#Literatura: A morte do invisível: o nosso novo realismo"Ninguém deveria ser obrigado a chamar de literatura a uma história que qualquer um pudesse contar de qualquer jeito"Certamente, o melhor texto sobre o realismo foi escrito, como tudo o que foi feito de melhor no Brasil, por Machado de Assis. Apesar de seus esforços em condená-la, a escola não só vingou como parece ser o princípio, o fim e o meio da maioria dos que hoje escrevem. Dessa prática sai, talvez, um dos maiores defeitos da nossa literatura atual – a ascendência do conteúdo sob a forma. Não é o conteúdo que faz presente o que está ausente – é a forma. Sem ela, não teríamos os afetos, e as ideias não nos atingiriam o peito; ficariam pairando por cima dos longos cachos ou dos frágeis folículos. Comover, instruir e deleitar deveriam ser, como sempre foram, os objetivos daquilo que se escreve para o outro. Ninguém deveria ser obrigado a chamar de literatura a uma história que qualquer um pudesse contar de qualquer jeito. O realismo não implica a desvantagem da forma, não necessariamente. Mas ele foi uma espécie de convite elegante a essa lacuna, na medida em que cuida de contar uma história com máxima objetividade, a fim de criticar os costumes de uma sociedade implacável. Machado o chama, mutatis mutandis, de uma literatura de inventário. A referência feita, assim de cabeça, não impede que entendamos a crítica. Tendo guardado a palavra inventário na memória, deixei garantida parte da forma, e ela diz tudo. Definindo-o desse modo, o nosso maior escritor nos dá a ver que o realismo é uma espécie de catalogação do real. Mas não o diz assim, como mera informação, diz com humor e certa zombaria. A escolha, não só criteriosa, mas aguda, da palavra “inventário” não é um simples pormenor. É já a forma – a forma incrementando o mundo. A forma é o que dá força às ideias. A literatura é obrigada a manipular a linguagem de modo inventivo e esteticamente elaborado, sob pena de não ser literatura. Sem uma forma bem trabalhada, a literatura vira apenas relato, não raro, denúncia. Listar os problemas sociais, sem aprofundamento simbólico ou estético, deixar tudo claro e dispensar o escuro, ou mesmo a penumbra, é substituir a arte pela tese. Mas o que Machado de Assis não poderia imaginar é que a escola que se contrapôs ao romantismo, desvalorizando a expressão subjetiva e o devaneio estético, a fim de privilegiar o conteúdo, resultaria, mais de um século depois, não só numa falta de intensidade nos caracteres, nas paixões e na linguagem, mas também no nosso novo realismo. Nosso maior escritor, mesmo sendo o grande visionário que foi, jamais poderia imaginar esse modismo que não vê a escrita senão como instrumento de uma crítica menos moral e muito mais social, que aponta mais a sociedade do que os indivíduos e que, ainda por cima, pretende decidir o sufrágio. Muito menos poderia prever que a literatura viesse a cair, de vez, nas mãos de quem não soubesse escrever, mas tivesse a cachola cheia de ideiazinhas, boas intenções e um mundo de adjetivos inócuos, pueris ou ridículos. Herdeiro do antigo, nosso novo realismo também tem como ponto central a pretensão de representar de modo crítico a realidade e de não se preocupar com a expressão menos direta, mas recrudesce o impulso de escrever para desalienar. Radicalizou-se a observação, agora menos psicológica e mais material ou mesmo sectária. Tudo por um real dos tipos, da patifaria, dos alienados, da burguesia, dos preconceitos, da pobreza, da opressão; um real que afasta toda a emoção que possa vir do mundo de dentro e prefere as patologias do mundo de fora a perturbarem uma criatura sem Deus. Da exacerbação daquela tendência de dar voz ao corpo social sai esse outro problema, além da forma sem brilho – o de planificar a vida das personagens. No nosso novo realismo, sobrevém a mesma sociedade, mas agora formada apenas por seres injustos ou injustiçados, como se a justiça fosse o conceito mais simples entre todos os conceitos. Sob essa condição, a linguagem tornou-se ainda mais direta e funcional, evitando grandes tratamentos estilísticos, tal como no velho realismo, que já não estava tão interessado em impressionar pelo trabalho formal quanto em revelar comportamentos e formular uma proposição. Com isso, aquelas questões últimas tornaram-se as primeiras a serem descartadas. O bem e o mal já não podem sequer fazer cócegas nas nossas