Natália Beauty, colunista da Folha, chocou a burguesia ao confessar que usa a IA para escrever “seus pensamentos”. O texto encomendado por ela ao ChatGPT tenta se apresentar como uma defesa madura do uso de inteligência artificial, mas tropeça justamente na comparação que escolhe para se justificar. Ao igualar a escrita a uma linha de montagem industrial — “ninguém questiona um carro porque foi produzido com robôs” — ele revela uma confusão conceitual básica: um automóvel é um objeto funcional, mensurável por eficiência, desempenho e padronização; um texto literário ou jornalístico bem escrito é um gesto de forma, estilo e precisão estética. A lógica industrial serve para fabricar carros, não para fabricar linguagem. Quando alguém compara a escrita à solda automatizada de uma montadora, já está confessando que enxerga o texto como produto, e não como uma forma de expressão. A autora insiste que “o ponto central não é a ferramenta, é o tempo”. Mas esse argumento só se sustenta se escrever for um mero desperdício burocrático, uma etapa técnica a ser eliminada. E aí está o problema: para um escritor de verdade, escrever não é o meio para publicar uma opinião, mas o próprio pensamento em estado final. É o instante em que a ideia encontra sua forma justa. A defesa do “ganhar tempo” é coerente para planilhas, logística e exames laboratoriais — mas torna-se frágil quando aplicada ao texto, porque o texto não é um relatório, é uma construção de sensibilidade estética. Há uma diferença radical entre uma ferramenta para acelerar um processo mecânico e a terceirização da escolha das palavras que dão vida ao pensamento. Ezra Pound tinha uma frase brutal para esse tipo de discurso tecnocrático: “um povo que cresce habituado a má literatura é um povo que está em vias de se perder.” E é exatamente esse risco que o texto ignora. O problema não está em usar ferramentas — ninguém defende voltarmos a Era da Pedra Lascada —, mas em tratar a escrita como se fosse um “fluxo” a ser “otimizado”. A decadência não começa quando se usa IA, mas quando se perde o senso de exigência estética, quando se aceita o genérico, o previsível, o texto ready-made, com cheiro de coisa pronta, como se estilo fosse apenas um detalhe decorativo. A autora afirma que a IA “apenas coloca ordem no que já existe”. É verdade em certo aspecto, afinal, a IA não cria nada novo, apenas plagia as ideias que alguém publicou na internet. Mas, ao mesmo tempo, literariamente é uma ideia enganosa porque ordem é forma, e forma é parte do conteúdo. Uma opinião mal escrita não é a mesma opinião: ela muda de densidade, muda de ritmo, muda de impacto. A escolha de um verbo em vez de outro, a construção de uma frase, a pausa entre duas ideias, tudo isso é pensamento encarnado em linguagem. O texto encomendado à IA pela dona da coluna na Folha, tenta soar pragmático e moderno, mas termina justificando uma espécie de terceirização do ofício. O problema é que um artista que não pratica sua arte é como um cantor que trapaceia no palco usando playback porque não está seguro o bastante para atingir as notas com o próprio canto. Pode até ser “eficiente”, pode até “entregar o resultado”, mas nada ali é real. A voz está lá, mas não está viva. A técnica está lá, mas não foi conquistada. E o público tolera porque para ele nem faz diferença. No fim, o texto não é uma defesa do uso inteligência artificial, mas uma exposição caótica de uma visão empobrecida da escrita. Escrever não é apenas organizar pensamentos, mas também descobrir pensamentos, testar limites de linguagem, encontrar o tom exato, errar e refazer até que a frase ela passe a ideia exata do que se pretende comunicar ao leitor. O problema, enfim, não é usar IA. O problema é quando o escritor já não consegue — ou nem quer — escolher palavras que se ajustem não apenas ao raciocínio, mas à sensibilidade estética. Isso não é modernidade, estratégia e muito menos maturidade. É apenas uma forma de expressar a incapacidade disfarçada de produtividade. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
#TerceirizaçãoLiterária
#ALiçãoDePortugal
