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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
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#Cinema: Hamlet – a beleza que nasce do sacrifício
#Cinema: Hamlet – a beleza que nasce do sacrifícioO filme de Chloé Zhao é uma das mais belas homenagens à Arte
Uma das críticas mais recorrentes a Hamnet, de Chloé Zhao, é de ser um filme manipulador de emoções. Ninguém sai ileso daquelas 2 horas e pouco de “intensa tragédia sobre o luto e a perda”, como classificou um resenhista do The Guardian. Mas a diretora Chloé Zhao também sabe manipular a arte a seu favor. Então, o luto e a perda que nos emociona e nos turva a visão em diversos momentos – sobretudo nas exuberantes cenas finais –, acabam se reconfigurando. Deixam de ser o centro emocional para se tornar um fundo existencial em que se elaborara não apenas uma forma de expressar a dor, mas de compreender o que ela pode revelar. E o que primeiro se revela é a maravilhosa atuação de Jessie Buckley. Começa como uma Agnes Hathaway humilde, meio enigmática, mas que vai se expandindo até transbordar na tela. Aos entusiastas da Inteligência Artificial – e também aos apocalípticos que acham que profissão de ator irá acabar –, Buckley demonstra que nenhum algoritmo pode substitui aquela presença luminosa que só os grandes artistas conseguem irradiar. Um exemplo daquela encenação viva do espírito humano que falava Stanislavski. O mesmo podemos dizer de Paul Mescal, embora por motivos opostos. Ele vive um Shakespeare introspectivo, que sofre profundamente a incompreensão do artista, que vive em luta contra si mesmo, sempre questionando “se é mais nobre sofrer na alma as pedradas e flechadas do destino feroz, ou pegar em armas contra o mar de angústias”. Porque, “tudo que é forçado deturpa o intuito da representação, cuja finalidade, em sua origem e agora, era, e é, exibir um espelho à natureza; mostrar à virtude sua própria expressão”. Jessie Buckley, Paul Mescal e, sobretudo, as crianças, Jacobi Jupe (Hamnet), Bodhi Rae Breathnach (Susanna) e Olivia Lynes (Judith), nos fazem, enfim, compreender o conceito de arte defendido por James Joyce: “disposição humana da matéria sensível e inteligível para uma finalidade estética”. No filme de Chloé Zhao, a arte aparece como contemplação, e não como uma fuga como pretendeu o resenhista do The Guardian. Está mais para uma forma de olhar para o abismo da existência sem ser consumido. Porque a arte não nasce como desabafo emocional nem como instrumento de persuasão moral, mas como disposição rigorosa da experiência humana para compor uma narrativa memorável e esteticamente bela. A arte, nesse sentido, surge menos como consolação e mais como tarefa. Criar não aparece como gesto espontâneo ou iluminado, mas como sacrifício. Sacrifica-se tempo, presença, relações familiares, filhos e até casamentos. O filme então sugere que ter talento não é uma benção confortável, mas uma exigência que cobra uma resposta que, na maioria das vezes, é bastante cruel. Criar, portanto, não é escolha estética, mas uma obrigação íntima. E essa obrigação implica o sacrifício, não apenas biográfico do artista, mas um bem mais profundo: o de submeter a experiência vivida às exigências estéticas da beleza. O artista verdadeiro é aquele que aceita a disciplina do fazer artístico, que aceita, enfim, a renúncia à expressão imediata em favor da integridade, da harmonia e da clareza da obra. Hamnet ecoa essa ética. E ainda reivindica que ter talento não é licença para falar de si, mas obrigação de construir algo que ultrapasse o indivíduo e, tornando-se universal, se sustente por si mesmo. É assim que Hamnet se aproxima daquilo que James Joyce considerava a forma mais alta da arte: aquela em que o artista desaparece atrás da obra, e a obra passa a viver por conta própria. A dor que a originou já não pertence a ninguém; tornou-se forma definitiva. O sacrifício não é apenas perder, mas aceitar que o talento exige esse desaparecimento. A arte não pode curar o luto de William e Agnes, mas ela o fixa, o ordena e o entrega ao olhar como algo completo, silencioso e universalmente contemplável. E, então, num silêncio contemplativo final, Agnes Hathaway pode sorrir diante da própria tragédia. E é exatamente nesse gesto singelo, mas sublime, que o filme encontra sua verdadeira ambição estética. Se você chegou até aqui e achou que esse texto vale alguma coisa, ASSINE o Não é Imprensa e ajude a manter o nosso trabalho. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. © 2026 Não é Imprensa |
Anatomia De Um Pepino
