Pelas barbas de Gaudério: Garopaba é aquiVivian Schlesinger Parte 1 Quanta melancolia cabe no coração de um jovem de trinta anos? Em que idade começa a construção da própria solidão? Muito cedo, quando o jovem carrega sobre seus ombros a bagagem de perdas de várias gerações. Se esse jovem enfrentar esse fardo com a força dos apaixonados e a ética dos inocentes, será um jovem irresistível às mulheres, leal e invejável aos homens. É justamente esse o protagonista de Barba ensopada de sangue (Cia. das Letras, 2012), de Daniel Galera, um dos romances mais originais no Brasil nos últimos 15 anos. Em uma longínqua e saudosa era, a cada tantos meses, eu me dava de presente uma tarde inteira em uma boa livraria. Poderia comprar tudo que meu orçamento permitisse, ou nada: o prêmio era sentar, folhear e até ler 20 ou 30 páginas de vários autores completamente novos para mim. Fazendo isso desde os anos de colegial, meu universo literário cresceu várias galáxias. Deixei de fazer isso não porque não mereça, afinal ninguém é de ferro, mas porque não há mais livrarias onde se possa passar várias horas, comprando ou não. Dificilmente os livros que quero ler, ainda que eu não os conheça, estarão nas prateleiras. Livrarias só estocam aquilo que vende, i.e., os Chico Buarque’s, as biografias de luminares como Michelle Obama, a bovinidade da autoajuda. Arrepios. Hoje o método de descoberta de literatura é garimpar lançamentos em editoras brasileiras e internacionais, prêmios literários pelo mundo afora, recomendações de críticos que “sigo”. E quando tudo isso fracassa, sempre há a possibilidade de ler uma amostra no kindle. Mas nada se compara à descoberta fortuita através do objeto concreto. Foi assim que um dia encontrei na falecida Livraria Cultura do Shopping Vila Lobos um exemplar da revista “Granta” com contos de autores brasileiros abaixo dos 40 anos. A Granta é uma revista literária inglesa fundada há mais de 100 anos. Seu prestígio vem da seleção criteriosa de tudo que publica. O nome, “Granta”, significa “lar da nova escrita”, mas ser novo não basta para passar o crivo editorial. Periodicamente a revista publica seleções de autores jovens de países não anglófonos, como Brasil, China, Espanha, etc., utilizando sempre um júri local e internacional. Ser publicado na Granta é sinônimo de potencial literário reconhecido. A Granta eu conhecia, mas os autores brasileiros daquela edição, não. Ali estavam Michel Laub, Daniel Galera, Carol Bensimon e tantos outros excepcionais, promessas de um futuro que ainda não veio. Por vários motivos, a maioria deles escreveu um grande romance e depois... alguns pequenos romances. Para quem diz que oficinas de escrita não servem para nada, atenção: muitos dos 20 foram participantes da oficina de escrita de Luiz Antonio de Assis Brasil. Oficina boa ensina, sim. Mas o que cada autor faz com o que aprendeu, é por sua conta. Nesse número da Granta foi publicado um conto de Daniel Galera que viria a ser o excelente romance Barba ensopada de sangue. O conto, intitulado “Apneia”, tira o fôlego do leitor sem pedir licença. Em uma conversa que não termina bem, o pai do protagonista revela que seu pai, portanto avô do rapaz, Gaudério, de lendária violência e impulsividade, desapareceu em Garopaba, litoral de Santa Catarina, após uma briga na qual supostamente foi morto, porém seu corpo nunca foi encontrado. Ao entregar ao filho uma foto de Gaudério, avisa que está decidido a suicidar-se, já que sua vida não tem mais sentido. Pede ao filho que tome conta de sua cadela, Beta. O filho tira de sua carteira uma foto sua e a compara com a foto do avô, percebendo grande semelhança. Nesta cena inicial estão contidos todos os elementos essenciais desta história: a linha de gerações fraturada pela violência e sua consequência, a perda de identidade; o amor aos animais; a força da busca pelas memórias; a tênue, solitária fronteira entre liberdade e desnorteio. A Revista Granta publicou precisamente este capítulo em sua edição dos 20 melhores jovens escritores brasileiros, colocando assim Daniel Galera em um novo, merecido patamar com