convicções, porque todos sabemos o que é o bem agora – o bem é a justiça social. E, como uma boa maneira de definir as coisas é tomando-as pelo seu contrário, o mal é a injustiça social. Quem melhor do que o novo realismo para esfregar as nossas caras nessas verdades inapeláveis e horizontais? O que a nova geração conhece da interioridade é uma confessionalidade social que sequer merece os ouvidos de um padre. Sem pecados, o herói tornou-se vítima. Sua existência é tão insignificante que poderia morrer no primeiro parágrafo, e, ainda assim, a sociedade, a verdadeira madrasta, ou melhor, padrasto, faria todo o serviço na imolação de outra ovelha pura, apesar da maldade dos homens. Com o identitarismo, o objetivo infeliz, que, na verdade, é uma estratégia de guerra, vira pesadelo. Mete-se uma minoria qualquer, um homem heterossexual (sempre mau), um cenário triste e feio e, sem necessidade de misturar bem num cadinho – o que seria mentiroso e excludente –, voilá, tem-se um livro laureado. Nesse trote, já temos dados os vilões, os mocinhos e os cenários. Os temas não surgem da vida, surgem do programa. Se fôssemos gregos pios em nossos festivais, até poderíamos aceitar a repetição dos mitos em suas novas roupagens, mas não somos fervorosos, nem são mitos o que nos têm enfiado goela abaixo – são, antes, advertências criadas dentro de um departamento qualquer das ciências humanas para educar a vida civil. Não há versos que atualizem sentimentos primordiais, nem quem passe por grandes mudanças ou qualquer fábula a promover uma catarse. Há apenas um mundo exterior surrando um pobre diabo na existência chapada de um tipo. Inventariando a realidade dos injustiçados – sobretudo aquela que todo mundo consegue enxergar – sem sátira, sem tragédia, sem estruturas vibrantes onde colocar a imitação da vida, o realismo sem pai, com seu programa bem fecundado, esqueceu o eu, o sonho, as profundezas e o grotesco no meio da natureza. Por fim, tornou-se o nosso novo realismo, caracterizando-se como meio mais eficaz de servir à nova verdade do mundo: tudo virou política. O realismo encontrou o seu fim rolando sobre si mesmo. A hegemonia do conteúdo e, de certo modo, a despreocupação com uma locução mais esmerada foi um legado que veio muito a calhar com nosso meio literário, que só se preocupa em pautar, berrar, odiar e não em escrever bem. Embora o realismo tenha desejado o predomínio do conteúdo e uma parcimônia das expressões mais agudas, o nosso novo realismo não poderia repetir-lhe o êxito, uma vez que aqueles escritores do XIX usavam de verdadeira elegância para serem diretos, e os de hoje não conseguiriam uma economia de figuras senão pela imperícia ao manejá-las. Além disso, há uma ignorância do colorido humano e sua incompletude que pretende forçá-lo nos moldes do que chamam justiça e de uma determinação de ideias de como se deve olhar o mundo. Que distração maravilhosa! Não é de se estranhar que os jornais, as redes e os cabos tenham ganhado todos os olhares, e a literatura tenda a estrebuchar, sozinha e muda – carente de uma linguagem que encante e confunda, que aproxime do belo ou do horror, que faça fervilhar o pensamento e as certezas daqueles que têm de viver e hão de morrer um dia. No nosso novo realismo, a mensagem, a crítica, a análise censora, com a menor interferência dos afetos pessoais do autor (ou das personagens), simulam uma dor que só vale se refletir a problemática de primatas acostumados a sofrer em bando. Nada de indivíduos e interioridades, mas, antes, os grupos e seus conflitos com outros grupos – é a idade das classes e das etnias. Muita crítica e pouca compaixão. Não se sente com o personagem. Perdeu-se a imaginação, o singular, as contradições, o riso, a linguagem remontada e os pensamentos únicos do escritor. A dor da existência agora tem registro geral e endereço para a entrega. O prazer perdeu para a mensagem. A psicologia perdeu para a sociologia. O indivíduo perdeu para a classe, o meio e a raça – nem mesmo o momento importa mais. Nada a sentir, senão a dor social. O mistério, a dúvida e o lusco-fusco se perderam no desnudamento de tudo que antes já se podia ver, mas, agora, se quer acusar com o dedo. _______________________ Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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domingo, 29 de março de 2026
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