Parte 3 Leandro Helfferich tem um passado nazista: seu avô foi um nazi convicto que só abandonou o barco hitleriano quando já estava fazendo água. Isso é um problema para Leandro, que tem dificuldade em aceitar que conviveu pacificamente com alguém com essa mentalidade. É essa a razão que o leva à transgressão? Para seu prazer, vale tudo, mas não é um hedonista inofensivo, como o narrador de A história do olho, de Georges Bataille, novela que me veio à mente durante a leitura de Meu passado nazista. Publicado em 1928 e considerado um clássico da literatura erótica, no livro de Bataille um narrador relembra sua descoberta do sexo na adolescência, ao conhecer uma garota, Simone. Desenvolvem uma relação alimentada exclusivamente pelas experiências sexuais mais inusitadas - ao menos para mim (aos 70 anos, ainda considero que nunca é tarde para aprender algo novo). Incluem em suas explorações o uso de um ovo, urina, leite de gato, testículos de touro, tudo que está ao alcance das mãos ou de qualquer parte do corpo. Tudo tem um potencial erótico de uma caixa de Viagra. Para eles, tudo é novidade. Os dois têm 16 anos e estamos falando da década de 1920, então podemos acreditar que para eles realmente seria tudo novo (nem quero imaginar qual teria de ser a idade dos personagens para que a história fosse verossímil se essa novela fosse escrita hoje). Bataille considerava que apesar da ingenuidade, a transgressão desses adolescentes caminha com o mal. Mas ele tinha a convicção que o mal tem uma função na literatura, como afirma em seu livro A literatura e o mal (1957): Si la littérature s’éloigne du mal, elle devient vite ennuyeuse. (se a literatura se distancia do mal, ela se torna entediante) O livro de André de Leones não tem nada de entediante, mas o “mal” que Leandro causa não é preto no branco, tem nuances. Não há violência, há muita leviandade que não tem a face do mal. Não há inocência perdida, a impressão é que quase todos os personagens sabem, a priori, que estão em um jogo sem regras. O que importa é o momento, foda-se o Cristian, ou quem quer que seja a vítima do ato daquele momento. Mesmo Carol, a aluna adolescente com quem Leandro tem um caso parece feliz com a ausência de compromisso. Jogar esse jogo terá um preço, mas ela não sabe. Mais adiante, no romance, parece que caiu em si e compreendeu a perda, mas é tarde, o preço é muito alto. Assim como em Lolita, quando Humbert Humbert finalmente encontra a menina após procurá-la por vários anos, ela está grávida, envelhecida, muito pobre e casada com um homem simplório. Carrega uma tristeza de 30 andares por ter sido a presa adolescente, quando pensava ser a predadora. Nabokov é tão brilhante, inclusive, que o leitor sente pena de Humbert, o verdadeiro predador, quando Lolita recusa-se a ficar com ele. O livro é narrado por Humbert, o narrador menos confiável que já existiu. Não se arrepende do que fez à menina, só sente tristeza por tê-la perdido. Leandro Helfferich também não se arrepende de nada, nem anos mais tarde, quando fica sabendo notícias terríveis sobre Carol após o fim do caso. Culpa por seus atos não faz parte de seu repertório. Pelo passado do avô, sim, mas pelo seu, nada. Se entre os adolescentes de A história do olho pode-se vislumbrar uma história de amor, ainda que no mínimo digno de terapia, e se na pedofilia confessa de Humbert Humbert existe uma obsessão (que não justifica suas ações, mas explica), em Meu passado nazista não há amor, nem ingenuidade, nem obsessão, há apenas o comando do baixo ventre. Em sua preferência por mulheres proibidas, deixa um rastro de destruição por onde passa, mas sai incólume. Enquanto lia esse os trechos de sexo explícito deste romance também me lembrei do Teatro de Sabbath, uma obra-prima de Philip Roth, difícil de encarar, mas imperdível. E eis que tive uma agradável surpresa: já quase no final do livro, durante um encontro com Sara, mais uma mulher casada, o próprio Leandro traz o Teatro de Sabbath a um diálogo. Ela, enciumada, começa perguntando a Leandro: Existe outra, então? Eu não falei isso. Quase falou. Eu já sou o outro, meu bem. O outro ter outra seria uma redundância insuportável. É bastante comum que o outro tenha outra. Por quê? Sei lá. Talvez justamente por ser o outro. E