#Literatura: O som e a fúria, de William Faulkner (4)A obra em que Faulkner anunciou sua estética — interioridade complexa, pontos de vista mutáveis, o tempo tornado elástico e uma compaixão feroz, por vezes brutal, por seus personagens
Parte 4 O som e a fúria (1929), de William Faulkner, é tanto um emblema quanto um caso-prova do romance modernista: formalmente arrojado, eticamente ambíguo e profundamente enraizado no terreno social e histórico do Sul dos Estados Unidos. A principal conquista de Faulkner neste romance é a dramatização formal da temporalidade e da perspectiva: o tempo é multiplicado e a memória é transformada em sensação encarnada. Os personagens voltam no tempo de modo fragmentado, eles mesmos desorientados em suas memórias, mas mesmo assim conservam a capacidade de senti-las como se estivessem acontecendo outra vez. Isso tem um efeito poderoso sobre o leitor. Assine Não É Imprensa para desbloquear o restante.Torne-se um assinante pagante de Não É Imprensa para ter acesso a esta publicação e outros conteúdos exclusivos para assinantes. Uma assinatura oferece a você:
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segunda-feira, 20 de julho de 2026
#Literatura: O som e a fúria, de William Faulkner (4)
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#Cinema: o filme mais surreal de todos os tempos
#Cinema: o filme mais surreal de todos os temposLuís Buñuel e o seu “O Discreto Charme da Burguesia”
Imagine, caro leitor, um filme sobre sucessivas tentativas de jantar por parte de um grupo de amigos, mas que são frustradas por acontecimentos cada vez mais surreais e absurdos com toques de humor ácido? Sim, essa é a premissa básica de “O Discreto Charme da Burguesia”, dirigido por Luís Buñuel, o lendário cineasta mexicano conhecido por dirigir filmes surreais e absurdos, tais como “Um Cão Andaluz” (1928), “A Idade do Ouro” (1930) e “O Fantasma da Liberdade” (1974), e também filmes românticos e dramáticos, a exemplo de “O Anjo Exterminador” (1962) e “A Bela da Tarde” (1967). E não, não é um filme tedioso, muito pelo contrário. Na verdade, trata-se de uma película repleta de humor ácido e que faz piada de si mesmo o tempo todo, além de criticar explicitamente os valores burgueses tendo como pano de fundo um evento que pode ser visto como trivial para diversas autoridades: o de jantar de negócios ou de assuntos de Estado. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Acompanha-se, logo de início, um grupo composto por um Embaixador da fictícia República de Miranda (um acrônimo para uma das nossas republiquetas bananeiras latinoamericanas), uma autoridade não especificada a sua esposa e outra amiga próxima que se dirigem para a residência de um casal de amigos próximos. Nisso, são surpreendidos com a negativa da governanta e da anfitriã ao negar que o jantar tenha sido marcado para aquela data. Decidem então, sem a presença do patriarca, ir para um restaurante nas proximidades. Ao se acomodarem, são surpreendidos com o velório do dono do restaurante, numa cena repleta de humor ácido e de teor absurdo. Devido a isso, decidem não jantar mais. No outro dia, num corte abrupto, o espectador é transposto para a embaixada da República de Miranda, sob o comando do Embaixador Don Rafael. Nisso, os seus dois amigos, Henri Sénéchal e Monsieur Thevenot, mostram-se como traficantes de drogas e a Sua Excelência como o principal fornecedor de cocaína, porém são impelidos por uma mulher misteriosa que aparece na porta da residência oficial ao tentar chamar a atenção a todo o custo dos transeuntes. O Embaixador reconhece-a como uma terrorista do seu país e, com um rifle, dispersa a moça. Essa cena, que beira à hipocrisia, presencia toda a genialidade de Buñuel em criticar, de forma cínica, a inversão de valores da situação: enquanto que pessoas distintas, que deveriam ser o bastião da moralidade, travestem-se de pessoas abomináveis, e revolucionários ou pessoas do povo são retratados como degenerados. Mais um dia aporta e mais uma tentativa fracassada de confraternização, dessa vez causada por um grande mal entendido. Essa nova tentativa seria um almoço, mas os dois anfitriões, alheios aos convidados, querem mais intimidade e não se tocam a respeito dos convidados. Nisso, um grande mal entendido exsurge e os convidados retiram-se para mais uma vez. Em outro dia, numa tentativa de confraternização entre as mulheres do grupo, houve nova frustração do encontro, especialmente por causa de condições adversas, que também são interpeladas, pela primeira vez por um soldado que conta a sua história de vida com base em linguagem de sonhos. Em mais uma tentativa de jantar, o grupo de amigos é interrompido por um destacamento de soldados, que faziam exercícios militares na cercania. Numa tomada hilária e completamente absurda, o pelotão fuma maconha antes do jantar e, posteriormente, começam a executar o plano, que assusta os convidados que decidem não mais jantar. A seguir, em mais novas tentativas de jantar e de confraternização, o espectador é transposto para mais situações absurdas e surreais que também fazem parte de sonhos cada vez mais dissociativos da realidade que cerca todo o grupo de amigos, especialmente numa emblemática cena em que os convidados fazem parte de uma peça de teatro que não passam de atores. E assim, o filme atinge o seu final em que, supostamente, o grupo de amigos é preso pelos crimes de tráfico de drogas, em uma cena que também não há explicação se aquilo existiu realmente ou não. Ao final, também não é explicado se a tentativa final de jantar, que termina também por circunstâncias misteriosas, é também um sonho dentro de um sonho ou uma situação que condiz com a realidade. Nessa obra-prima da cinematografia mundial, Buñuel faz com que o espectador assuma a condição de protagonista em sentir-se moralmente superior a todas as personagens retratadas em situações absurdas, especialmente em fazer uma crítica contundente a todos os rearranjos de poder. Essa película, curiosamente, foi alvo de transmissão no extinto Carlton Cine Clube em 1990 na Rede Bandeirantes em uma exibição única e dublada com a apresentação da atriz Lala Deheinzelin. Hoje, está disponível na plataforma de streaming chamada Oldflix.
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