Obrigado pela sua leitura! O Tesão Pelo FascismoAs leituras equivocadas em torno de "Uma Batalha Após A Outra" e de "O Agente Secreto".A reação da crítica e do público em torno do novo filme de Paul Thomas Anderson, Uma Batalha Após A Outra (2025), é inversamente proporcional à recepção ao livro que lhe deu origem, o romance Vineland, de Thomas Pynchon, publicado em 1990. Na época, Pynchon, escritor conhecido por ser um recluso, não lançava nada há dezessete anos. Sua obra anterior, O Arco-Íris da Gravidade (1973), uma gigantesca charada pós-modernista (mais de 700 páginas na edição nacional da Companhia das Letras), foi tão polêmica que o Pulitzer se recusou a premiá-lo por causa da suposta pornografia envolvida nela e, ao ganhar o National Book Award, ele mandou um dedo do meio metafórico ao mundo literário, enviando o comediante Irwin Corey para receber a honraria. Quando Vineland chegou às livrarias, a expectativa era enorme. Seria algo semelhante ao livro que lhe deu fama? Não, não foi nada disso. A trama dele (agora espalhada em menos de 400 páginas) era sobre um grupo de hippies e revolucionários que perdiam tempo fumando drogas e contemplando o remorso de terem sido delatores no passado, abandonados entre os governos de Richard Nixon e de Ronald Reagan. Obviamente, isto foi só o que a crítica e os contemporâneos de Pynchon perceberam. Salman Rushdie até fez uma resenha elogiosa, mas confessou que “esperava mais”. David Foster Wallace se perguntou em uma carta a Jonathan Franzen se o inovador do passado não tinha “ficado gagá”. Enfim: hoje, Vineland é considerado como um dos romances mais fracos de Pynchon – o que é uma injustiça. Trinta e cinco anos depois, Paul Thomas Anderson aproveita o enredo de Vineland e cria seu novo longa. O clamor é instantâneo. É uma obra-prima, dizem muitos. É um dos filmes da década, afirmam outros. Na última segunda-feira, ganhou seis Oscares, entre eles o de melhor película do ano, o de melhor direção e, por último mas não menos importante, o de melhor roteiro adaptado. O que mudou entre o livro e a adaptação cinematográfica, cujo assunto é exatamente o mesmo? Em uma palavra: Trump. Donald Trump. Igual a um espectro, o atual presidente dos EUA paira sobre cada fotograma elaborado por PTA (como os fãs mais ardorosos chamam o diretor). Desde 2016, não é exagero afirmar que a obsessão da cultura contemporânea sobre Trump nos levou a uma paralisia espiritual sem precedentes. E Uma Batalha Após A Outra também sofre dessa moléstia. O que é uma pena – principalmente em relação a Anderson, dono de uma das filmografias mais impecáveis do cinema americano. De Jogada de Risco (1996) até Magnólia (1999), passando por Sangue Negro (2007), até O Mestre (2012) e Licorice Pizza (2021), ele demonstrou uma inventividade e um rigor artístico que não ficam nada a dever, por exemplo, a um Stanley Kubrick ou um Martin Scorsese. Como se não bastasse, tem uma sintonia ímpar com Thomas Pynchon. Conseguiu adaptar Vício Inerente (2014), um romance impenetrável, para uma paródia de filme noir que é também uma bela homenagem a O Longo Adeus (1973), a versão hipster dirigida por Robert Altman a partir do clássico de Raymond Chandler. Além disso, O Mestre, uma fábula irônica sobre os perigos dos cultos e dos líderes carismáticos, é nitidamente inspirada na primeira parte de V., o livro de estreia de Pynchon, publicado em 1963. Portanto, assim como ocorreu em Vineland em 1990, a ansiedade do público era imensa em torno do novo capítulo que PTA tinha preparado para o seu “Universo Cinematográfico Pynchoneano”. O que deu errado? Sim, acertou quem sabe o motivo: Trump. Donald Trump. Ironicamente, o enredo de ambos é o mesmo, apenas os nomes são diferentes. Bob Ferguson (no filme; no romance, Zoyd Wheeler) é um ex-hippie revolucionário que, cuidando sozinho de sua filha Willa (em Vineland, Praire), porque sua esposa Perfidia (para Pynchon, Frenesi) está em fuga pois delatou seus companheiros de luta ao seu amante, o militar Steve Lockjaw (no livro, o promotor de justiça Brock Vond). A troca de nomes tem um propósito: PTA se inspirou em Vineland