a adúltera exigir fidelidade do amante? O que é que tem? Quem é você? Drenka Balich? Três pontos: Primeiro: não sei quem é essa tal de Drenka nem do que você está falando. Segundo: adúltera é uma palavra horrível e malcheirosa, favor evitar. Terceiro: não estou exigindo nada de você. Sara não sabe quem é Drenka Balich, mas deveria. Em Teatro de Sabbath, lançado em 1995, Drenka Balich é a amante de longa data do protagonista, Mickey Sabbath. O relacionamento extraconjugal deles dura treze anos, marcado por uma intensa conexão erótica e cumplicidade. Ela é uma imigrante iugoslava que fugiu do regime de Tito com seu marido, Matija Balich. O casal tem um filho “americano”, de quem se orgulham muito. Gerenciam uma pousada em Madamaska Falls, Massachusetts. Com os hóspedes, ela é maternal e atenciosa, mas na realidade é muito mais do que isso. É uma mulher sexualmente livre, verdadeira e sem inibições, a “parceira de crime” de Sabbath em suas fantasias. Livre, pero no mucho. Quando descobre que Mickey, seu outro, tem outra, ameaça: Ou você renuncia a transar com outras ou o caso acabou. Mickey Sabbath é o protagonista, um ex-titereiro de 64 anos, complexo e obcecado por sexo, que luta contra a luxúria, o luto após a morte de sua amante e seu passado turbulento. É um homem consumido pelo desejo sexual, conhecido por sua libido extrema, misoginia e misantropia, mas também uma figura de humor negro e profundidade filosófica. Após a morte de Drenka, seu verdadeiro amor, Sabbath embarca em uma jornada caótica, confrontando memórias dolorosas, especialmente a trágica perda de seu irmão na Segunda Guerra Mundial, que afetou profundamente sua família. Ele representa um anti-herói fundamental na obra de Roth, que explora a identidade judaica e a vida moderna através de suas travessuras ultrajantes. Para entender Roth, que me ajudou a entender muito de mim mesma, dividi a obra em 4 fases, por minha conta e risco, já que não sou especialista no assunto. A primeira foi uma fase de experimentação, de transgressão literária e temática. A segunda lidou mais com questões de fronteira entre autor e personagem. Na terceira fase, Roth levantou questões de identidade individual versus a da família, a fuga da tradição, patriotismo, sonho americano (incidentalmente durante o mês de março será publicado aqui um ensaio meu sobre Pastoral americana, produto desta terceira fase, e sobre a obra de Roth em geral, e em abril, no Não É Clube do Livro vamos discutir Pastoral americana). E finalmente na quarta fase o grande tema são as perdas e como lidar com elas. Nesta fase há uma relação próxima entre sexo e morte, um grande conflito entre destino e livre arbítrio, e a formação da indentidade a partir das perdas. É precisamente aí que entra o Teatro de Sabbath. Mickey Sabbath personifica temas como desejo, mortalidade e a busca por significado, o que rendeu ao romance o Prêmio Nacional do Livro de Ficção. A morte de Drenka por câncer é o evento que desencadeia a crise existencial e a espiral de autodestruição de Mickey Sabbath. Ao longo da obra, ela aparece em memórias detalhadas e diálogos imaginários, um contraponto emocional à velhice e ao declínio físico do protagonista. Leandro, em Meu passado nazista, está muito longe da velhice, e ainda mais longe de imaginar o que o tempo faz ao corpo (a velhice não é uma batalha, é um massacre, dizia Philip Roth). É um estudioso de filosofia e literatura, capaz de enxergar Drenka Balich na conversa com Sara: uma amante adúltera exigindo fidelidade do amante. Se Sara fosse Drenka Balich, Leandro não ficaria entediado, não porque uma é melhor de cama do que a outra, mas porque Drenka desafia o intelecto. Isso sim é um grande tesão para Leandro. O que ele faz de melhor, a meu ver, são as referências literárias que lhe vêm à mente, que ele compartilha com o leitor atento. Na Parte 4 deste ensaio, que será publicado na próxima segunda-feira, você saberá muito sobre a família de André de Leones, e sobre como ela tem sido essencial na sua escrita. Fique atento, quem sabe você pode adotar essa família também! Meu passado nazista Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
#Literatura: "Meu passado nazista", de André de Leones(3)
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