Cinema: o filme mais lento do mundoUm ensaio sobre o filme “Kárhozat” (Maldição), de 1987, o segundo da parceria entre Béla Tarr e László Krasznahorkai.
Hoje, falaremos do filme “Maldição”, referência no que se convenciona chamar de “Slow Cinema” (cinema lento/cinema contemplativo), que se caracteriza pelo foco nas tomadas longas e profundas, na ausência de ação e nos diálogos minimalistas, atributos dos quais o grande diretor Andrei Tarkovsky convencionou de “esculturas do tempo” ou do ato de “esculpir o tempo”. É uma obra difícil de encontrar nas plataformas de streaming, mas que está disponível para exibição em algumas menos convencionais, como Mubi e AppleTv. O filme de Béla Tarr, com tomadas panorâmicas e com uma trilha sonora marcante, que vai desde sonoplastia ambiente à música tradicional húngara, que serve de pano de fundo à estória a ser contada ao decorrer do longa, é deveras marcante e com um enredo imbricado e muito bem construído. A progressão é devagar e faz com que o espectador seja envolvido numa atmosfera “vintage”, que remete aos esvoaçantes filmes “noir”. Ao longo das lentas tomadas, o filme acompanha a vida de um homem melancólico e triste (Karrer), que é profundamente apaixonado por uma mulher casada (a cantora de cabaré) sem ser intitulada, e não correspondido. A seguir, somos apresentados ao esposo da cantora, Sebanstyén, e ao dono do referido bar “Titanik”, Willarsky. Ambos tentam interferir na relação entre a esposa e Karrer e também exercem um papel preponderante ao decorrer da película. Entre diversas tomadas lentas, há a aparição de outra personagem importante: uma “sábia anciã”, que vai surge diversas vezes no filme e tenta aconselhar o protagonista para que reveja as suas atitudes dúbias. E isso toda essa trama, repleta de encontros e desencontros, desencadeia numa ocorrência policial inexplicável, que arregimenta diversas interpretações e que pode servir como um belo exemplo de “Obra Aberta”, termo cunhado pelo escritor Umberto Eco. InterpretaçõesTrata-se de um filme metafísico e telúrico em que se mostram temas relativos à desilusão amorosa, à prostituição, à animalidade de seres humanos, à perda da consciência e à alienação social. LK e Tárr exploram com maestria esses tópicos atinentes ao filme. A personagem inicial é um ser niilista, melancólico e que se sente um fracassado, principalmente no amor. Sente-se iludido por migalhas oriundas de uma pessoa que não dá a mínima para ele; além disso se sujeita a todos os tipos de humilhação. É um homem medíocre, sem aspirações, um nauseabundo e um nefelibata: um ser lupanar, que se arvora por detrás de conjecturas e de expectativas que sempre são quebradas e que reage de forma violenta ante a uma frustração. De um lado, a “cantora”, que é retratada como uma bruxa por outra mulher, que não apresenta nenhum tipo de sororidade, é infeliz e se sente um joguete nas mãos do marido e do dono do bar em que trabalha. Ela também é pobre e sem esperanças, ainda por cima mora defronte a uma siderúrgica. O som claudicante do seu lar resplandece por toda a narrativa. O marido da cantora, Sebanstyén, é um homem possessivo, alcoólatra, bêbado e inescrupuloso. Representa o homem médio que é até capaz de prostituir a sua própria esposa por causa de dinheiro. O dono do bar Titanik, Willarsky, que na verdade é um rufião, também representa o empresário inescrupuloso, prepotente, escroque e comezinho que faz de tudo pelo poder. A sábia, uma espécie de “oráculo” de Karrer, é a única pessoa consciente do filme: ela é quem aconselha o nosso anti-herói de forma contumaz e que sempre vem ao seu encontro quando este enfrenta os seus demônios. Representa uma mãe que o personagem não tem. Em suma, esses personagens não são convencionais em filmes comerciais, mas muito parecidos com pessoas reais, pois fingem ser fortes e são fracas e desesperadas, exceto o da sábia, que demonstra austeridade e cesura diante de tantos encontros e desencontros, de tanto abandono e de tanta aleatoriedade. Ou seja, diante de pessoas tão díspares que constituem um microcosmo de uma Hungria atrasada e sem perspectiva de mudança (lembrando que o filme foi produzido em 1987 e lançado em 1988), o reflexo do comunismo alienante, que mostra pessoas sem perspectivas e que são joguetes de outrem, é colocado em perspectiva pelo diretor. Algures foi dito que o comunismo desumanizou, humilhou, torturou e matou escritores, nessa coluna se afirma que ele suplantou e sufocou o sentimento da pessoas, ao mostrarem como um ventríloquo na mão de poderosos: essas apenas reproduzem, sem esperanças, ações de modo automático e que apenas sobrevivem às ações do seu meio. É um filme niilista e sem esperanças, lento e completamente depressivo em que poucas coisas acontecem, que deixa uma brecha para o que aconteceu de fato, que podem ser questionadas através dessas perspectivas: será que aconteceu um assassinato? Será que Karrer tornou-se louco e animal por causa de um amor não correspondido? Será que tudo isso é fruto da imaginação da personagem? Todas essas perguntas são pertinentes e que podem ser discutidas pelos espectadores. ____________________ Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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domingo, 10 de maio de 2026
Cinema: o filme mais lento do mundo
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