Para não dizer que não falo de futebolPor Janer Cristaldo Publicado na coletânea A Força dos Mitos, Editora Alfa-Omega, SP, 1976.
E não vais escrever sobre futebol? Esta é a pergunta que mais tenho ouvido desde que comecei a ocupar este espaço. É claro que vou falar de futebol. O cronista deve estar preparado para o trivial e para o grave, para o fútil e para o significativo. E que mais significativo que futebol neste país de tricampeões? Quando penso em futebol, me ocorre logo a figura de Renato, colega de aula desde o ginásio feito no interior, até o último ano do curso de filosofia, aqui na capital. Nos últimos anos de secundário, Renato era o único a preocupar-se com as abstrações da literatura e filosofia. (Naquela época ainda existia filosofia no secundário). Enquanto todos se desesperavam com equações matemáticas, fórmulas químicas e problemas da física, Renato se encerrava nos Diálogos de Platão, contos e novelas de Sartre, Camus, estudos sociológicos e políticos etc. Não que os outros tivessem inclinações científicas ou grandes ambições no campo das ciências exatas. Nada disso! O problema era saber o suficiente para vencer o vestibular, fazer carreira, comprar carro e casa, enfim, ter êxito nesse tipo de vida que todos bem conhecem. Mas Renato linha preocupações maiores. Na primeira viagem a Porto Alegre, voltou com livros de Rousseau, Montesquieu, Agostinho, Aristóteles, Kant e quantos outros encontrou. Ao fim do secundário, que superou a pau e corda, veio para Porto Alegre, inscreveu-se no vestibular para filosofia, e fez o curso. Ano a ano, com insônia e método, foi percorrendo as obras dos pensadores que erigiram a cultura e história humanas. Começou pelos gregos, isto é, pelo início. Estudou Tales, Parmênides, Heráclito, Anaxágoras, Górgias, Protágoras. Continuou com Platão, Sócrates, Aristóteles. Embrenhou-se pela maiêutica, percorreu os mitos da filosofia platônica, discutiu as idéias estéticas de Aristóteles. A vôo de pássaro, deu uma rápida olhadela no pensamento dos Vedas e Upanishades, no confucionismo e budismo, numa tentativa de confronto com o Oriente. Continuou suas incursões trilhando agora a patrística e a escolástica. Deglutiu — estoicamente, sem uma queixa — Kant, Hegel, Spinoza, Bergson, Heidegger, Sartre e outras figurinhas difíceis cujo nome nem lembro. Muniu-se de conhecimentos de economia e história para dar uma olhada em Marx e Engels. Ao fim dos quatro anos do curso e outros tantos de pesquisas por conta própria, é um homem de uma vasta cultura, com sólidos conhecimentos das doutrinas políticas, estéticas, filosóficas, econômicas e religiosas que já grassaram sobre este planeta. Estudou disciplinas que o leigo mal imagina que existam: gnoseologia, ontologia, metafísica, axiologia. Em suma, Renato é um desses estudiosos cada vez mais raros nesta época onde não há tempo para leitura, muito menos para humanidades. Em Paris ou Berlim, seria catedrático, ganharia um salário digno e teria todas as portas abertas para a continuação de suas pesquisas. Pesquisas que se tornam cada vez mais urgentes num mundo em que o homem perdeu totalmente a visão de conjunto. O homem contemporâneo está perdido. Pediu socorro aos cientistas e técnicos, recebeu estatísticas e bombas nucleares. Se alguma resposta existe às angústias do homem atual, só poderá vir de alguém que tenha uma visão do alto, da História e da humanidade. De estudiosos como Renato. Mas Renato vive em Porto Alegre. Desempregado e sem perspectiva alguma de utilizar seus conhecimentos. Às vezes lamenta: se em vez de me preocupar com cultura, letras e humanidades, me dedicasse a chutar uma bola, poderia estar ganhando uns 40 mil por mês. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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terça-feira, 19 de maio de 2026
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