue a leitura com um teste grátis de 7 diasAssine Livraria Trabalhar Cansa para continuar lendo esta publicação e obtenha 7 dias de acesso gratuito aos arquivos completos de publicações. Uma assinatura oferece a você:
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DICAS DO ZE
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Diário e rememoração, VII
#AMetamorfoseDaEsquerda
Vivi uma época em que as pessoas discutiam política na mesa de bar. Eu tinha alguns amigos petistas. Meu professor de redação da faculdade fazia uma careta cômica quando eu dizia que votaria em Serra em vez de Lula, na eleição de 2002. Hoje, as famílias brigam por políticos. O que antes era uma discussão sobre como distribuir a renda de maneira mais eficiente virou uma guerra de sinalização de valores. O mundo mudou de maneira estranha e indecifrável. Na época da minha juventude, os gays se mudavam para cidades como São Francisco e Nova York. Muitos deles fugiam de países comunistas e islâmicos, onde eram perseguidos por sua sexualidade, para desfrutar da liberdade das capitais americanas. Hoje, a homossexualidade não é mais associada ao cosmopolitismo capitalista dos EUA, mas, estranhamente, à esquerda revolucionária ou ao conservadorismo islâmico, correntes que tanto perseguiram gays ao longo da história. A esquerda deixou de ser progressista no sentido de promover o progresso da vida do proletariado. Tornou-se outra coisa que ninguém sabe exatamente o que é. Uma mistura de discursos de puro ressentimento contra quase tudo: da masculinidade à miscigenação racial, passando pelo humor. Colunas de jornal voltadas ao público feminino são escritas a favor de homens efeminados e contra os chamados “héterotops”. Teses de ciências sociais argumentam que a miscigenação brasileira é prova do racismo estrutural do país. Comediantes são cancelados e acusados de crimes porque algumas pessoas — que não são, claro, o público desses artistas — consideram seus shows “ofensivos”. Afinal, o que aconteceu? O NEIM precisa da sua colaboração para continuar revelando o que as notícias escondem por conchavos políticos e ideológicos. ASSINE AGORA! Minha tese é que a esquerda atual perdeu a capacidade de sonhar. O que é curioso, pois sempre associei a esquerda a pessoas românticas e sonhadoras, que queriam fazer do mundo um lugar melhor por meio da política. Acredito que, de tanto negar dialeticamente a religião (o comunismo sempre foi um culto fechado em si mesmo) e o próprio poder transformador do dinheiro — mudando seu discurso, com o tempo, de “como distribuir a riqueza” para “como odiar a riqueza” —, a esquerda acabou perdendo também, de maneira análoga, a fé. Fé é algo que vai além da religião. É a capacidade de crer em algo que ainda não somos capazes de enxergar. Fé é, portanto, fundamental para sonharmos. Acreditar que o mundo pode ser melhor é um discurso que desapareceu da esquerda política. Tudo o que restou para os esquerdistas atuais foi antagonizar. Os alvos são inúmeros: os bem-sucedidos, os ricos, os héteros, os miscigenados, os casados, os religiosos, os artistas não alinhados ideologicamente — ou seja, todos aqueles cuja visão de mundo coincide com a dos partidários. No mundo todo, a esquerda parece ter abandonado sua função histórica de projetar um futuro melhor, restando-lhe apenas a proposta de impedir um presente pior. Um dia, Lula fez campanha com o lema “a esperança venceu o medo”. Hoje a campanha petista já não vende esperanças: sua principal bandeira é impedir a ascensão da extrema direita, do fascismo ou, mais recentemente, do bolsonarismo. O mesmo processo ocorreu nos Estados Unidos. No passado, Obama venceu com seu famoso bordão “Yes, we can”. Atualmente, quem vende o sonho de tornar a América grande novamente é o MAGA, enquanto os democratas se limitaram a propagar o temor do retorno de Trump durante a campanha de Kamala. Tudo indica que o histórico analfabetismo religioso da esquerda tornou-se um problema político. As comunidades religiosas praticam o sonhar, a imaginação e a esperança há muito mais tempo do que as instituições políticas. Além disso, a política secular jamais conseguiu replicar — ainda que tenha tentado — as capacidades emocionais que as religiões levaram milênios para desenvolver. Não é à toa que estamos assistindo à eleição de candidatos muçulmanos por partidos de esquerda em capitais da Europa e dos EUA. Diferentemente dos ateus históricos da esquerda, os islâmicos democratas e trabalhistas não apenas têm bom desempenho eleitoral entre os imigrantes, como também já compreenderam algo que por muito tempo passou longe do radar dos progressistas: que, ao se fazer política, a fé não é mero luxo, mas um elemento fundamental para conquistar corações e mentes. Nenhuma política se sustenta apenas pelo medo, e sociedades não se organizam em torno da negação. Se a esquerda quiser voltar a ser uma força histórica relevante, precisará reaprender aquilo que sempre a distinguiu: a arte de imaginar futuros, de oferecer sentido e de falar ao desejo humano. Se você gostou deste texto, ASSINE e contribua com o nosso site. A gente precisa da sua ajuda para ampliar o nosso trabalho. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. © 2026 Não é Imprensa |
