#Cinema: o melhor filme de todos os temposJeanne Dielman, filme experimental e de vanguarda de longuíssimas 3 horas e meia de duração, sobre a vida de uma viúva e sua rotina quase trivial
Hoje vamos falar sobre aquele que é considerado o melhor filme de todos os tempos pela revista britânica de cinema Sight and Sound, um das mais conceituadas do mundo. Trata-se de Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles, um filme experimental e de vanguarda de longuíssimas 3 horas e meia de duração, que versa sobre uma dona de casa comum e a sua relação com o seu filho adolescente, dirigido pela cineasta belga Chantal Akerman, falecida em 2015. Tal qual a película Kárhozat, Jeanne Dielman é um representante do chamado Slow Cinema ou “cinema contemplativo”. Também é considerado pela crítica como um filme “feminista radical”, entretanto não se constate traços de militância feminista exarcebada na obra. Jeanne Dielman retrata três dias na vida da personagem homóloga ao título do sob intenso escrutínio de planos-sequência longuíssimos e sem fôlego que fazem o espectador sentir-se cada vez mais submergido numa obra claudicante. É uma película hermética, altamente debruada em si mesma, que perpassa por uma mensagem clara: a de que se deve entender os esforços de uma mãe solo e viúva que se desvela por um filho adolescente. A protagonista, interpretada pela lendária atriz francesa Delphine Seyrig, que também deu vida à “Mulher Misteriosa” do filme “Ano Passado em Marienbad” (que também será objeto de uma futura análise), é uma mulher que tem uma rotina trivial: levanta-se cedo, cozinha, lava as roupas, limpa a casa, faz compras e ajuda o filho nas lições de casa, tudo isso por meio de tomadas panorâmicas. A primeira vista tudo isso pode parecer monótono e sem sentido e pode ser interpretado como uma espécie de onanismo intelectual da cineasta, mas a maestria do filme consiste em apresentar a trivialidade de forma lenta e até mesmo morosa. Praticamente, não há diálogo no filme, que se aproxima mais de um poema visual, dos quais os vinte e cinco minutos iniciais demonstram exatamente as pretensões da diretora em fazer uma obra contemplativa. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Nesta famosa cena, é mostrado, em uma tomada única, o preparo da refeição do dia pela senhora Jeanne Dielman. Isso pode parecer auspicioso por parte de Akerman, porém a intenção é clara: demonstrar que o trivial pode ser objeto de uma análise profunda pelo espectador e pelos críticos de cinema ao redor do mundo. Em decorrência disso, o público não digeriu bem as tomadas lentas e monótonas da obra, classificando-o como terrível e pretensioso sobremaneira à época de lançamento, o que valeu o ostracismo durante décadas. E isso reflete-se ao decorrer da película, que permanece morosa e arrastada. Contudo, atinge um momento de progressão lenta quando a senhora Dielman conversa, de forma mecânica e automática, com o seu filho, Sylvain Dielman. O ápice da narrativa é atingido depois dessa cena, ao descobrir-se que a protagonista tem uma vida dupla: a de prostituta. Nisso, o filme toma um outro patamar de realização, ou seja, acompanhamos a vida de uma profissional do sexo que consuma o ato com três homens diferentes. No lugar de afazeres domésticos, agora tem-se a visão do quarto da senhora Dielman nos seus trabalhos sexuais, sem carga alguma de erotismo: é um trabalho mecânico despido de sentimentos de afeto ou de valoração. Apenas é aquilo que se propõe a ser, como se fosse um fato determinístico e desprovido de auto-indulgência. E isso ressoa na maestria de Akerman: a de realizar um enredo “glacial” de forma bastante humana e sem pré-julgamentos, muito embora seja classificado como feminista radical. Porém, não se vislumbra qualquer tipo de mensagem ao espectador: o filme é hermético e sem trilha sonora alguma. A sonoplastia é quase que natural, mas bem que poderia ser o clássico “Fracture”, da banda de Avant-Garde/Rock Progressivo King Crimson, já que a música de 13 minutos demonstra uma atmosfera contemplativa e que atinge pontos de tensão tal qual a película. A obra encerra-se com um ação final claudicante e sem perspectiva alguma de solução, o que garante que o enredo foca exclusivamente no comportamento da senhora Jeanne Dielman e não na busca por significado ou interpretação. Embora ache exagerada a alcunha de “melhor filme de todos os tempos”, acredito que é, de fato, um dos melhores já realizados pela indústria cinematográfica independente. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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domingo, 17 de maio de 2026
#Cinema: o melhor filme de todos os tempos
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