#ALiçãoDePortugalSó o tédio nos salvará. O que venceu em Portugal foi a prudência contra o salvacionismo de sarjeta
A imprensa brasileira só faltou estourar uma champanhe para comemorar a vitória do Partido Socialista (PS) em Portugal. As manchetes, preguiçosas, repetem os mantras de sempre: O partido socialista que venceu o ultradireitista; Socialistas vencem extrema-direita; Esquerda vence de lavada. No entanto, o que venceu mesmo em Portugal foi o conservadorismo contra a aventura. Foi a institucionalidade contra o antissistema populista. Os ritos e a lei contra os heróis que prometem salvar a pátria, a democracia ou a soberania. Venceu o político sério, previsível e entediante contra o “carismático”, excêntrico e barulhento. Como afirmou João Pereira Coutinho:... Assine Não É Imprensa para desbloquear o restante.Torne-se um assinante pagante de Não É Imprensa para ter acesso a esta publicação e outros conteúdos exclusivos para assinantes. Uma assinatura oferece a você:
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#BolsonaroAmaMichelle
Sentiu o gelo daí? Talvez tenha passado batido pra você, mas a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou uma carta escrita por Jair Bolsonaro poucos dias depois de ele ter a prisão decretada pelo STF. O bilhete comemora os 18 anos de casamento e traz declarações de carinho. Se você ainda não viu, é isso aqui:
Quando li isso, imediatamente lembrei de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa que escreveu o poema “Todas as cartas de amor são ridículas”. Obviamente, Fernando Pessoa escreveu isso no melhor dos sentidos. Para ele, “cartas de amor, se há amor, são ridículas”, justamente pela fragilidade do autor. Quem escreve se expõe, se fragiliza, perde o controle, fala demais, passa vergonha. O ridículo, ali, é justamente a prova de que existe amor. A carta de Bolsonaro é ridícula por outro motivo. Ela não se entrega. Ele organiza numa lista como quem escreve um lembrete colado na geladeira.
Seis dias preso e a carta tem mais cara de ata de reunião do que de desespero amoroso. Belíssimo inventário de sentimentos numerados, organizados e prontos para conferência. Talvez o amor em forma de bullet point é uma tendência e eu não tô sabendo. Eu acho que ele só não enviou isso num PowerPoint porque ele não tem computador na cela. Juro que imaginei um ator mirim interpretando Romeu numa peça de escola, tentando parecer profundo enquanto recita frases que ele decorou cinco minutos antes de entrar no palco. “Obrigado por você existir”, “100% fiel”, “dias difíceis, mas com esperança”. Dá pra confundir com um relatório sentimental para fins de arquivamento e futura averbação em cartório. O auge do lirismo burocrático vem no final, quando ele, além de assinar como se assinasse um inventário, escreve nome e sobrenome, atestando que foi ele mesmo o autor. Uma carta tosca de um homem tosco. Nem precisava assinar. A gente saberia que era dele. Jura mesmo que não cabia um “do seu eterno imbrochável”. Um “do seu Johnnyzinho Bravo”? Faltou carinho de verdade aí, hein? É talvez a primeira carta de amor da história que termina com cara de ofício. Não sei o que é pior: escrever uma carta dessa ou divulgar! A Michele leu isso e pensou. “Lindo, vou postar!”. Ou ela nunca recebeu uma carta de amor ou ela não quis mostrar o amor de Bolsonaro, mas a humanidade dele. Que estratégica ela, hein? Fernando Pessoa dizia que só quem nunca amou é que nunca escreveu cartas ridículas. Bolsonaro escreve uma carta que tenta não parecer ridícula e é justamente aí que ela fracassa como carta de amor. Porque amar, no fundo, exige isso: abrir mão do controle. E ali, o afeto veio em forma de carimbo. Ou falta amar mais, ou escrever melhor. E pra escrever melhor, precisa ler. Portanto leia, Bolsonaro. Não sei se ajuda no amor, mas pelo menos melhora o texto. Além de reduzir a pena. Todas as cartas de amor são ridículas Álvaro de Campos Todas as cartas de amor são Também escrevi em meu tempo cartas de amor, As cartas de amor, se há amor, Mas, afinal, Quem me dera no tempo em que escrevia A verdade é que hoje (Todas as palavras esdrúxulas, Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. © 2026 Não é Imprensa |


