Obrigado pela sua leitura! Em 2016, quando Bob Dylan ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, houve uma reação histérica contra o laureado que mostrou muito bem como o “círculo de sábios” em geral, seja da parte da esquerda ou da direita, desconhece por completo não só as sutilezas da literatura, ou as nuances do cancioneiro popular dos Estados Unidos, mas também a natureza profunda da América – e, portanto, de uma parte significativa da cultura dos séculos XX e XXI. Querem uma prova? Vejamos a canção “Blind Willie McTell”, renegada pelo próprio Dylan para o álbum Infidels, de 1983. Contudo, ela é melhor do que o disco inteiro – e, por isso, seria lançada depois oficialmente na caixa de inéditos The Bootleg Series Vols. 1 e 2 (1991). Nela, o personagem principal observa o “desconcerto do mundo” pelas janelas do famoso hotel St. James, que fica em Selma, estado do Alabama, lugar da passeata feita por Martin Luther King à época da luta pelos direitos civis dos negros. Ele tem uma visão que vai além do passado, do presente e do futuro. Olha os homens que sofreram na Guerra da Secessão, observa as mulheres que se vendiam facilmente para malandros, que depois as abandonariam. Respira “o cheiro das magnólias”, misturado com “o som dos chicotes” que laceram a carne dos escravos, tudo em função de um país que ninguém ainda sabia o que seria. Parece ser mais um lamento “politicamente correto” (ou woke) sobre o tema do racismo, mas Dylan faz o inesperado (como é o seu costume) - e eis o segredo da sua longevidade: todo o cenário descrito é apenas uma imagem que o motiva a meditar sobre o fato de que “Deus está distante em seu paraíso/ e que o poder e a cobiça e a nossa semente corrompida é tudo o que parece existir”. Porém, no meio dessa desgraça, há um alento – a certeza de que “ninguém cantou tal tristeza (o blues) como Blind Willie McTell”. McTell foi a quintessência do bluseiro, um negro cego de nascença no meio de uma América incapaz de permitir a igualdade racial. Entretanto, jamais deixou que tais obstáculos o impedissem de ser um gigante entre seus pares, ao escrever canções antológicas, como “Broke Down Engine” e “Lord, Send Me An Angel” (depois regravada por ninguém menos que o White Stripes). A homenagem que Dylan lhe faz não é apenas um desejo de imitação; é, sobretudo, uma emulação completa, em que o Bardo Fanho de Minnesota usa do amálgama entre poesia e música (como bem observou Christopher Ricks, estudioso de T.S. Eliot e Geoffrey Hill, no seu essencial Dylan’s Visions of Sin) para criar um objeto de arte único. Assim, ele supera a influência de McTell, ao abusar das referências eruditas, que vão da Bíblia até John Milton, passando pela “métrica de W.H. Auden”, algo que era comum entre poetas como Seamus Heaney e Joseph Brodsky (a propósito, ambos vencedores do Prêmio Nobel de Literatura). Só por estes detalhes já percebemos que o mundo de Dylan é uma “república invisível”, segundo Greil Marcus (outro scholar nos estudos dylanescos), em que o importante é o modo como a linguagem literária dialoga com uma tradição desconhecida para o “círculo dos sábios”, mas que é reconhecida pelos verdadeiros artistas que sabem o “tormento da expressão” (saudades, Henry James) envolvido na criação de uma obra destinada a permanecer através dos tempos. No caso das críticas a Dylan (aniversariante no próximo dia 24 de maio, aliás, com 85 anos de idade muito bem vividos), a ignorância desses senhores a respeito de tais assuntos não é uma benção, em hipótese nenhuma. Trata-se de uma sina que carregarão por anos, pois mostram que apenas criticaram sobre aquilo que jamais quiseram entender - e que nunca compartilharam com a sociedade. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: EVENTO: 1o Congresso Internacional José Ortega y GassetNo dia 27 de maio (quarta-feira), darei uma palestra às 15h30, sobre o tema Contra Uma Filosofia Dos Espectros: Ortega e a nossa “religião da modernidade”, no 1o Congresso Internacional José Ortega y Gasset, que acontecerá no espaço INNSIDE do Meliá Hotel na Rua Iguatemi (endereço na imagem acima). Obviamente, estão todos convidados, mas antes precisam se inscrever neste link. As vagas são limitadas. AVISO: NOVO CURSO - RAÍZES (E CONSEQÜÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIROUM TRECHO LOGO ABAIXO:Queridos leitores: Temos um novo curso: RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO. (No decorrer das aulas, os alunos perceberão que eu falo “Raízes do autoritarismo brasileiro” o tempo todo, mas o nosso departamento de marketing resolveu alterar o título para melhorar as vendas. Não vou discutir.) Trata-se de um prosseguimento do assunto que abordei nos cursos anteriores (mas agora aplicados na perspectiva brasileira), De Zero a Nero - O que Shakespeare ensinou a Peter Thiel sobre os rumos da liderança, e Além do Zero: Vivendo na Religião da Tecnologia, que você pode adquirir respectivamente aqui e aqui. Serão seis aulas, de 30 minutos a 1 hora de duração, todas já gravadas. Aqui vão os temas abordados: O curso é também uma reflexão sobre certas obsessões minhas e que me acompanham desde a época do meu segundo livro, A Poeira da Glória (2015) e depois em A Tirania dos Especialistas (2019), indo até A Disciplina do Deserto, minha obra derradeira. Este livro será publicado em 2026, se os deuses do mercado editorial permitirem. Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará o curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo:martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - CURSO RAÍZES TOTALITARISMO -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível do curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription.
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quarta-feira, 20 de maio de 2026
A República Invisível
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