#OMalandroEOPuritanoComo um lance de futebol se tornou um pretexto para um jornalista lacrar sinalizando virtudesO jornalista Julio Gomes decidiu ensinar educação moral e cívica ao Brasil por causa de um pênalti perdido por Memphis Depay. A proposta: suspender Andreas Pereira do Campeonato Paulista para que o futebol e toda sociedade aprendam uma lição definitiva. Inflar a infração até que ela exorbite em carga simbólica capaz de sustentar uma cruzada civilizatória. Gomes é um mero sinalizador de virtudes. E isso eu posso demonstrar. Num dérbi, cada detalhe pesa no imaginário coletivo. Andreas Pereira foi pego raspando a grama da marca do pênalti para deslocar um centímetro de equilíbrio do jogador adversário. Ele assumiu o risco de punição. Conhecia o risco. No futebol, risco e cálculo respiram o mesmo ar. Memphis errou a cobrança. O fiel torcedor corintiano, conhecido por ser malandrão, caiu em silêncio. A vida não encontrou seu desfecho ali. O jogo continuou. A vida continuou. Convém lembrar de um detalhe besta: Andreas Pereira e Memphis Depay cresceram juntos. São amigos de infância. O duelo entre os dois cabia dentro de campo. Fora dele, amizade. A catimba pertence ao jogo; a relação pertence à vida. Confundir os dois registros já é delírio de moralistas. Para o puritano Julio Gomes, nada disso importa. Aquilo foi um “tapa na cara da sociedade”. Palavras solenes demais para um raspão de chuteira na grama, ainda que o objetivo fosse a trapaça. A expressão de Julio Gomes pertence ao vocabulário da dignidade civil, da violação de direitos, da ofensa que fere a convivência pública. A hipérbole aqui é o método de indignação desproporcional seletiva. Vamos filosofar um pouco. Johan Huizinga chamou ao ambiente de jogo de círculo mágico. Um território de exceção onde a vida comum suspende seus pesos habituais. As quatro linhas desenham uma ordem autônoma. Dentro dela, a experiência humana ganha outra densidade — regras próprias, tensões próprias, consequências internas. Honra e astúcia dividem o mesmo território. A norma ali vigente disciplina a infração; ela a prevê esse tipo de coisa. Estamos falando de cera e catimba. Estamos falando da falta tática, essa invenção sofisticada que interrompe o contra-ataque para proteger o time. A própria regra reconhece a existência da infração estratégica e responde com cartão. O sistema admite o cálculo, da astúcia. Se preferir, a pequena trapaça. Ele o disciplina. Porém, querer exterminar a malandragem do campo equivale a destruir todo sentido do jogo. Maradona ofereceu ao mundo a “Mão de Deus”. O belo gesto dividiu consciências e entrou na mitologia do esporte. O árbitro não viu. O futebol continuou. A vida continuou. A mesma bobaginha se repete no lance de Andreas: Raphael Claus não percebeu o jogador macular a grama. O VAR não pôde intervir porque o lance, na hipótese mais grave, renderia só o cartão amarelo — fora da alçada de revisão por vídeo. Ora, se a história do futebol convive com Maradona numa final de Copa do Mundo sem ruir, tratar Andreas no Paulistão como caso de tribunal é perder o senso de proporção. Racismo é crime contra a pessoa. Raspar a marca do pênalti com intenção de desequilibrar o adversário é tensão contra a geometria do jogo. Confundir as duas categorias é diluir ambas. Ofende quem sofre racismo e ofende o futebol. A escala importa. O antropólogo Roberto DaMatta ensinou, para o bem ou para o mal, sobre o “jeitinho brasileiro”. O futebol absorveu essa gramática e a transformou em forma estética. Ginga, brecha, improviso sob pressão. Malandragem. A astúcia funciona ali como instrumento de competição, dentro de um sistema que a reconhece e a sanciona. Ora, o drible também nasce dessa lógica. Todo drible carrega um componente de engano — o corpo promete uma direção e entrega outra. A malandragem de Andreas é uma infração tática com risco calculado. Não, ninguém se tornará santo ou demônio por isso. Julio Gomes pede punição “pedagógica”. A pedagogia que ele propõe desenha um mundo asséptico. O jogo de futebol é parêntese da rotina da vida. Se Claus tivesse visto o lance, teria aplicado o cartão amarelo. O tribunal corrige excessos quando necessário. A previsibilidade mantém a confiança no sistema. Substituir essa engrenagem pela indignação midiática é corroer a própria estrutura que se pretende defender. Andreas deu uma entrevista explicando o caso. Disse que estava “limpando a chuteira”. A fala integra o teatro. Jogadores performam diante do microfone. A declaração prolonga o duelo simbólico de um dérbi. A cultura midiática contemporânea exige algo diverso: a confissão. O arrependimento público, a autoincriminação lacrimosa que funciona como moeda de redenção no tribunal das redes sociais. Andreas recusou o ritual. O futebol brasileiro carrega tradição de malícia que atravessa dribles de corpo, olhares que enganam, catimba. Essa dimensão convive com o fair play sob tensão constante. A tensão é constitutiva. Uma concepção de pureza absoluta produziria esporte de planilha, previsível e morno. A linha entre esperteza e infração permanece móvel, vigiada pelo árbitro com cartões e apito. Essa linha existe para ser testada. O pênalti perdido de Memphis depois de um escorregão não ameaça a civilização. Ele apenas nos lembra que o jogo permanece humano. Quem pede um futebol higienizado — sem malícia, sem risco, sem astúcia — no fundo, odeia o futebol. E ousaria dizer que odeia o próprio país. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
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#VaiSobrarParaAImprensaSTF vai abrir inquérito para investigar quem gravou e divulgou a reunião secreta
O mundo inteiro sabe quem arapongou a reunião secreta dos Supremes, para passar um pano para as confusões de Toffoli no caso do Banco Master. Mas Fachin pretende abrir um inquérito para fingir que quer saber o que todo mundo já sabe. Mais um inquérito perpétuo que usa e abusa, em vão, do artigo 43 do regimento interno da Suprema Corte. Como eles não vão indiciar um membro da própria corte, essa história é bem capaz de sobrar para imprensa que divulgou e repercutiu a transcrição dos diálogos. O NEIM precisa da sua assinatura para continuar revelando o que as notícias escondem. ASSINE AGORA!
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