#Literatura: O sol meio cheio de Chimamanda Adichie (2)Um livro que você precisa ler antes de morrerParte 2 Na guerra de Biafra, nem tudo foi silêncio: a Grã-Bretanha naturalmente apoiou as forças nigerianas dos Hausa para não perder o controle sobre o petróleo; a União Soviética também, para ganhar um território soviético na África. Aleksei Kosigyn, primeiro ministro, declarou, em 1967, que “o povo soviético entende perfeitamente os motivos da Nigéria (de atacar Biafra) para impedir que o país seja desmembrado.” Por sua vez, houve demonstrações de coragem: Tanzânia, Gabon, Costa do Marfim, Haiti e Zambia reconheceram a independência de Biafra. A França e Israel enviaram tropas, dinheiro e armas a Biafra. E em 1968 Richard Nixon, candidato à presidência dos Estados Unidos, tampouco calou-se, declarou que Até agora, os esforços para aliviar o povo de Biafra têm sido subvertidos pelo desejo do governo central da Nigéria de buscar vitória incondicional e pelo medo do povo Igbo que a rendição signifique atrocidades em massa e genocídio. Mas genocídio é exatamente o que está em curso neste momento, e o anjo da morte é a fome. Uma possível analogia aos países ‘bem-intencionados’ mas incapazes de reconhecer publicamente a independência de Biafra está em Ugwu, personagem que no início do romance é um adolescente começando a descobrir o amor e o erotismo. Ele amadurece a duras penas, mas mesmo ao final da guerra, é incapaz de revelar seu amor à amada, e por isso ela se perde. Richard, outro personagem de boas intenções, também é incapaz de confessar seu amor a Kainene, e ela desaparece. É uma forma de dizer que a guerra é vitoriosa na ausência da coragem para amar. A propósito disto está o título do livro que está sendo escrito durante o romance: “O mundo ficou em silêncio enquanto morríamos”. Chimamanda Adichie sempre afirma que sua maior influência literária foi Chinua Achebe, autor também nigeriano de origem Igbo cuja obra-prima lançada em 1958, O mundo se despedaça (Companhia das Letras, 2009) é considerada obra fundadora da literatura africana. O livro relata os efeitos da chegada dos missionários entre os Igbo, mas Chinua Achebe, que escreve em inglês, “é cidadão de uma Nigéria criada pelo colonizador” e sabe que a História não é boa nem má, nascemos dela, de seus sofrimentos e remorsos, de seus sonhos e pesadelos. Adichie não faz julgamentos, ao contrário, apresenta um por um de seus personagens como seres passíveis dos maiores e mais hediondos atos, especialmente em situações extremas. Ela justapõe cenas de horror com cenas de amor e otimismo, mostrando que cada baixa em uma guerra ou genocídio é uma tragédia única. Durante todo o romance há paralelos entre a situação política e os encontros e desencontros sexuais entre casais, como um alerta silencioso sobre o poder do amor, para o bem e para o mal. Meio sol amarelo também fala de perto a cada leitor, mesmo aquele que não tenha familiaridade com a história africana, porque Adichie faz referências sutis a outras guerras, outros genocídios, outras manifestações mortais de intolerância. Uma personagem inglesa que pouco aparece, mas de muito impacto, é Susan, que compara diretamente os Igbo aos judeus em um comentário enxarcado de veneno antissemita: Eles merecem o que lhes acontece porque têm muito dinheiro. Em outro momento, um personagem americano menciona sua familiaridade com as perdas da guerra porque seu irmão acaba de voltar do Vietnã. E Edna, americana afrodescendente, chora a morte de quatro meninas no ataque a bomba em Birmingham, em 1963. Com isso Adichie deixa claro que a tragédia de Biafra não pertence apenas a Biafra. Ao mostrar o sofrimento íntimo e arcos narrativos de grande curvatura, a autora nos faz lembrar que a indiferença ao sofrimento alheio causa grande mal ao mundo. Grande artífice que é, Adichie utiliza imagens inesquecíveis de forte impacto como na melhor poesia, onde o mais importante é captar aquela imagem que ficará tatuada na memória do leitor. Na cena do casamento de Olanna e Odenigbo, justamente no momento de cortar o bolo, há um ataque aéreo das forças nigerianas. Todos correm desordenadamente para se proteger, e alguém grita a Olanna que tire seu vestido branco para que não sirva de alvo. Ela assim faz, e um militar fardado que está presente joga sua jaqueta sobre a noiva. Em um segundo, um tempo de paz e alegria é transformado em caos e horror; a noiva, símbolo de esperança e felicidade no futuro, é obrigada a despir-se e abrigar-se sob uma farda militar. É uma metáfora que não deixa dúvidas. A linguagem tem a mesma carga dramática, sem sair do registro cotidiano. A expressão “meu bom homem”, usada pelos ingleses para dirigir-se afetuosamente, mas com um traço de paternalismo, aos empregados, é inicialmente pronunciada por Odenigbo, um africano ‘britanizado’ ao dirigir-se a Ugwu, seu servo. À medida que os destinos se invertem, a linguagem também o faz, e ao final é Ugwu que chama Odenigbo de “meu bom homem.” Há também o poder da concisão: “um coágulo endurecido de medo dentro dele”, “a crueldade casual deste mundo novo”, ou a frase de Ugwu a outro empregado após quase morrer enquanto foi obrigado a servir o exército, “não existe essa tal de grandeza.” Se