para também alterar o seu sentido político. Saem Nixon e Reagan; entram Bush, Obama e Trump, mesmo que não sejam mencionados diretamente, além de grupos como Antifa, a questão dos imigrantes, autoritarismo, racismo, crise da democracia – e tudo aquilo que hoje é papo de botequim entre os nossos intelectuais. Mas tanto o diretor como o romancista possuem ambições maiores. Acima das afinidades eletivas, ambos meditam sobre três temas essenciais para a modernidade, em particular depois da 2ª Guerra Mundial: a paranoia como substituta do nosso vazio existencial; o combate subterrâneo entre as forças do caos e do controle na América; e, isto é essencial para entender Vineland e Uma Batalha Após A Outra, aquilo que podemos chamar sem pudor de “o tesão pelo fascismo”. “O tesão pelo fascismo” não é um conceito político exato, mas uma tara difusa que conecta sexo e poder. Não é algo que se refira a um governante específico, como Trump ou Benito Mussolini. É algo que, para Pynchon e Anderson, é intrínseca à natureza do Estado em si e que se reflete no nosso fascínio pelo poder – e de como isso corrói as relações humanas, em particular entre os membros de uma família. Neste aspecto, o Estado é o ente supremo que escraviza a consciência individual – e torna os revolucionários e os reacionários numa massa informe, indiferente, em que um lado passa a devorar o outro, como o Saturno que arranca os membros dos seus filhos, evento dramatizado na famosa pintura de Francesco Goya. É aqui que ocorre o erro de Paul Thomas Anderson: ele prefere ver essa tragédia sob o filtro do sentimentalismo americano, comum aos seus primeiros filmes (como Boogie Nights [1997] e Magnólia), mas que tinha sido abandonado em suas obras mais maduras (é só nos lembrarmos de Sangue Negro e Trama Fantasma, de 2017). É fato que esse sentimentalismo tem uma dose de ironia e de deboche. Ao contrário do que a maioria dos críticos pensou, Uma Batalha Após A Outra não é sobre “a luta entre revolucionários de esquerda e de militares fascistas”, mas sim sobre como sociedades secretas - um assunto essencialmente americano - comandam a história de todo um país - e a vida dos seus cidadãos. Na trama redesenhada por PTA - e com nítida influência pynchoneana - temos três tipos de grupos obscuros que movimentam os personagens: o mais evidente é a Sociedade dos Aventureiros Natalinos, uma referência às seitas que organizam o deep state pleno de poder das altas elites dos EUA; depois, temos o Convento dos Castores Nervosos (“Sisters of the Brave Beaver”, uma denominação cheia de segundas e terceiras intenções), cujas freiras revolucionárias claramente treinaram o grupo de militantes explícitos; e então temos a organização comandada por Sergio St. Santos, interpretado por Benicio Del Toro, que doutrinou, entre as frestas, a filha de Bob Ferguson desde a adolescência. Quando essas três sociedades secretas são percebidas com atenção, o filme muda de figura (há outros grupos no filme, mas menos importantes, como a rede subterrânea que se comunica com os revolucionários e a milícia de extrema-direita, chamada apenas de “1776”, referência à data da independência americana). Assim, Willa Ferguson (uma promissora Chase Infiniti, um nome real que parece ter saído das páginas escritas por Pynchon) se transforma de herdeira das ilusões dos pais para uma “idiota útil” que está nas mãos do seu sensei com cara de bonachão, mas que controla uma organização marginal entre as frestas da cidade onde se passa o filme, Baktan Cross; e Bob Ferguson (um Leonardo Di Caprio que aperfeiçoa o tipo “chapado charmoso”) continua chapado, porém a sua droga não é mais a santa maconha de cada dia, e sim o telefone celular do qual enfim conseguirá tirar uma selfie para a posteridade. Ao contrário de PTA, Thomas Pynchon evita qualquer espécie de “emoção” (o que não significa que ele deixe de ser “emocionante” em seus livros) ou de subterfúgio narrativo para contrabalançá-los com um ceticismo saudável a respeito das verdadeiras intenções nos personagens de Vineland, em particular as que envolvem Frenesi/ Perfidia. Para PTA, Perfidia