Atualmente, quando lemos as críticas cinematográficas na imprensa, somos obrigados a nos penitenciar como um numerário do Opus Dei, especialmente na hora de encarar o que Walter Porto escreveu, lá no distante ano de 2024, a respeito de Anatomia de uma queda, longa francês dirigido por Justine Triet, ganhador da Palma de Ouro em Cannes de 2023 e depois indicado à estatueta de Melhor Filme. Walter Porto foi promovido a ser o repórter de livros da Ilustrada. Ou seja: sua função é cobrir o mercado editorial. Ocorre que, às vezes, na falta de um crítico literário, ele também comete umas resenhas. Sua predileção de assunto é a cultura woke. Claramente, é um defensor dela. Até aí tudo bem, cada um faz o que conhece melhor, mas o problema é quando tudo leva a crer que ele divulga somente uma parcela deste setor (afinal, o mundo é vasto, etc. e tal). Agora, algum editor resolveu incumbi-lo para dissecar o filme de Triet pelo prisma da “narrativa”. Ah, a “narrativa”. De fato, um dos temas de Anatomia de uma queda é sobre o “choque de narrativas” em torno de uma mulher acusada de matar seu esposo, um infeliz que não conseguiu assumir as escolhas difíceis que fez na vida. Ocorre que isso é apenas a superfície da obra. E, para alguém que mexe com livros, recorrer a este recurso é um crime contra a linguagem - e contra o leitor. Olhem este trecho:
Os clichês do repórter “descolado” estão todos lá: “autoficção” (Proust mandou um abraço), “ficcionista de enorme potencial” (apesar da personagem no filme já ter três livros publicados), “influência” e “descompasso”. Meus leitores, citando Magritte: isto não é uma crítica. É um pepino. E dos grandes. Por quê? Simples: porque contrataram um repórter que não entendeu nada do filme que assistiu. É por isso que antes havia a figura do crítico (Verdade seja dita: na mesma página chamaram Inácio Araújo para falar a respeito do longa, mas ele deve ter errado de sala e foi ver outro filme, pois seu texto é absolutamente incompreensível). Ele analisava o que foi exibido diante dos seus olhos. E mais: sabia a que tradição aquele (ou aquela, se pensarmos em Triet) cineasta fazia parte. (É de se perguntar porque a Folha chama um repórter de livros para falar de uma obra cinematográfica desse calibre, quando poderia encomendar o mesmo tipo de texto a um Sergio Alpendre, um Filipe Furtado, um Miguel Forlin ou um Luís Villaverde, que simplesmente estão à margem do que se passa nas redações da Barão de Limeira). E qual é então o assunto de fato de Anatomia de uma queda? Não é sobre “narrativas” ou sobre a “busca pela verdade”. É sobre o amadurecimento traumático de uma criança (o formidável Milo-Machado Graner) que, no meio de uma tragédia ímpar, decide ser infinitamente mais adulta do que os próprios pais e, indo além, do que o próprio sistema judiciário, o qual está louco para condenar a sua mãe porque assim tudo se resolve da maneira mais exata e técnica possível. Ao modo de Otto Preminger em Anatomia de um crime (1958; sim, Triet está brincando com esse clássico) e de um David Fincher em Zodíaco (2008), a cineasta analisa a queda da Europa pelos olhos de um menino (que, por uma ironia macabra, é cego). Daí o título - ou vocês acham que é um acaso o detalhe de que a mãe é alemã e o pai é francês, justamente as duas nações que comandam a política da União Europeia? É uma Europa paternalista, que cria essas “narrativas” fajutas porque é incapaz de encarar a sua própria história (sim, há uma diferença entre uma e outra, mas isso não vem ao caso agora). A insistência da nossa imprensa cultural em decifrar filmes complexos por meio de clichês - algo também copiado pelos influenciadores de redes sociais, que competem entre si na miopia analítica, seja do lado da direita ou da esquerda - só prova que, infelizmente, não estamos em nenhum porto seguro. Não à toa, a leitura do cenário político passa pelo mesmo problema (e a redação aqui jura que se alguém citar a batida frase de Hugo Von Hoffmanstahl, vamos mandar este sujeito ir para onde o Judas bateu as botas). A nossa política se tornou um caso de polícia porque somos obrigados a engolir os pepinos escritos por um Walter Porto da vida. Depois não sabemos porque ficamos entre Lula e Bolsonaro. E o pior: somos incapazes de fazer a anatomia da nossa própria queda. *** AVISO: NOVO CURSO - ALÉM DO ZEROQueridos leitores: Temos um novo curso ALÉM DO ZERO - VIVENDO NA RELIGIÃO DA TECNOLOGIA. Trata-se de um prosseguimento do assunto que abordei no meu curso anterior, De Zero a Nero - O que Shakespeare ensinou a Peter Thiel sobre os rumos da liderança, que você pode adquirir aqui. Serão seis aulas, de 30 minutos a 1 hora de duração. Aqui vão os temas abordados: O curso é também uma reflexão sobre certas obsessões minhas e que me acompanham desde a época do meu primeiro livro, Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More (2012), indo até A Disciplina do Deserto, minha obra derradeira. Ambos os livros serão lançados juntos em 2026, se os deuses do mercado editorial permitirem. Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará o curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. 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Um forte abraço do MVC © 2026 Martim Vasques da Cunha |














