#Literatura: Epidemia de certezas absolutas"A Peste" de Camus e a permanência silenciosa das doenças morais e políticasCertos livros não se esgotam na leitura. Permanecem em estado de latência, como uma infecção que nunca desaparece por completo. É o caso de A Peste, de Albert Camus. Uma obra-prima que não se limita a narrar história de uma epidemia, mas também diagnosticar um vício demasiadamente humano. A cidade sitiada não é apenas Orã. Pode ser qualquer sociedade que, diante do medo, aceita a lógica do contágio — não apenas biológico, mas moral, ideológico e político. O bacilo pode permanecer dormente por décadas, até o dia em que, “para o infortúnio e também o ensinamento da humanidade”, ela pode reaparecer em ratos que sempre encontram um corpo social disposto a abdicar da lucidez em troca de conforto ou segurança. É quase uma tradição interpretar a peste narrada por Camus como uma crítica ao nazismo. Mas se a literatura pode ser assim polissêmica, a peste, nesse sentido, pode ser interpretada como qualquer ideologia. O que muda é sempre a linguagem. A forma, o modus operandi, permanece o mesmo. Há sempre um vocabulário de urgência, um apelo à necessidade histórica, uma justificativa para reduzir o indivíduo a numa peça de um sistema maior. Camus observa isso através da frieza clínica do seu protagonista, o Dr. Rieux. Não importa se o argumento vem revestido de justiça, progresso ou tradição — a peste se manifesta no instante em que a consciência individual aceita abrir mão da racionalidade, visando um bem maior que ninguém sabe explicar exatamente. O contágio, portanto, não se dá apenas pelo ar, mas pelas palavras. Ideias se espalham como febre: simplificam a realidade, elegem os culpados, prometem soluções totalizantes em forma de sacrifícios. E, como em toda epidemia, os efeitos são previsíveis: medo, conformismo, e uma estranha sensação de alívio ao transferir a responsabilidade para um institucionalismo abstrato. A peste ideológica é sedutora porque dispensa o esforço da dúvida. Ela transforma a complexidade do mundo em narrativa simples, única e moralizante. Uma verdadeira epidemia de certezas absolutas. Nos momentos de crise, essa dinâmica se intensifica. O isolamento, a ameaça invisível, a estatística que substitui o rosto humano: tudo contribui para um ambiente onde medidas excepcionais – sempre totalitárias – parecem não apenas aceitáveis, mas inevitáveis. Em A Peste, Camus não nega a necessidade da ação coletiva; o que sua história expõe é a facilidade com que o excepcional se transforma em permanente, e o provisório em absoluto. A peste não precisa vencer pela força, basta que seja aceita como norma. Então, a própria norma passa a ser imposta pela força. A resposta nunca pode ser ideológica. Porque não há sistema salvador. Não há promessa de purificação histórica nem a ilusão de que uma ideia é capaz de imunizar o mundo todo. O que a história de Camus nos mostra é que, no final, o que resta são gestos discretos, quase anônimos, de homens comuns exercendo uma decência obstinada, quase silenciosa. Por isso, resistir não é aderir a uma causa grandiosa, mas recusar o automatismo moral para se preservar a integridade diante da pressão do contágio. É continuar agindo como se cada vida importasse, mesmo quando o mundo – e suas circunstâncias – insiste no contrário. Não há, portanto, vitória definitiva, apenas a recusa contínua em ceder ao autoritarismo. Porque, a peste ideológica pode ser inevitável, mas o consentimento à sua doutrina continuará sendo sempre uma escolha pessoal. ______________ Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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domingo, 22 de fevereiro de 2026
#Literatura: Epidemia de certezas absolutas
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