seu quarto romance. Após essa revelação do pai, nosso protagonista (cujo nome não é mencionado), professor de educação física, muda-se para Garopaba onde se isola da família, com quem tem uma série de profundos conflitos. Pouco a pouco vamos descobrindo suas idiossincrasias, sua natureza reservada, seu caráter de princípios, sua ligação com o mar. Ele sofre de uma condição incomum, a prosopagnosia, falha no processo neural que causa ausência do reconhecimento de rostos familiares, inclusive o próprio. Por isso o professor carrega uma foto sua na carteira. Beta, a cadela herdada, o acompanha enquanto tenta desvendar a história do avô sem saber que, na realidade, busca entender sua própria história. A memória relacionada à história da vida do avô torna-se seu principal objetivo. Um personagem sem nome, introspectivo, incapaz de reconhecer as pessoas pelos traços da face - quase um espírito, mas um que sangra, treme de medo, e sente uma dor até física pela falta de lugar no mundo. É uma figura ambígua em tudo: movimenta-se melhor em águas agitadas do que nas ruas tediosas de uma cidade pequena; não reconhece o rosto das mulheres por quem se apaixona, mas coleciona detalhes do seu comportamento que adivinham uma pessoa inteira; adota e quase abandona uma cadela herdada de seu pai, mas finalmente arrisca sua vida por ela. Não é à toa que os resenhistas se dividam em duas fileiras, a dos que resistiram contra essa pessoa fraturada, e a dos que se viram fascinados por ela. No Brasil e no exterior o Barba ensopada de sangue foi muito bem recebido pelo público e crítica, como demonstram os prêmios que a obra recebeu: terceiro lugar no Prêmio Jabuti e Melhor Livro do Ano no Prêmio São Paulo de Literatura, ambos em 2013, além da publicação pela Granta e tradução a dezenas de idiomas. Entre parênteses, em 2013 eu era uma de 3 jurados da categoria Romance no Prêmio Jabuti, cerca de 180 livros inscritos. Eu já havia lido durante o ano a maioria dos 50 ou 60 melhores (há um processo de pré-triagem), o Barba entre eles. Outro forte concorrente era O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, de Evandro Affonso Ferreira. Foi o vencedor. Era realmente excepcional, principalmente pela linguagem, que acabou se tornando a marca de Evandro. O problema é que funcionou tão bem que tornou-se uma fórmula: Evandro escreveu o mesmo romance mais meia-dúzia de vezes nos anos seguintes, mudando basicamente o título. Ganhou mais alguns prêmios até que os jurados de todos os concursos se cansaram. O romance do jovem Daniel Galera ficou entre os finalistas, por diferença de décimos de ponto. No Brasil alguns resenhistas criticaram a ausência de experimentalismo e excesso de realismo, mas no exterior ele foi elogiado inúmeras vezes justamente pela criatividade do realismo mágico interior, termo incomum, mas que apareceu de forma independente em diversos veículos de crítica. No essencial Kirkus Review, por exemplo, Gregory McNamee afirma que
Realismo mágico? Garopaba não é Macondo, não há tapetes voadores, nem tampouco massacres de crianças. Porém há momentos onde a magia é necessária: uma fuga, às cegas, pela mata, durante a noite; uma foca que tal qual em uma fábula, ‘explica’ aos pescadores porque recusou a oferta de um peixe, ao mergulhar e em segundos trazer à tona um peixe muitas vezes maior do que o oferecido; homens adultos que usam fraldas geriátricas para não precisar sair da mesa do pôquer. Esses elementos, salpicados aqui e ali feito desvios temporários do percurso realista, dão ao romance algo precioso na literatura: a certeza de que nada é certo, nada é exatamente o que se vê. É aí, também, que se encontram os poucos momentos de humor. Pouco, porque para esse protagonista a vida não tem nada de cômico. Na Parte 2 deste ensaio você irá descobrir mais razões para ler Barba ensopada de sangue. Se você não gosta de violência, não deixe o título desviá-lo da boa rota: o sangue aí é metafórico. Fique atento! ___________ Barba ensopada de sangue Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
#Literatura: Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera (1)