é uma delatora, mas é alguém que continua com o sonho da “revolução”, mesmo que seja “entre as sombras”. Já na visão de Pynchon, Frenesi delata seus colegas de revolta porque, no fundo, ela sempre teve e sempre terá um tesão irreparável por Brock Vond. Isso também ocorre entre Perfidia e Steve Lockjaw (soberbamente interpretados por Teyana Taylor e Sean Penn) em Uma Batalha Após A Outra. Aliás, é o motor de todo o drama que envolve Bob Ferguson e a filha Willa. Mas, se no livro, o tesão pelo fascismo é o enigma que confunde os personagens e o leitor, no filme ele passa a ser apenas um mecanismo de roteiro para que o público fique a pensar sobre o único homem que assombra cada ação registrada em VistaVision. E vocês sabem quem é ele, certo? Sim, ele: Trump. Donald Trump. E é triste que isso aconteça porque Uma Batalha Após A Outra não é ruim. PTA é um mestre da direção, dono de uma técnica impecável. Ele consegue subverter as convenções do thriller e do filme de ação com uma inventividade rara. Contudo, em termos políticos, é um ingênuo. Não se pode falar o mesmo do cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho, que fez O Agente Secreto, um filme a guardar muitas semelhanças com Uma Batalha Após A Outra, em particular sobre como a política destrói as gerações de um país. Novamente, tanto a crítica como o próprio diretor não contribuíram para uma discussão saudável sobre o longa. Mas talvez Kleber tenha elaborado uma estratégia um tanto cínica, uma vez que, no final, depois de duas horas e meia acompanhando o martírio de Armando/ Marcelo (Wagner Moura, numa atuação brilhante) para recuperar a sua vida e a memória dos seus pais numa Recife repleta de predadores literais e metafóricos na década de 1970 (no auge da ditadura militar), o espectador enfim descobre que todos aqueles personagens foram manipulados numa guerra secreta entre duas famílias de empresários - a de Elza feita por Maria Fernanda Cândido e a de Ghirotti de Luciano Chirolli - as quais, entre outras coisas nefastas, enterram toda a lembrança de uma nação (qualquer menção às dinastias de bancos - vocês sabem quem são, certo? - é apenas uma coincidência, per supuesto). E qual seria a razão do uso dessas estratégias subversivas? Ao contrário de Thomas Pynchon, PTA não entende as implicações macabras do “tesão pelo fascismo” – e, como qualquer colega de profissão cinematográfica, acredita que, hoje, mesmo que não o cite explicitamente, todos os problemas do mundo giram ao redor de Donald Trump. Já Kleber sabe muito bem o que isso significa, apesar de se enterrar numa retórica petista, como se ele fosse o próprio “agente secreto” mencionado no título do filme (uma artimanha usada em seus longas anteriores, como O Som Ao Redor [2015], Aquarius [2017], Bacurau [2018] e Retratos Fantasmas [2022]). Este tipo de atitude - tanto a de Kleber como a de PTA - lembra muito um ensaio que o inglês JG Ballard escreveu na década de 1980, intitulado “Porque Quero Trepar com Ronald Reagan”. Troque “Reagan” pelo nome do magnata nova-iorquino – e o impacto retórico é o mesmo. Ballard explica, com seu estilo anárquico próprio, que Reagan atraía um tipo peculiar de erotismo, envolvendo sexo, finanças e destruição moral desenfreada, algo que sempre fez parte da república americana desde a sua fundação. Pynchon desenvolveria um raciocínio semelhante em seus livros seguintes, entre eles Contra O Dia (2008) e O Último Grito (2012) – e seu próximo romance, Shadow Ticket, que saiu em outubro do ano passado, foi pelo mesmo caminho. Ora, Trump tenta praticar o mesmo tipo de procedimento. A pergunta que não calar é: Como nós, pessoas supostamente esclarecidas, deixamos isso acontecer? Um dos melhores ensaístas dos últimos tempos, Martin Gurri, afirma que há uma razão mais evidente para tal evento – e que, paradoxalmente, ninguém quis observá-lo com seriedade. Ele argumenta que, se antes a elite progressista simplesmente não entendia e não queria entender o fenômeno Trump ocorrido entre 2016-20, a novidade agora é que ela passou a entendê-lo até demais. Ou seja: o presidente americano se tornou um espelho