Diário e rememoração, XIII Por Alexandre Sartório Li alguns ensaios sobre a ideia de poésie pure, de Mallarmé, para entendê-lo, lê-lo com mais proveito, e, talvez escrever algo sobre a poesia dele fazendo referência ao conceito de moné (seria isto mesmo?), a “morada de Deus”, usado por Pseudo-Dionísio Areopagita em Os nomes divinos. São importantes as ideias de: Nada e sua relação com a linguagem; a linguagem sob o signo da estilhaçamento que se acerca do Nada; linguagem que se afasta da referencialidade; habitar a linguagem; mística do Nada, ou ateia, próxima de um Cioran. Hoje, li O acontecimento, livro muito forte e brutal em que Annie Ernaux trata do aborto que fez em torno dos 20 anos; salpicam a narrativa reflexões sobre a escrita do próprio livro, que busca trazer a experiência viva e brutalmente sincera (talvez a principal marca do estilo de Ernaux), dentre as quais (as reflexões) se destacam: a recorrência das imagens, a qual, nota a autora, indica a verdade do relato da experiência que foi “algo indizível e de certa beleza” (p. 15); as “provas materiais” que parecem reter a realidade de um modo que nem a memória nem a escrita permitem “alcançar” (uma ideia proustiana, p. 26); a gravidez indesejada como uma maldição de classe (gestava um “fracasso social”), numa reminiscência de naturalismo (p. 21); a “Irmã sorriso”, uma mulher que era freira e que acaba por abandonar o convento para viver com outra mulher, que fazia parte, com artistas, escritoras de que gostava Ernaux, de uma cadeia invisível: “tenho a impressão de que minha história está nelas”, p. 27); o relato impõe-se a ela e a arrasta no sentido da “marcha inelutável da infelicidade” (p. 30); num sonho a respeito do ‘acontecimento’, ela teve a impressão, como num orgasmo, de que “tudo está aqui”, que seria impossível de transpor para a linguagem (p. 36). A cena em que o bebê sai (p. 58), morto, de dentro dela é brutal; ele cai como uma “granada” na privada e ela o carrega entre as pernas, ainda ligada ao bebê pelo cordão umbilical, “Eu era um animal”; e, depois que a amiga a ajuda a cortar a ligação, ela arremata “É uma cena sem nome, a vida e a morte ao mesmo tempo. Uma cena de sacrifício”. Mais à frente (p. 67), ela se sentindo outra pessoa, que passava por um “estado febril de consciência pura, além da linguagem”, relata que, ao ouvir a “Paixão Segundo São João”, de Bach, “um horizonte imenso se abria, a cozinha da passagem Cardinet, a sonda e o sangue se fundiam no sofrimento do mundo e na morte eterna. Eu me sentia salva”, de modo que aquele sacrifício (horrendo) do bebê se aproxima, de alguma forma e sem pesar na consciência da autora, do sacrifício de Cristo, e “salvou-a” e preparou-a para, mais tarde, ter filhos. O relato expressa vivamente a solidão imensa dela, o desconcerto do seu mundo interior, e a brutalidade do aborto (repete a autora algumas vezes que brutal pois clandestino, o que é fato, mas não deixa também de ser verdade que, mesmo asseado e legal, o aborto é brutal), nas grandes descrições dos dois “procedimentos” da aborteira, do efetivo aborto do bebê e da curetagem por que ela passou posteriormente. Um bom e (é acurado repetir) brutal livro. *** São Paulo, 09/03/2022. Li Why liberalism failed? (2018 – Por que o liberalismo fracassou?, Ayiné, 2020), livro em que Patrick Deneen trata do triunfo – que é, ao mesmo tempo, o fracasso – do liberalismo, o qual o autor define como a ideologia moderna (ou mesmo a principal corrente do pensamento moderno) que criou uma concepção de liberdade contraposta à definição clássica, greco-romana e cristã: para esta, a liberdade é o domínio sobre as paixões e desejos, o qual se aprende no contato com a tradição e com a sabedoria herdada; enquanto para a modernidade – cuja fundação Deneen localiza em Hobbes, Locke e, principalmente, Bacon (e me fez lembrar do final de O discurso do método, de Descartes, com seu louvor à conquista da natureza por meio do conhecimento técnico), autores do liberalismo clássico, passando por Mill e outros, do liberalismo progressista – a liberdade significa atender aos desejos e vontades dos indivíduos, para os quais os costumes e tradições locais não são mais do que entraves. Deneen analisa o pensamento de Hobbes como um caso exemplar do liberalismo: para o pensador inglês, o estado natural do ser humano é agir de acordo com seus interesses, na sua liberdade natural; a única instituição social relevante com que o indivíduo tem relação é o Estado, que serve para impedir que os homens, levados por seus interesses individuais, sejam violentos uns com os outros; outras instituições, como a família, a igreja, a comunidade, não são levadas em consideração por Hobbes, nem como mediadoras entre os homens nem como formadoras de seres humanos, como mestres no ensino do que é a liberdade, concepção antropológica clássica. Esta concepção ideológica – ou seja, falsa – da natureza humana fundamenta a visão de mundo do liberalismo, que, como qualquer ideologia, age para modificar o mundo e a natureza humana de acordo com suas ideias – e causando problemas sérios na ordem do mundo: o liberalismo age política e intelectualmente para corroer as tradições, as culturas, as famílias, as comunidades locais, os valores e a noção de natureza humana, a fim de “libertar” o indivíduo, para que