#Cinema: o filme mais hipnótico de todos os temposCoração de Cristal (1976), de Werner Herzog, foi realizado com todos os atores hipnotizados.
O diretor Werner Herzog costumava, nos anos 70, realizar filmes extremos e com um conteúdo não convencional, a exemplo de Até os Anões Começaram Pequenos (1970), Fata Morgana (1971) e Stroszek (1977). Em Coração de Cristal a abordagem é ainda mais experimental, por conter um pressuposto doentio: Herzog vai além do limite do aceitável na cinematografia coetânea da década de 1970, simplesmente porque contratou um especialista em sugestão para hipnotizar quase todos os seus atores e a si próprio, o que poderia ter ocasionado num escândalo se fosse realizado hodiernamente, especialmente se levarmos em consideração todos os meandros jurídicos para a proteção da integridade do trabalhador, sem contar no julgamento público que o alemão sofreria a respeito de supostos crimes contra a pessoa humana, a exemplo do que, anos depois, teve de responder pelas infrações ambientais com a realização de Fitzcarraldo (1982). Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. E a abordagem que foge à diletante estética do cinema hollywoodiano do diretor alemão resulta numa obra de vanguarda muito além do inovador para os padrões da época de filmagem, principalmente por conter uma fotografia lindíssima e panorâmica e também por carregar um forte teor valorativo, a ponto de poder ser confundido com um filme realizado em 2026. Mesmo tendo um enredo visto como inteligível e simples, a película carrega um quê de dramático, quase teatral, filmada e encenada aos moldes da famosa peça Marat/Sade, do dramaturgo Peter Weiss, que se tornou famosa na versão de 1967, do cineasta Peter Brook. O fio narrativo é baseado, livremente, em fábulas absurdas de Esopo e do Barão de Munchausen e também nas parábolas bíblicas, que podem ser constatadas sobretudo na cena de abertura de teor profético: um homem, no século XVIII, quer descobrir o segredo da produção de peças de cristais numa localidade da Baviera. Nisso, o forasteiro tenta inquirir todos os moradores da região a respeito da fábrica. O clima sombrio e macabro torna-se a tônica da cinematografia de Herzog, que tenta, a todo custo transparecer, por meio de planos-sequência irregulares, construção lenta do enredo e diálogo monossilábico dos autores, a aura de mistério pela qual irá perscrutar a complexidade das atividades cerebrais por meio de sugestão. Nisso, descobrimos, quadro a quadro, o porquê de a cidade estar completamente hipnotizada, a não ser o dono da fábrica (que morre) e alguns dos seus funcionários, que apresentam um comportamento bastante agressivo: as peças de cristal de tom rubi funcionam como uma espécie do retrato feito para Dorian Gray, ou seja, causam ganância para os portadores e os destinatários e dor, trauma coletivo e hipnose para aqueles que não contemplados pela suposta “beleza” do objeto. A narrativa avança e, cada vez mais, sabemos das intrigas da cidade da Baviera por meio do forasteiro, de nome Hias, que exsurge na trama como uma espécie de profeta Isaias, cuja voz torna-se ouvida ao prenunciar a desgraça da cidade. Ele, que se torna a referência dos habitantes hipnotizados, vai, pouco a pouco, arrebatando e despertando as pessoas sob o efeito da maldição do rubi, inclusive com a participação do próprio diretor em uma das cenas. Dessa forma, o espectador descobre todas as conspirações que permeiam a localidade por meio da ganância dos empregados e pessoas próximas do dono da fábrica em tentar reproduzir a fórmula do artefato por meio de um concurso destinado aos hipnotizados. Enquanto que a manipulação torna-se cada vez a tônica dos nobres e dos aristocratas da cidade, o público em geral, sabendo do que se passa, cada vez mais mostra-se reticente com o desenrolar de eventos, o que pode, por fim, nos levar a dois caminhos diferentes de interpretação: uma crítica social com base nos pressupostos marxistas de conflito de classes entre exploradores e oprimidos ou uma crítica cinematográfica aos padrões estéticos do cinema convencional que não vai além do que os artistas podem oferecer. O filme encontra-se disponível no YouTube: 1976 - Heart Of Glass Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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domingo, 13 de setembro de 2026
#Cinema: o filme mais hipnótico de todos os tempos
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