Oscar Schmidt no Hall of Fame de basquete de Springfield em 2013 Talvez você tenha visto o vídeo que o Tadeu Schmidt fez sobre a morte do irmão. Ele conta alguns episódios da vida do Oscar que explicam quem ele era. Oscar não foi ao casamento do Tadeu porque tinha jogo. Disputou uma partida com a mão quebrada. Fratura mesmo, não torção, fratura. Fratura fratura. Existe uma diferença entre o profissional dedicado e o profissional que ama o que faz, e essa diferença é sutil mas enorme. O dedicado se esforça. O apaixonado não consegue parar. Um é disciplina. O outro é constituição. Você não pede pra um peixe nadar mais, ele só nada. Oscar Schmidt não jogava basquete porque era disciplinado. Ele jogava porque era a única forma que ele conhecia de estar vivo. Isso sai pelos poros e a gente reconhece de longe, mesmo sem saber nomear o que está vendo. O problema é que esse tipo de pessoa está ficando cada vez mais raro. Fica mais difícil de encontrar no meio de tanta gente absolutamente técnica, competente, eficiente e completamente sem frescor. Profissionais que executam, até com perfeição, mas não habitam nada do que fazem. Artistas que entregam o produto combinado dentro do prazo (muitas vezes fora) e você assiste, ouve, lê, e sente que falta alguma coisa, mas não sabe o quê. Falta alguém dentro. Alma, talvez? A técnica sem amor produz resultado. Produz bastante resultado. Hoje em dia produz resultado em escala industrial, com ferramentas que otimizam cada etapa do processo. Mas resultado sem presença é como comida sem sal. Você come, fica satisfeito, esquece no mesmo dia. Mesma ideia do “sabor chocolate”. Parece chocolate, tem cheiro de chocolate, tem gosto de chocolate, mas é um preparado sei lá do quê. E aqui vale um ponto importante: a arte não está na profissão que você escolheu. Está em como você a habita. Um faxineiro pode ter mais arte no que faz do que um pintor famoso. Um cozinheiro de lanchonete pode habitar o trabalho com mais presença do que um chef estrelado. A profissão é o endereço. O amor é quem mora lá. Por isso o artista, em particular, não pode ser burocrata do próprio talento. Não pode ser cartorário da própria voz. O cartório é importante, o cartório tem sua função, mas você não sai de um cartório pensando “caralho, que experiência”. O cartório não te inspira. O cartório processa. Arte que só processa não é arte. É só um serviço. Óbvio que serviço tem valor, mas é outra coisa. A questão não é trabalhar mais ou trabalhar menos. Oscar Schmidt não é exemplo de workaholism. É exemplo de vocação no sentido mais literal da palavra: um chamado que você não tem como não atender. Isso é raro e ficou mais raro. E quando você encontra alguém assim, seja no esporte, na arte, no jornalismo, na cozinha, na medicina, você sente. Não tem como não sentir. Tem uma temperatura diferente no que essa pessoa faz. A sorte é que você também não tem como fingir. A técnica você aprende, o currículo você constrói, o networking você cultiva. Mas o amor pelo que você faz ou está lá ou não está, e todo mundo percebe, geralmente antes de você. E eu sei que você está pensando em alguém que você conhece, que não é famoso, mas tem esse amor ao que faz. O Oscar sabia disso e jogou a carreira inteira sabendo disso. Até com a mão quebrada. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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sábado, 18 de abril de 2026
#BurocratasDaVida
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