ele realize suas vontades; o resultado no mundo atual é uma multidão de pessoas atomizadas e descontentes na sua ânsia por se desvencilhar de qualquer valor, qualquer natureza, que impeça sua vontade insaciável (a sabedoria clássica sempre soube que os apetites humanos não têm limites), e um planeta exausto de tantas vontades. Num feliz diálogo com o livro está o magnífico filme de Natal It’s a Wonderful Life (A felicidade não se compra, Frank Capra, 1946), a que assisti hoje. No coração de George Bailey, o protagonista da história, o impulso por realizar seus sonhos pessoais de conquista do mundo fica, durante sua vida adulta, em conflito com sua conduta responsável e nobre na sua comunidade, uma cidadezinha no interior dos Estados Unidos. Diante dos problemas, inclusive materiais, da frustração, Bailey pensa em se matar, mas é impedido pelo anjo Clarence, que acompanha a narrativa da vida do protagonista do filme feita por São José, desde o Céu; quando a narrativa se encontra com o presente, a fim de mostrar a importância, para todas as pessoas que conhecera, da vida que levava Bailey, Deus, a pedido de Clarence, apresenta um presente alternativo, no qual Bailey não havia nascido – e o protagonista vê como o sacrifício de seus sonhos pessoais em nome de uma vida em comunidade, dedicada ao bem comum, tinha valido a pena. *** São Paulo, 11/03/2022. Li a introdução da edição da Penguin de Ulysses: ensaio com cerca de 80 páginas, de Declan Kiberd. Acho um tanto exagerada a insistência do crítico na centralidade da ideia de que Joyce estava criando, com Bloom, o homem do futuro, o homem feminil – o andrógino, que parece um termo descabido, ao menos para mim a palavra carrega um sentido mais forte do que o da definição usada por Kiberd: algo como o homem que tem características ou aspectos femininos (grosso modo, ligados à sensibilidade) e mulheres que têm características ou aspectos masculinos (grosso modo, ligados à virilidade). Dessa perspectiva, a ideia faz sentido e tem importância, apesar de não me parecer a mais fundamental, e ser uma dicotomia que poderia ser substituída por outros conceitos e formulações; parece-me mais importante a questão do limite da linguagem na expressão da experiência (da dificuldade do diálogo entre as pessoas), a “frase inacabada”; e o também imprescindível aspecto pacifista de Bloom – e de Joyce –, sua condição de exilado, rejeitado e em descompasso com o mundo contemporâneo (como ele mesmo nota a respeito de si e de seu filho em espírito, Stephen, ao mesmo tempo em que, nota ele também, seus temperamentos distintos: ele, de temperamento científico; o jovem, de temperamento artístico). A esta condição de exilado e alienado de Bloom, podemos alinhar: a condição do homem contemporâneo, de seu universo espiritual, intelectual e imaginativo, ele que não tem uma mitologia ou visão de mundo unificada (com o retraimento da influência do cristianismo na mentalidade ocidental); a condição da Irlanda, uma colônia que não tem uma identidade definida (cujos intelectuais desde fins do século XIX até as primeiras décadas do XX buscaram, ou fazer um resgate artificial do passado, de lendas celtas, como os artistas do Renascimento Irlandês, ou um retrato seco da realidade degradada do país, como os artistas realistas, que, de acordo com a crítica de Joyce e de modernistas e simbolistas, faziam da arte um espelho, deixando de lado o caráter simbólico da experiência humana e, consequentemente, da arte). Baseado no ensaio de Kiberd, formulo algumas ideias sobre os propósitos do Ulysses da seguinte forma: a fim de viver, de ordenar a vida do espírito (de forjar na sua alma a consciência incriada de sua raça), Joyce busca, em Ulysses, o diálogo com o mito, figurado pela Odisseia, cujo heroísmo ligado à força, ele rebaixa e transforma: o heroísmo de Bloom é o do homem comum, que sobrevive à sua condição de exilado, alienado e humilhado, fazendo com que a arte (e a imaginação humana) trate com seriedade o cotidiano ou ordinário, ao contrário da arte clássica (inclusive a Odisseia), o que põe a obra de Joyce e dos modernos no telos da leitura que Auerbach faz da história da literatura ocidental, e o que, em certo sentido, rebaixa a nobreza do retrato humano tal como concebido pelos clássicos; neste diálogo, Joyce usa o mito e a poesia clássica para forjar um novo mito moderno, que deve ser forjado na alma, e que tem consciência de sua própria condição de invenção e do passado com que dialoga, estas duas condições, como Kiberd formula brilhantemente em seu ensaio, já vaticinadas por Schlegel. Com Ulysses, Joyce recorreu ao mito, a fim de forjar na alma um sentido, uma ordem (um novo mito), para a vida (Eliot disse e, como muitos de seus contemporâneos, fez algo parecido, como cita Kiberd), para a Irlanda e para o mundo contemporâneo, por meio da epifania da arte, a claritas, conforme o sentido que Stephen, em Retrato, dá ao termo de São Tomás de Aquino, a luminosidade repentina e indefectível da verdade. O senhor(a) é atualmente um(a) assinante gratuito(a) de Livraria Trabalhar Cansa. Para uma experiência completa, faça upgrade da sua assinatura.
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quarta-feira, 20 de maio de 2026
Diário e rememoração, XIII
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