Diário e rememoração, XIIAgatha Christie tece histórias de mistério envolventes, de caráter conservador, no sentido de que Poirot e Marple, e sentido da narrativa, são céticos quanto à perfectibilidade do homem.
Assisti a Hollywood Story (William Castle, 1951), ótimo filme: conta a história da pesquisa para a realização de um filme em Hollywood – pesquisa que é, na verdade, uma investigação do produtor Larry O’Brien a respeito do assassinato, ocorrido vinte anos antes, de um grande diretor do cinema mudo, do qual o produtor fica sabendo por acaso, quando seu amigo, o narrador e, afora isto, figura secundária do filme, compra o antigo estúdio em que trabalhara o diretor; como num filme de Hitchcock, uma pessoa comum se vê enredada numa trama de assassinato; como em Sunset Boulevard (Billy Wilder, 1950), do qual a película de Castle pega o vácuo (como notei na hora, e já também notaram muitas outras pessoas, como o crítico Dennis Schwartz) ao contar uma história sobre a própria Hollywood, mais especificamente da era do cinema mudo, com metalinguagem, e é cheia de nostalgia e romantismo, mas tratando também dos cantos obscuros do ser humano, da inveja assassina (fonte do ato homicida que põe a trama em movimento). Assisti também a Brute Force (Jules Dassin, 1947), filme a respeito de um grupo de presidiários que tenta fugir da prisão, apesar de ser, aparentemente, importante e elogiado, não o acho assim tão bom; é competente, tem bons elementos (como os enquadramentos na cela R-17, a dos prisioneiros mais importantes da história) e cenas (a do assassinato do delator do protagonista é ótima!), mas tem um quê excessivamente sentimental do neorrealismo italiano (o diretor carrega nas tintas nas dramáticas histórias de sofrimento dos prisioneiros, que, em geral, não têm malícia propriamente, ou a têm de um modo quase charmoso, e na sordidez, sustentada por um darwinismo social de botequim, do capitão Munsey, vilão e chefe da segurança do presídio), que dá uma certa aversão. *** Li o romance Um corpo na biblioteca (1942), mistério com Miss Marple, e alguns contos – “Através de um espelho sombrio”, uma ótima história sobrenatural sobre o lado obscuro de um homem, e os mistérios de Poirot “O mistério da arca de Bagdá” e “Poirot sempre espera” – de Poirot Sempre Espera e Outras Histórias (2008), da Agatha Christie, e achei ótimo. São grandes histórias de mistério envolventes, de caráter conservador, no sentido de que Poirot e Marple, e sentido da narrativa, são céticos quanto à perfectibilidade do homem e têm respeito pela sabedoria acumulada com o tempo (Miss Marple diz, com deferência e certa nostalgia, a certo ponto de Um corpo, que os vitorianos é que entendiam de natureza humana), deixam entrever e, às vezes, expressam-no textualmente a certeza orgulhosa de que conhecem a natureza humana, o que os leva a saber que (e como), a despeito da ordem social (a perspectiva é da nobreza ou da classe média) estável e tranquila da Inglaterra do entre guerras, uma ordem com um ar de perenidade, como a civilização grega para Homero (Auerbach), o homem sempre recairá no mal, por inveja, rancor, cobiça: “porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem” (Mc 7:21-23). Completando minha empolgação com a rainha do crime, assisti à ótima série da BBC The A.B.C. Murders (dirigida por Alex Gabassi, 2018), baseada no romance que Christie escreveu em 1936. A narrativa concentra-se na figura de Poirot: num seu trauma anterior a 1914, quando fugiu de sua Bélgica natal para a Inglaterra, e que influencia sua crise de fé; na decadência de sua fama e de seu físico; na centralidade de si na construção do plano dos homicídios que perpetra o assassino em série ABC. A série insere assuntos como a xenofobia, a miséria e a sordidez em que vivem as classes pobres inglesas, e insere-as com competência. Esses tempos, também assisti à série islandesa The Valhalla Murders (dirigida por Porour Pálsson e Pora Hilmarsdóttir, 2019), que entra na famigerada categoria literária e audiovisual nordic noir, um ramo de crime fiction, surgido na década de 90, principalmente pelas mãos do escritor sueco Henning Mankell, ramo cujo estilo consiste basicamente num certo realismo (busca retratar instituições, estruturas sociais corruptas, violentas etc.), com poucas metáforas, ambientes gélidos (claro: as tramas se passam nos países nórdicos). Na série, ‘Valhalla’, nome tirado da mitologia nórdica, era um internato para meninos, o qual guardou nas sombras dos seus quartos e corredores histórias de violência contra e estupro de crianças por décadas, histórias cujos atores e protetores, descobrimos ao longo da trama, estiveram por décadas na polícia e na justiça islandeses, e só foram revelados depois dos homicídios praticados por um assassino em série, que sofrera com a violência no internato e resolveu se vingar. Já há umas duas semanas, estou lendo o estupefaciente Ulysses (1922), do James Joyce, e ainda estou na metade dele; há um mês e pouco, estou assistindo lentamente a Seinfeld (1989-1998). O senhor(a) é atualmente um(a) assinante gratuito(a) de Livraria Trabalhar Cansa. Para uma experiência completa, faça upgrade da sua assinatura.
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quarta-feira, 29 de abril de 2026
Diário e rememoração, XII
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