Em Ilusões Perdidas, Balzac narra a história de Lucien de Rubempré, um jovem poeta provinciano que vai a Paris em busca do sonho da glória literária. Ele acreditava que o talento e a inteligência seriam suficientes para conquistar um lugar ao sol. Mas logo descobriu que a imprensa tem suas regras ocultas. Étienne Lousteau, um velho e descolado jornalista lhe ensina que a crítica literária deve ser favorável ou desfavorável dependendo das circunstâncias e, principalmente, dos interesses envolvidos. Paris, na época de Balzac, tratava a verdade como apenas uma das possibilidades a se explorar. E não necessariamente a mais rentável. Os jornais podiam criar reputações, promover escritores medíocres, destruir os concorrentes e chantagiar empresários. Uma matéria desfavorável seria capaz de arruinar um negócio. Já uma favorável poderia ser capaz de transformar um ilustre desconhecido numa celebridade. Havia também o “comércio do silêncio”. Era possível não vazar informações comprometedoras em trocas de favores, privilégios e algum agrado financeiro. Rubempré, cheio de ilusões, vai descobrindo aos poucos que a imprensa era uma inacreditável oportunidade comercial. Podia-se vender a publicação de uma notícia e, quando oportuno, cobrar ainda mais para não publicá-la. Qualquer semelhança com a imprensa atual não é mera coincidência. Nós aqui do NEIM, cheios de ilusões, ainda acreditamos na independência. Ainda acreditamos que é possível respeitar o leitor, mesmo discordando dele. Mas a maior parte do público prefere dar audiência — e até fazer pix — para algum jornalista picareta que troca a dignidade por meia dúzia de aplicações de botox. O NEIM precisa do seu apoio para continuar Muita gente ficou escandalizada com os jornalistas pendurados no WhatsApp do Vorcaro. “Não esqueça de mim”, dizia o executivo da Globo, que vendia notícia e, quando oportuno, cobrava ainda caro mais para não publicá-la. “Deixa comigo!”; “Vou alterar”; “Vamos suprimir esta frase”, dizia a CEO do Metrópoles, ensinando que o jornalismo deve ser favorável ou desfavorável dependendo das circunstâncias e, principalmente, dos interesses envolvidos. Mas não é apenas a imprensa tradicional que está cheia de oportunidades para quem está do lado certo dos interesses políticos. Jornalistas, blogueiros, influencers e sites desavergonhadamente a favor de corruptos também promovem suas feiras-livres de opiniões. Na imprensa na época de Balzac, podia-se comprar a glória, vender as convicções e negociar a reputação alheia. Nada parece ter mudado. Porque nesse mercado de palavras, até a honestidade pode se tornar um ativo comercial. E, se pagar bem, o jornalista pode até dizer alguma verdade. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
|
Total de visualizações de página
sexta-feira, 16 de outubro de 2026
#OPreçoDoJornalismo
Assinar:
Postar comentários (Atom)


Nenhum comentário:
Postar um comentário