você vem da Nigéria ou da Sérvia, da Colômbia ou da Rocinha, a presunção de continuidade parece tão improvável quanto andar pelo arco-íris, mas mesmo se você vive em um país estável, sem guerras, após ler essas frases você não vai mais acreditar que isso vá durar, porque Adichie coloca um rosto humano na guerra que tem ficado muito distante da memória fora da Nigéria. Você passa a reconhecer esse rosto em todo lugar. Os temas de traição, amor, efeito da guerra sobre as pessoas perpassam todo o romance, mas acompanhados de uma fraqueza muito humana: a negação da realidade. “Não há motivo para alarme” é uma frase que aparece repetidamente, justo nos momentos mais alarmantes. Até quando uma cidade está prestes a cair, os cidadãos são impedidos de deixá-la, ‘para não causar pânico’. Não fosse por essa fraqueza a história poderia ser bem diferente, haja visto Chernobil. Um patriota de Biafra podia ser considerado um sabotador apenas por expressar dúvida sobre a vitória de Biafra. Se alguém afirmava saber que uma cidade estava por cair, era acusado de ter causado a queda de alguma forma. Ou seja, a negação da realidade perpetua-se sob pena de morte. A autora não poupa o leitor da violência e do horror que fizeram - fazem - parte da guerra, mas coloca imagens violentas de atos hediondos para mostrar sua face contrária. Tanto Olanna quanto Kainene são obrigadas a enfrentar a visão de uma cabeça separada de seu corpo. Uma mulher no trem mostra a Olanna a cabeça de sua filha em uma cesta, e justifica que não pode abandoná-la por “ter tido muito trabalho para trançar o cabelo da menina”. Na dor, a mãe encontra uma explicação absurda para não se separar de sua filha. Kainene, que não acredita que os ataques são tão violentos como os relatos, depara-se com a cabeça de um conhecido seu, e corpos decapitados, com roupas vagamente familiares. Não é necessário que Kainene veja milhares de cabeças, basta esta. Em meio a toda essa desgraça, uma triste vitória: os biafrenses conseguem produzir as bombas de balde, bombas caseiras que causam morte dolorosa e tremenda destruição. É trágico imaginar que a inteligência e inventividade desse povo se viu forçada a produzir a morte eficiente. O romance fala ao escritor: um personagem precisa sofrer o diabo para poder escrever o livro dentro do livro. Para poder narrar a dor, o personagem escritor passa pela dor que lhe causam e que ele próprio causa; passa pelo amor ao outro e ódio de si; a própria escrita do livro lhe causa dor, mas também redenção. Não deve ser diferente do que Chimamanda Adichie passou para escrever Meio sol amarelo . Mas apesar de tudo, há um gotejo otimista nesse rio de sangue. Os personagens que sobrevivem, reinventam-se, amam mais, doam-se mais. O personagem que no início é o mais miserável, menos dono de si, renasce para contar a história. Adichie não é uma revanchista armada para vingar-se dos nigerianos, é uma romancista, e por isso quer representar a vida das pessoas comuns em tempos incomuns; pessoas mastigadas pela mandíbula gigante da guerra, engolidas, mas cuspidas, como Jonas, e como Jonas, precisam se salvar. Demonstra que mesmo na busca do bem e da liberdade, o mundo é mais infernal para crianças e mulheres; reconhece o abismo entre os intelectuais e as assim-chamadas pessoas comuns, abismo cavado bem fundo pelos intelectuais desde suas torres de marfim; expõe a hipocrisia e futilidade existente em todos. Meio sol amarelo está entre romance histórico e parábola, uma história duradoura sobre as falhas do homem e as guerras que elas causam. Acima do substrato escuro que é o vício pelo poder, o meio sol amarelo é muito intenso, o romance pode ser lido como o copo meio cheio: um dia meio claro, e não seu contrário. ______________ Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
#Literatura: O sol meio cheio de Chimamanda Adichie (2)
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#SupremaNetworkLevantamento da Folha aponta que 9 ministros e 12 parentes diretos são sócios de ao menos 31 empresas
O Supremo Tribunal Federal, ao que tudo indica, deixou de ser apenas uma corte e virou um condomínio empresarial de luxo, com crachá, toga e muitos CNPJs. Um levantamento da Folha aponta que 9 ministros e 12 parentes diretos são sócios de ao menos 31 empresas, muitas delas em áreas nada discretas: advocacia, institutos jurídicos, holdings e negócios imobiliários. A lei permite que o ministro possa ser sócio, receber dividendos, só não pode administrar. Ou seja: pode embolsar a grana, desde que finja que não manda em nada. O NEIM precisa da sua assinatura para continuar revelando o que as notícias escondem. ASSINE AGORA! Mas a lei não permite – ou não deveria permitir – que os negócios dos familiares dos ministros tenham a ver com os julgamentos que eles mesmos irão julgar. Como estamos no Brasil, tudo é permitido, até mesmo o que é proibido. E quando aparece um “sócio oculto”, como no caso do resort Tayayá, com negócios duvidosos com banqueiros corruptos, os Supremes se fecham num corporartivismo mafioso, com reuniões secretas, ameaças e inquéritos ilegais. A verdade é que está liberada a entrada dos vendilhões no templo.
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