distorcido de tudo o que elas mais desejavam – e que não ousavam articular para si mesmas, já que estavam imersas no seu exibicionismo moral. E qual seria este desejo? Trata-se do fato de que Trump representa a descrença absoluta na democracia representativa. Porém, nos últimos anos, a intelligentsia, dia após dia, provou que nunca esteve interessada em proteger a democracia, como alegava ao público, porque ela também estava mergulhada neste ponto cego. Ocorre que esta farsa não durou muito tempo. Donald Trump, Jair Bolsonaro, Brexit, Javier Milei, Giorgia Meloni, Geert Wilders, entre outros, vieram do subsolo e mostraram que essa intelligentsia poderia ser desafiada, seja com o auxílio das redes sociais, seja com a rede subterrânea da “microcultura” que se articulou nas margens da sociedade – e que ganhou espaço nos centros de poder. A derrota de Trump, em 2020, nos levou a acreditar que tudo não passou de um “soluço fascista”. Porém, isso foi uma ilusão, pois, com seu retorno, Trump se exibiu como a encarnação suprema (e contraditória) dos anseios desses iluminados – e, mais, da nossa tara pelo Estado como a única forma de resolver os nossos problemas morais. A tese de Gurri é perturbadora para os nossos olhos repletos de santimônia, mas ela confirma a profecia em Vineland e explicita a fraqueza dramática e política dos longas de Anderson e de Kleber Mendonça Filho; no caso do primeiro filme, ele transforma Willa em uma herdeira do ativismo ideológico como se fosse o elo perdido para manter os laços familiares (ao contrário da sua contrapartida literária, que sente um estranho fascínio por Brock Vond); no segundo filme, Kleber prefere insistir num discurso progressista quase cifrado, transformando os militares em monstros a lá Steven Spielberg, sem explicitar (talvez por motivos de sobrevivência) que o verdadeiro fascismo habita nas elites que desejam perverter a nossa memória. Eis a ingenuidade moral de PTA e de Kleber Mendonça Filho, porque, em um futuro próximo, eles não percebem que as gerações de Willa Ferguson e de outros jovens (como o Fernando de O Agente Secreto) terão dificuldades para entender como o Minotauro saiu do labirinto e nos devorou sem aviso. Mas não se preocupem, há uma esperança: no fim, quando surgem os créditos de encerramento em Uma Batalha Após A Outra (ao som da deliciosa “American Girl”, de Tom Petty) e em O Agente Secreto (na melancólica “Não Há Mais Tempo”, na voz de Ângela Maria) , sabemos que só há um sujeito que conseguiu decifrar tudo isso para nós. Seu nome? Vocês sabem disso, certo? Sim, ele: Pynchon. Thomas Pynchon. Quem viver verá. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: AVISO: NOVO CURSO - RAÍZES (E CONSEQÜÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIROUM TRECHO LOGO ABAIXO:Queridos leitores: Temos um novo curso: RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO. (No decorrer das aulas, os alunos perceberão que eu falo “Raízes do autoritarismo brasileiro” o tempo todo, mas o nosso departamento de marketing resolveu alterar o título para melhorar as vendas. Não vou discutir.) Trata-se de um prosseguimento do assunto que abordei nos cursos anteriores (mas agora aplicados na perspectiva brasileira), De Zero a Nero - O que Shakespeare ensinou a Peter Thiel sobre os rumos da liderança, e Além do Zero: Vivendo na Religião da Tecnologia, que você pode adquirir respectivamente aqui e aqui. Serão seis aulas, de 30 minutos a 1 hora de duração, todas já gravadas. Aqui vão os temas abordados: O curso é também uma reflexão sobre certas obsessões minhas e que me acompanham desde a época do meu segundo livro, A Poeira da Glória (2015) e depois em A Tirania dos Especialistas (2019), indo até A Disciplina do Deserto, minha obra derradeira. Este livro será publicado em 2026, se os deuses do mercado editorial permitirem. Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará o curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. 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quarta-feira, 18 de março de 2026
O Tesão Pelo Fascismo
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