Ájax é uma das tragédias mais intensas de Sófocles. Escrita no século V a.C., a peça dramatiza a queda do guerreiro Ájax, “a muralha dos Aqueus”, após ele perder a razão por se sentir desprestigiado pelos líderes gregos. Frustrado por não lhe terem atribuído as armas de Aquiles, Ájax acaba sucumbindo aos conhecimentos enganadores da deusa Atena que o leva a exterminar ovelhas e bois, pensando combater seus inimigos. Antes, havia tentado convencer os juízes de que era o mais digno para herdar as desejadas armas. Se Aquiles estivesse vivo – diz Ájax, “e fosse julgar a primazia da excelência a um candidato às suas próprias armas, nenhum outro as receberia, senão eu. Mas agora os Atridas entregam-nas para um vilão e repudiaram o meu valor”. O vilão é Odisseu, que se defende dizendo que o rival está “doente de inveja e ignorância”, por isso lhe fazia mal juízo. Ájax apresenta-se como mais corajoso e digno, afirmando que o julgamento deveria ter como conclusão o que ele mesmo acreditava ser verdadeiro e virtuoso. Eleva a práxis a princípio fundamental quando diz que “a guerra não se decide com discurso, mas com atos”, fazendo pouco caso de Odisseu, que teria vindo à Tróia guerrear “com má vontade”. “Nos perigos que enfrentei sozinho – responde-lhe Odisseu –, se vencesse seria alcançado o fim para que viemos aqui, mas se fracassasse, seria apenas um homem entre as perdas”. E quantos realmente ficam pelo caminho, “com escudos lascados, capacetes e corpos carregados pelo rio Simoente”?, como nos narra Virgílio na Eneida. Quantos foram apenas mais um entre as perdas de uma guerra iniciada numa banalidade de deuses – Éris não havia sido convidada para um casamento e lançou a discórdia envolta num pomo de ouro. Arrastadas pelas paixões, Hera, Afrodite e Atena iniciaram uma disputa tão absurda quanto inócua pelo objeto dedicado “à mais bela”. São, definitivamente, as mesmas paixões que arrastaram os homens para a guerra de Tróia. Mas o que arrastou Ájax, o “melhor guerreiro depois de Aquiles”, foi a confusão na sua mente. Sentindo-se injustiçado e preterido pelo “sistema”, inicia uma revolta. Ataca um rebanho acreditando guerrear contra os inimigos. Tal como um Quixote atacando moinhos, torna-se ridículo a ponto de perder a razão e a dignidade. Tornou-se apenas motivo de riso. Mas não há nada de cômico na loucura. Perder a razão é simplesmente uma catástrofe. Por isso, mesmo provocado por Atena, Odisseu não ri. Quem viu tantos escudos lascados, capacetes e corpos espalhados pelo chão, conhece bem a tragédia humana. Sabe que qualquer um de nós pode se tornar uma vítima de numa guerra sem sentido. Porém, na nossa época não há lugar para a tragédia, ainda menos para o ser humano que, reduzido a uma animalidade civilizada, busca um sentido para uma vida angustiante e decadente no consumo desenfreado e na idolatria política. Numa era em que todos se consideram anjos – e, obviamente, seus inimigos demônios –, não há mais como dissimular a trágica condição humana de quem ainda tenta se agarrar à esperança de um futuro imaginário, utópico. Num angustiante desespero metafísico, o que assistimos agora é a tragédia da sociedade, depois de termos assistido a queda do homem. (Trecho do livro O que restou da política, de Diogo Chiuso – disponível para Kindle) _______________ Ájax Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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domingo, 10 de maio de 2026
#Literatura: Ájax, de Sófocles
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