Sentiu o gelo daí? Talvez tenha passado batido pra você, mas a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou uma carta escrita por Jair Bolsonaro poucos dias depois de ele ter a prisão decretada pelo STF. O bilhete comemora os 18 anos de casamento e traz declarações de carinho. Se você ainda não viu, é isso aqui:
Quando li isso, imediatamente lembrei de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa que escreveu o poema “Todas as cartas de amor são ridículas”. Obviamente, Fernando Pessoa escreveu isso no melhor dos sentidos. Para ele, “cartas de amor, se há amor, são ridículas”, justamente pela fragilidade do autor. Quem escreve se expõe, se fragiliza, perde o controle, fala demais, passa vergonha. O ridículo, ali, é justamente a prova de que existe amor. A carta de Bolsonaro é ridícula por outro motivo. Ela não se entrega. Ele organiza numa lista como quem escreve um lembrete colado na geladeira.
Seis dias preso e a carta tem mais cara de ata de reunião do que de desespero amoroso. Belíssimo inventário de sentimentos numerados, organizados e prontos para conferência. Talvez o amor em forma de bullet point é uma tendência e eu não tô sabendo. Eu acho que ele só não enviou isso num PowerPoint porque ele não tem computador na cela. Juro que imaginei um ator mirim interpretando Romeu numa peça de escola, tentando parecer profundo enquanto recita frases que ele decorou cinco minutos antes de entrar no palco. “Obrigado por você existir”, “100% fiel”, “dias difíceis, mas com esperança”. Dá pra confundir com um relatório sentimental para fins de arquivamento e futura averbação em cartório. O auge do lirismo burocrático vem no final, quando ele, além de assinar como se assinasse um inventário, escreve nome e sobrenome, atestando que foi ele mesmo o autor. Uma carta tosca de um homem tosco. Nem precisava assinar. A gente saberia que era dele. Jura mesmo que não cabia um “do seu eterno imbrochável”. Um “do seu Johnnyzinho Bravo”? Faltou carinho de verdade aí, hein? É talvez a primeira carta de amor da história que termina com cara de ofício. Não sei o que é pior: escrever uma carta dessa ou divulgar! A Michele leu isso e pensou. “Lindo, vou postar!”. Ou ela nunca recebeu uma carta de amor ou ela não quis mostrar o amor de Bolsonaro, mas a humanidade dele. Que estratégica ela, hein? Fernando Pessoa dizia que só quem nunca amou é que nunca escreveu cartas ridículas. Bolsonaro escreve uma carta que tenta não parecer ridícula e é justamente aí que ela fracassa como carta de amor. Porque amar, no fundo, exige isso: abrir mão do controle. E ali, o afeto veio em forma de carimbo. Ou falta amar mais, ou escrever melhor. E pra escrever melhor, precisa ler. Portanto leia, Bolsonaro. Não sei se ajuda no amor, mas pelo menos melhora o texto. Além de reduzir a pena. Todas as cartas de amor são ridículas Álvaro de Campos Todas as cartas de amor são Também escrevi em meu tempo cartas de amor, As cartas de amor, se há amor, Mas, afinal, Quem me dera no tempo em que escrevia A verdade é que hoje (Todas as palavras esdrúxulas, Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
#BolsonaroAmaMichelle
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