Notas sobre os Contos de Kolimá, de Varlam Chalámov
As origens czaristas do Gulag, que eram campos de trabalhos forçados, que “inspiram” a criação dos campos de extermínio nazistas. Há que se observar que nas narrativas da Shoah, há sempre um início em quê é registrado a execução sumária da maior parte dos prisioneiros. Nos Gulags há morte, mas ela paira como uma doença que aos poucos vai corroendo os prisioneiros, nos campos de extermínio nazista a morte existe de forma mecanicista, industrial. Tanto que muitos dos sobreviventes dos Gulags passaram anos, décadas aprisionados, algo inimaginável em um campo de extermínio nazista. Nos relatos dos sobreviventes dos Gulags há uma pletora de personagens cruéis, sádicos e brutos. Estes personagens são mais presentes e tanto quanto os guardas prisionais, fazem parte do ecossistema totalitário que condenou os prisioneiros. Há criminosos comuns, estupradores, ladrões, etc…que usam da força e da coação para tirar proveito dos mais fracos. Nos Gulags a opressão não era apenas do sistema ou dos oficiais, mas também do “camarada” condenado. Um detalhe que ressalta tal brutalidade é que há poucas prisioneiras mulheres nos Gulags, a maioria são homens dentro deste “subsolo”. Tal condição está retratado de forma aguda no conto Cruz Vermelha: “São incontáveis os delitos dos ladrões no campo de trabalhos forçados. Infelizes são os bons trabalhadores, dos quais o ladrão leva o último trapo, tira a última nota; e o trabalhador tem medo de reclamar, pois vê que o ladrão é mais poderoso do que a chefia. … O chefe é grosseiro e cruel, o educador é mentiroso, o médico é inescrupuloso, mas tudo isso são bobagens em comparação com a força corruptora do mundo da bandidagem. De qualquer modo, são pessoas, mas neles raramente se manifesta algo humano. Os bandidos, portanto, não são gente.” Os Gulags eram campos de trabalhos forçados onde corpos e almas eram submetidos a extremos de brutalidade e humilhação. Ainda assim, mesmo na época do terror stalinista, a morte dos prisioneiros não era necessariamente um fim buscado pelo Estado. Buscava-se a submissão plena. Dissidentes políticos, intelectuais, escritores, poetas, muitos da elite intelectual russa/soviética (mesmo apoiadores e entusiastas da revolução comunista), foram condenados aos campos - e surge desta experiência algumas das mais impactantes obras da literatura russa/universal. Preso pela primeira vez em 1929 por tentar distribuir uma carta censurada de Lenin, Chalámov foi libertado em 1932 após três anos de trabalhos forçados. Preso novamente em 1937, no início do grande expurgo, passou os 17 anos seguintes em Kolyma. É desta experiência que irá, até o fim de sua vida, se tornar os “Contos de Kolimá”. Vale notar que a obra de Chalamóv suscitou uma divergência histórica/estética/literária com o mais conhecido dos escritores dissidentes da União Soviética, Aleksandr Soljenítsin. Solzhenitsyn disse que o encarceramento de Chalamóv “foi mais amargo e mais longo que o meu, e digo com respeito que coube a ele, e não a mim, atingir o fundo do poço da brutalidade e do desespero para o qual toda a vida no campo nos arrastou”. Por sua vez, Chalámov era desdenhoso em relação a Solzhenitsyn, cuja fama invejava: recusou o convite de Solzhenitsyn para co-escrever Arquipélago Gulag e certa vez descreveu os campos como um tema “que pode acomodar livremente cem escritores do calibre de Solzhenitsyn e cinco Tolstói”. Na visão de Chalamóv, Solzhenitsyn “estetizava” a experiência do Gulag. Em um artigo sobre a rusga entre os dois escritores, o historiador e ensaísta Valery Yesipov disseca o drama literário e moral: “A aflição da literatura russa é que ela se intromete, dirigindo a vida das pessoas, opinando sobre assuntos nos quais não tem competência” – a declaração de Chalámov obviamente polemiza com Soljenítsin, que, a partir de meados da década de 1960, se posiciona abertamente contra o regime, baseando-se na tradição conservadora (Dostoiévski) e no exemplo moral de Tolstói. Em uma carta de 1972, Chalámov afirma categoricamente: “Soljenítsin está atolado nos temas da literatura do século XIX”, “todos aqueles que seguem os preceitos de Tolstói são trapaceiros”, “tais professores, poetas, profetas, escritores só podem fazer mal”. Shalamov estava convencido de que “todo tipo de inferno pode, infelizmente, voltar!”. A razão para esse pressentimento sombrio é que a Rússia não compreendeu a principal lição do século XX: “o animal interior pode se libertar mesmo sob o disfarce dos conceitos mais humanistas”. E mais: “A mera ideia de classificar as pessoas em ideologicamente “puras” e “impuras” era para ele um sacrilégio. Todos aqueles que acreditavam sinceramente na validade dos princípios da nova vida e que, tendo sido vítimas do terror, preservaram o que havia de humano, são, aos seus olhos, dignos apenas de compaixão. Nessa imparcialidade, compreensão e ternura reside a suprema retidão moral de Chalámov.” O senhor(a) é atualmente um(a) assinante gratuito(a) de Livraria Trabalhar Cansa. Para uma experiência completa, faça upgrade da sua assinatura. © 2026 Livraria [trabalhar cansa] |



