#Cinema: o filme mais conspiratório de todos os temposPi (1998), de Darren Aronofsky, é uma epopeia moderna sobre a busca do irracional
Os leitores já ouviram falar do magnífico número pi e das suas aplicabilidades matemáticas, visto que podem ser consideradas “a linguagem da ciência”, conforme a narração inicial. A jornada para a curiosa descoberta também da existência dessa expressão é um dos capítulos mais intrigantes da história da humanidade e faz com que Max Cohen, o enxaquecoso e também genial matemático de origem judaica, tente descobrir a todo o custo o número final da razão irracional. Nessa busca apoplética pelo algarismo derradeiro da fração 22/7, que está inserido no conjunto dos números reais, Cohen tranca-se num quarto e busca encontrar padrões em observações e no empirismo científico não tradicional para encontrar o que pode ser o último da expressão. Observa o comportamento das formigas, tenta programar por meios de softwares avançados, visualiza a movimentação das pessoas e dos trens e, claro, procura aconselhar-se com Sol Robeson, um matemático decadente e visto como um dos seus mentores. Tudo isso refletido pela irreverente fotografia em preto e branco e intimista que o torna como um filme típico de final do milênio, pelo qual pode ser enquadrado no movimento estético-literário denominado New Sincerity, cujas principais obras mais significativas são o filme Matrix (1999) e o romance Infinite Jest (1996) Numa progressão em que o espectador acompanha a enxaqueca fustigante de Cohen, que raspa a cabeça para se sentir aliviado depois de toda a pressão emocional e física que sofre, notamos que a câmera, que pode parecer hipnótica num primeiro momento, acompanha as dores e as frustrações do protagonista, tendo por característica principal um plano-sequência de uma obra ousada e inovadora para os padrões da época, em que os picos de tensão ocorrem no famoso ângulo holandês (com a câmera atravessada) e com qualidade de found footage, o que pode transparecer uma ideia de que o filme é um documentário. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Por meio desse código fílmico, Aronofsky, conhecido pelo seu humor peculiar, que pode ser interpretado como conteúdo puramente de humor ácido, tal qual o outro proeminente diretor Harmony Korine, adere às teorias de conspiração sobre a comunidade judaica, numa espécie de autocomiseração digna de grotesco, quando, no seu roteiro, inclui alguns membros das sinagogas de Nova Iorque na trama, que explicam para o matemático sobre o número derradeiro da razão 22/7, cujo teor remonta às escrituras sagradas da Torah e da Kaballah. Nessa autoindulgência vista como tacanha, de muito mau gosto e talvez até mesmo como agressiva por parte do espectador, o diretor de origem judaica rompe um estigma a respeito da sua comunidade de origem: o judeu visto como mesquinho, genial e participante de todas as atividades vistas como manipuladoras (tal qual as exéquias fraudulentas dos Protocolos dos Sábios de Sião), pode sofrer de cefaleia terrível, estar abandonado pela família, ser visto como alguém que necessita de apoio devido a um estresse pós-traumático ou até mesmo como um ser invisível perante aos olhos das pessoas ou somente notado por uma pessoa. Contudo, o que o grande matemático nova iorquino não sabe é que as suas buscas estão sendo também monitoradas por um bando de operadores do mercado de ações, de quem tenta buscar cautela e não cooperação, o que causa uma perseguição incessante ao protagonista cada vez refém de uma situação que foge do controle. Por fim, Max Cohen vê-se envolvido numa espiral de conspirações e não sabe o que fazer. Entretanto, o que se torna latente é o preconceito clássico contra a comunidade ashkenazi, que é vista como uma das mais poderosas, ricas e até mesmo mais geniais do mundo, cai por terra numa obra cinematográfica em que a busca apoteótica do irracional faz-se refletir numa obra absurda e de péssimo gosto para alguns, porém, humana e com uma mensagem forte sobre preconceito e ciência, duas faces de uma mesma moeda do sentimento tipicamente de final de milênio. O filme encontra-se disponível no YouTube: Pi (Legendado) Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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domingo, 20 de setembro de 2026
#Cinema: o filme mais conspiratório de todos os tempos
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