#Interlúdio: Fabrice Hadjadj contra os robôsO filósofo francês Fabrice Hadjadj interroga se o progresso tecnológico equivale, de fato, a um verdadeiro florescimento integral da humanidade
Fabrice Hadjadj aparece no cenário intelectual contemporâneo como uma figura difícil de enquadrar: filósofo, ensaísta, polemista, alguém que escreve como quem lidera uma resistência. Nascido em 1971, de origem judaica e convertido ao catolicismo, ele construiu uma obra que abrange a teologia, a literatura a crítica cultural, sempre com um olhar desconfiado diante do que se chama progresso. Em vez de celebrar a aceleração do mundo, Hadjadj prefere deter-se na realidade que insiste em permanecer — o corpo, o limite, os pés no chão. Sua filosofia não aponta para o futuro como promessa, mas para o presente como uma prova de vida. No centro de seu pensamento está uma recusa daquilo que ele chama de vida “desencarnada”. Em um mundo saturado de abstrações, ele lembra: “quanto mais mediações técnicas, menos presença”. Não se trata de nostalgia ou conservadorismo, mas de uma intuição ontológica: a realidade não se impõe por atalhos. “O real é aquilo que resiste”, escreve ele, sugerindo que tudo o que elimina o esforço também elimina, silenciosamente, a experiência. A tecnologia, nesse sentido, não é neutra, pois ela reorganiza o sensível, suaviza os obstáculos e, ao fazê-lo, altera a a nossa percepção e, consequentemente, pode alterar a forma de como vivemos. É nesse ponto que sua crítica toca a inteligência artificial. Hadjadj não discute algoritmos, mas o horizonte que os torna desejáveis. Em uma cultura fascinada pela resposta imediata, ele observa: “ter acesso a todas as informações não significa compreender”. A IA, ao prometer eficiência e muitas facilidades, corre o risco de reforçar essa mania de se confundir saberia com acumulação de dados. O pensamento, para ele, nasce de outra fonte: da demora, da hesitação, do erro que obriga a recalcular as rotas e até recomeçar. Se a máquina antecipa a resposta, o espírito acaba se perdendo no caminho. E é justamente no caminho que se encontra a inteligência. Quando a lógica da tecnologia penetra a educação, a perda se torna mais sensível. Ensinar, para Hadjadj, não é transferir conteúdos via wifi, mas sustentar uma presença. “Pensar não é só um ato cerebral; envolve o corpo inteiro, o tempo, a atenção”, afirma. Há algo no encontro entre professor e aluno que não pode ser automatizado: um olhar, um silêncio, uma resistência compartilhada diante de um problema. A inteligência artificial, ao interpor-se como mediadora constante, ameaça dissolver essa relação em uma série de interações funcionais que até podem ser eficazes, mas são totalmente desprovidas de humanidade. Ainda pior é suprimir a experiência do conhecimento prático, que se forja na vivência da tentativa e erro, no acúmulo de conquistas e frustrações. No fim, sua crítica não é uma recusa da técnica, mas uma reflexão profunda sobre o seu lugar no mundo real. Como ele mesmo diz, “queremos tudo mais rápido, mas não sabemos mais para quê”. O problema, portanto, não é se a IA pode melhorar a educação, mas se ela vai redefinir, sem que percebamos, o que entendemos por educar. O pensamento de Hadjadj nos obriga, enfim, a refletir se essa busca por eficiência, personalização e escala não está desviando a educação de seu propósito essencial: formar pessoas capazes de habitar o mundo de maneira plena e consciente. Não se trata, portanto, de rejeitar a tecnologia ou a IA, mas de recolocá-las nos seus devidos lugares: subordinadas à realidade humana concreta, ao invés de consagrá-las como as únicas possibilidades organizadoras da nossa experiência. ________________ A Profundidade dos Sexos. Por Uma Mística da Carne Paraíso à porta Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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quinta-feira, 30 de abril de 2026
#Interlúdio: Fabrice Hadjadj contra os robôs
#PautandoAImprensa
No dia 15 de abril, publiquei aqui no NEIM o artigo Atraso Mental sobre a velharia que se tornou o PT, tão velho que não consegue mais falar com os jovens. Poucos dias depois, os jornais publicaram um comentário da Bianca Borges, presidente da UNE, e do Preto Zezé, presidente da CUFA (Central Única das favelas), confirmando o que escrevi: Lula não engana mais os jovens (eles não disseram nessas palavras). Dia 29 de abril, o Estadão publicou o editorial “Lula perdeu os jovens”. O PT não ficou apenas velho, ficou velhaco. Não vou repetir os motivos, estão no meu artigo do dia 15 que vocês podem reler.
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