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quarta-feira, 13 de maio de 2026
#Interlúdio: O romantismo político
#Interlúdio: O romantismo políticoOs sentimentos tornaram-se fundamentos para os juízos morais e, portanto, a vontade subjetiva passou a requerer status de direito
A França do século XVIII viu florescer a chamada sensiblerie: uma sensibilidade filosófica que as pessoas ociosas adotavam como estilo de vida. Tinham desprezo pela vida comum e exaltavam o homem qualificado e com a sensibilidade aflorada que, dizia Bertrand Russell, na sua História da Filosofia Ocidental, “seria levado às lágrimas pela visão de uma família de camponeses necessitados, ao mesmo tempo que seria frio diante de projetos premeditados para a melhoria da vida da classe camponesa”. Os poetas da época cantavam versos sobre a vida simples no campo, sem muitos prazeres nem muitas ambições, enquanto Voltaire fazia piada desse excêntrico estilo de vida, como na sua famosa carta a Rousseau, em que comenta o célebre Discurso sobre a desigualdade, de 1754:
Mas Rousseau tentava ver o mundo a partir de uma perspectiva estóica. Dizia que o progresso da civilização alienava o homem da sua dignidade de “bom selvagem”. Para se livrar dos vícios e buscar as virtudes seria preciso um retorno ao homem primordial e, assim, a humanidade poderia ouvir a voz da natureza que ecoa dentro de cada um de nós. “Tudo está bem quando sai das mãos do Autor das coisas; tudo degenera nas mãos do homem”, ele afirma logo no primeiro parágrafo de Emílio ou da educação. Rousseau “converteu-se a si mesmo em defensor da virtude ascética”, dizia Russell, e via o homem aprisionado num complexo de tendências naturais reprimidas socialmente, por isso uma purificação dos costumes seria necessária para se libertar da alienação... Assine Não É Imprensa para desbloquear o restante.Torne-se um assinante pagante de Não É Imprensa para ter acesso a esta publicação e outros conteúdos exclusivos para assinantes. Uma assinatura oferece a você:
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#Cultura: Da arte como travessia dos afetos
#Cultura: Da arte como travessia dos afetosA arte não atua por uma aproximação apenas racional, mas muito mais pelo encontro com a intensidade da sensação que, ao ser elaborada artisticamente, ganha espessura e direção para atingir o público
Nada me aproximou mais de Deus do que Bach, o Grande Sertão: Veredas e a consciência dos meus pecados. Com certeza, a última não interessa a ninguém senão a mim mesma. Mas é possível que, pelos dois primeiros, ainda haja algum interesse. Embora nada se compare à própria fruição das coisas, o escritor tem essa estranha mania de querer escrever sobre as coisas para as quais não existem palavras. Esse primeiro parágrafo já induziu ao erro. É tempo de o corrigir. Não falarei, realmente, nem de Deus, nem de Bach, nem do Grande Sertão – temas para os quais, sem dúvida, não há tradução sem injustiça. Falarei apenas sobre o motivo pelo qual a arte consegue me aproximar de Deus ou do que quer que seja. A arte já foi imitação, catarse, mentira, prazer e inutilidade. Para o artista, ela é, principalmente, trabalho — um trabalho inspirado pelas musas, filhas da memória. De qualquer modo, independente de todas essas concepções, ela sempre vai expressar e despertar afetos. A arte é a forma que a técnica dá à experiência, suspendendo o trivial e abrindo o curso do sentir – fazendo pensar, certamente, mas apenas porque antes se sentiu. Afetos são tudo aquilo que nos atinge, que nos atravessa para bem ou para mal, que mexe com a nossa disposição frente a nós mesmos e às coisas. Por ser a formalização estética de uma percepção, a fim de promover uma outra, a arte não só pode partir de um afeto, como busca por ele, fala por meio dele e para ele se dirige. Afetos são paixões, são experiências. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. O fato de a arte possuir um fim em si mesma não impede que ela incida sobre quem a encontra. A arte, por sua própria natureza, produz variações no sentir, fazendo de suas formas não apenas organizações técnicas, mas também o veículo de uma vivência capaz de deslocar nossa disposição. Não se trata, primordialmente, de uma transformação orientada para a ação, mas de algo que se realiza no próprio encontro estético. Essa capacidade ou poder de nos tocar é tal que a arte pode, ao provocar sensações extraordinárias, representar o desconhecido. Ela é capaz de tornar visível o abstrato e o etéreo, e falar não somente da parte tangível da vida, mas também da parte que está em segredo, que não sabemos como dizer. Mesmo que Deus não exista, ela consegue nos aproximar Dele. Nada em arte permanece alienígena. De um lado, o artista intelectualiza – no vocabulário pessoano – a sensação. De outro, o público a apreende por senti-la. De um lado, o artista, como um alquimista, transmuta a solidez e a beleza da realidade numa matéria mais fina que o ar e, por outro, o público percebe, a partir das sutilezas, uma presença oculta que, apesar da cerimônia, é tão irrefreável quanto