#Interlúdio: Os extremos que se tocamA negação do homem é a afirmação absoluta das forças políticas. E o delírio das utopias é traço de união das ideologias
A desconexão da vida real nos joga para operações mentais nas quais, ao invés de aceitarmos a vida como ela é, buscamos justificativas para as nossas crenças e ações. Somos mais inclinados a justificar nossas ideias do que abertos para admitir que estamos equivocados. Assim, procuramos as narrativas ideológicas que estão mais de acordo com as nossas crenças, e o marketing se encarrega de criar todos os subterfúgios para nos vender a ideia de que um determinado grupo está certo e seus inimigos errados. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Embora tenham diferenças inconciliáveis, as ideologias partem sempre de uma visão negativa do caráter humano, por isso dizem ser necessário esclarecer o povo, alienado da sua condição política e vítima de uma conspiração das elites. Todos os ideólogos se apresentam como “antissistema”, denunciando um complô mundial dos “donos do mundo”. A desconfiança é o motor da política moderna, afinal, como dizia Carl Schmitt, num texto de 1932, publicado na coletânea italiana de seus ensaios, Le categorie del politico, entre notas de rodapé de páginas inteiras:
A distinção de amigo-inimigo indica o grau de união ou separação de uma sociedade. Quanto mais polarizada, menor é a chance de se pautar as ações pela ideia de bem comum — e, obviamente, maior é a chance de serem pautadas por interesses privados. Assim, surgem duas facções rivais: os revolucionários desejosos de poder e os oligarcas da burocracia, que não querem mais deixá-lo. “Quando se trata de um desconhecido, o homem é um lobo e não um homem”, lembra o mercador da famosa Comédia dos burros de Plauto, que não queria confiar seu dinheiro a alguém que não conhecia — e de onde Hobbes tirou o seu “o homem é lobo do homem”. Para Hobbes, que presenciou a violenta guerra civil inglesa, o ser humano não é comunitário como afirmava Aristóteles, mas antissocial. A saída, portanto, como ele diz no capítulo 17 de Leviatã, seria organizar um poder que mantenha “os homens intimidados”, reagrupando socialmente os amigos e inimigos através do “reino da razão” (imperium rationis) que seja capaz de substituir a guerra civil por uma coexistência pacífica entre os cidadãos. Essa ideia justificou todos os regimes políticos do século XX que se apresentaram como científicos, mas guardavam um certo misticismo profético de quem vem anunciar o triunfo na luta do bem contra o mal. Essa aventura prometeica pretendeu fazer o homem particular diluir-se num todo universal, o Estado, a nova Terra Prometida pela qual deveria estar disposto a morrer. Esse messianismo, segundo Tzventan Todorov, em Inimigos íntimos da Democracia, teve três ondas: a primeira ocorreu nas guerras da Revolução Francesa, quando a Convenção de 1792 decidiu que o povo francês deveria libertar o mundo, que significava a ocupação do país alheio pelos soldados franceses; a segunda, no projeto comunista (que previa, no Manifesto escrito por Marx e Engels, “intervenções despóticas e violentas” para suprimir toda ordem social do passado) — e, por tabela, no projeto nazifascista. O século XX foi palco de inúmeros espetáculos macabros de regimes políticos abomináveis. A terceira onda foi a tentativa de impor a democracia pela bomba, como ocorreu na Guerra do Kosovo (1999), na do Afeganistão (2001) e na do Iraque (2003). Agora parece que estamos vivendo uma quarta onda, a do desenraizamento, do anti-humanismo. O homem, atomizado na sua auto-condenação de progredir sempre, é visto apenas como engrenagem de um modelo político-econômico no qual o indivíduo singular não tem valor fora da classe ou grupo que o representa. Portanto, o novo homem, desenraizado da sua cultura, porque é cevado pela cultura de massa, e sem ligação com a história, porque não lhe interessa nada além da própria vida cotidiana, acaba sendo uma presa fácil para uma utopia social. A negação do homem é a afirmação absoluta das forças políticas. E o delírio das utopias é traço de união das ideologias. [trecho do livro O que restou da Política, ed. Noétika, 2022.] Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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domingo, 6 de setembro de 2026
#Interlúdio: Os extremos que se tocam
#OTruqueDaReforma
Quando a roubalheira é descoberta, o problema passa a ser o "sistema"
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#OTruqueDaReformaQuando a roubalheira é descoberta, o problema passa a ser o "sistema"
Quando o PT foi pego no mensalão, Lula defendeu uma reforma política. Ele até chegou a justificar para Pepe Mujica que distribuir propina no Congresso “era a única forma de governar o Brasil”. O problema nunca é a roubalheira, mas o sistema.
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#SemanaDosTrouxas(62)
Resumo semanal para provar que somos trouxas. Muito trouxas!
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#SemanaDosTrouxas(62)Resumo semanal para provar que somos trouxas. Muito trouxas!
Esta foi uma das semanas mais podres da história do Brasil. E isso não é fácil...
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