#Interlúdio: Revolucionários do status quo
#Interlúdio: Revolucionários do status quoOs comunistas de shopping center só incrementam o capitalismo quando pretendem chocar a burguesia
Em maio de 1968, estudantes franceses se organizaram para ocupar a administração da Universidade de Paris. Sob a liderança do jovem anarquista Daniel Cohn-Bendit, nasceu o Mouvement du 22 de Mars. A ocupação era um protesto contra as medidas disciplinares impostas a estudantes que haviam se excedido em atos contra a Guerra do Vietnã, mas logo foi tomada por demandas burocráticas, como a exigência da contratação de novos professores, a construção de novas salas de aula e, principalmente, a reforma completa no sistema de provas que, segundo os estudantes, eram rigorosas demais. O reitor também resolveu protestar. Chamou a polícia, que esvaziou o prédio em pouco mais de meia hora. Muita gente garante que essa foi a primeira vez que policiais entraram, oficialmente, na Universidade de Paris. Não é verdade. A primeira foi ainda na Idade Média, quando os arqueiros do rei tiveram que escoltar São Tomás de Aquino para que ele pudesse dar sua aula inaugural, enquanto os manifestantes, contrários a aulas muito rigorosas, impediam a entrada dos estudantes. Assine Não É Imprensa para desbloquear o restante.Torne-se um assinante pagante de Não É Imprensa para ter acesso a esta publicação e outros conteúdos exclusivos para assinantes. Uma assinatura oferece a você:
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#SobrevidaAoAiatolá
#SobrevidaAoAiatoláTrump ameaçou bombardear Teerã e a teocracia iraniana resolveu se abrir para a negociação
Donald Trump passou a semana pressionando o regime do Aiatolá Khamenei, chegando a prometer um ataque militar no fim de semana. Os americanos alegavam não haver avanço nas negociações sobre o fim do programa nuclear iraniano, por isso, prometiam jogar umas bombas em Teerã. Como avisou o Chiuso no seu texto aqui no NEIM, era “a velha máxima de Clausewitz: ‘a guerra é a continuação da política por outros meios’". Ficamos todos frustrados, sem um bombardeio de final de semana. O NEIM precisa da sua assinatura para continuar revelando o que as notícias escondem. ASSINE AGORA! O presidente Masoud Pezeshkian veio com aquela conversa mole de que o seu país estava preparado para revidar a agressão americana. Mas, no mesmo dia, seu ministro das relações exteriores, Abbas Araghchi, dizia-se confiante de que "ainda há uma boa chance de se chegar a uma solução diplomática baseada em uma situação vantajosa para ambos os lados". Eles continuam dizendo que enriquecem urânio para fins pacíficos, embora a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica da ONU), sem nenhuma cooperação do regime do Aiatolá, tenha atestado que os iranianos já são capazes de enriquecer urânio a pelo menos 60%, mais perto dos 90% para se fazer armas nucleares do que dos 3,67% necessários para o funcionamento de uma usina nuclear. Em suma, se não teve bomba americana no fim de semana, significa que tiveram uma boa conversa. O Aiatolá ganha uma sobrevida e mantém seu regime de pé. A imprensa internacional noticiou que um “alto funcionário de Teerã” – sempre esse sujeito oculto –, afirmou que o regime do Aiatolá considerou a hipótese de enviar metade de seu urânio para o exterior, diluir a outra metade para ficar dentro dos padrões estabelecidos pela AIEA. Alguém acredita? Segundo o mesmo funcionário, a teocracia do Aiatolá ainda está disposta a oferecer uma abertura de mercado para empresas americanas nos setores de gás e petróleo iranianos, em troca do reconhecimento do seu programa nuclear – e, claro, a manutenção do regime totalitário do Aiatolá. Tudo isso depois de verem os americanos aumentarem consideravelmente sua presença militar no Golfo Pérsico. Mais uma vez Trump vai conseguindo vantagens nas negociações. Ele prometeu aos eleitores americanos que não se meteria em novas guerras. Mas nunca prometeu que deixaria de usar o poder militar americano para fazer sua America Great Again.
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