as adagas ou o fogo. A arte não atua por uma aproximação apenas racional, mas muito mais pelo encontro com a intensidade da sensação que, ao ser elaborada artisticamente, ganha espessura e direção para atingir o público. Se ela é essa formalização capaz de produzir estados de alma, a música é, tanto quanto a pintura, um dos modos mais imediatos de sua realização. E é nessa experiência, a um só tempo breve e perene, que se dá algo a que só podemos chamar prazer. A Toccata e Fuga em Ré Menor é uma espécie de laboratório barroco de provocações. Com a sua liberdade, suas variações de caráter e registro, seus contrastes, repousos e pausas eloquentes, bem como com a sua organização, ela é um bom exemplo, além de um caso particular de conversão, dessa dinâmica dos afetos. O tom menor, as passagens rápidas, os acordes densos, a polifonia e o virtuosismo instauram uma intensidade dramática que abarca uma gama de comoções, às vezes conflitantes, que passam pelo assombro, pela grandeza, pelo alívio e pela ordem. Desde a abertura, já carregada de tensão, a música sugere uma espécie de abismo no qual se vai depositando energia para, às vezes, recorrer a silêncios não menos expressivos que o próprio som. Através de sua dramaticidade e de sua claridade sombria, ela parece conter o mistério grandioso do todo, que vai se descortinando até a coda, quando toda a confusão da Queda parece voltar à ordem e à Luz. Esse passeio, algo gótico, pelas disposições de ânimo resulta numa alegria, num prazer, porque transfigurando a vida, a arte encontra-a não jogada no tempo, mas inscrita em nós e no eterno. Nem mesmo a audição, repetida milhares de vezes, pode mudar o impacto das provocações contidas na obra do jovem discípulo de Buxtehude. Grande Sertão: Veredas também se impõe como uma travessia pelas paixões e pelo entendimento. Nele, a linguagem retorcida acaba desvelando afetos extremos como o medo, a dúvida, o amor, a violência e a fé. Ao acompanhar Riobaldo, somos atingidos por sua incerteza radical, por sua oscilação constante entre o bem e o mal, entre Deus e o diabo, a crença e a dúvida. E é justamente pela elaboração expressiva da linguagem que o autor nos arrasta para essa instabilidade do sentir que acaba por nos transformar. Na famosa passagem que diz que a vida quer da gente coragem, por exemplo, somos afetados como se, de fato, estivéssemos diante do desejo de Deus. Guimarães Rosa começa dizendo o que é a vida para nos mostrar que sabe do que está falando, que sabe como nos sentimos. Ele diz que “a vida é assim: esquenta esfria, aperta e daí afrouxa e desafrouxa, sossega e depois desinquieta” para, por fim, decretar o remédio — o remédio é a coragem. Parte do que nos é familiar para alcançar o que nos escapa. Ao reconhecer nossas próprias impressões, aderimos ao que diz e deixamo-nos conduzir até uma afirmação que, embora trate do imaterial, consegue nosso passo de fé. Primeiro, captura nossa confiança; ele nos faz rememorar a vida para aceitarmos sua solução que, parece-nos, de tão apaziguadora, ser a verdadeira. Para Fernando Pessoa, a literatura reúne, como nenhuma outra, o pensamento, a emoção e a estrutura. Por conseguir afetar tanto a razão quanto a sensibilidade, ela se torna a arte mais suprema entre as artes supremas. Isso pode não ser verdade, mas é certo que a fruição do leitor depende de suas capacidades e seu repertório mais do que um quadro ou uma música. Nem assim, precisando de um público mais ativo e mais preparado, ela deixa de se fundar em afetos, sem os quais não deixaria sua marca indelével, e se reduziria à mera intelecção. Da imitação tida como maléfica à inutilidade, os afetos sempre foram o núcleo da experiência estética. Não importa absolutamente que a finalidade do artista seja cultuar os deuses, fazer um vaso ou mesmo a gratuidade. Afetar, causar sensações ou reelaborar pensamentos sempre foi, e sempre será, a maior consequência da manifestação artística. Seguindo essa linha, Pessoa, tão tradicional quanto inovador, dirá que a arte suprema reside na harmonia entre a particularidade da emoção e do entendimento; “que a arte é a intelectualização da sensação através da expressão. A intelectualização é dada na, pela e mediante a própria expressão.” Quanto mais intensamente essa expressão nos alcança, mais ela nos reorganiza, aproximando e afastando as coisas, tensionando o real e reconfigurando a experiência. Sorvemos arte para sentirmos, para conhecermos um pouco mais da vida e das formas. Por essa capacidade incomum da arte de atravessar a condição humana, a ponto de fazer a mentira revelar a verdade, é que ela não pode ser aviltada, substituída ou esquecida como tem sido. É preciso que ela volte a nos atingir a ponto de despertar em nós algo mais que a besta e mais que o homem. A arte é um campo de forças que se resolve no sentir; um jogo de prazer a prazer; é, enfim, uma boa conversa ao pé do ouvido que traz uma alegria ainda maior que a do vinho, do amor ou da amizade. _____________________ https://mariellaaugusta.substack.com
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