A morte de Virgílio e a distopia romana de Hermann BrochA liberdade dos homens não é completamente anulável e pode ser acomodada no soturno, na ignorância, na mesquinharia e no sofrimento ou na morte.
A morte de Virgílio e a distopia romana de Hermann Broch Por Marcelo Jungle A Morte de Virgílio, do austríaco Hermann Broch, vem garantindo presença em diversas listas de grandes romances do século XX. Contudo, não é difícil encontrar quem aponte as dificuldades de sua leitura e tradução, reservando-lhe espaço na estante ao lado de Ulisses ou de Finnegans Wake, de James Joyce, como ícone da insubordinação à linearidade do romance. Mas Hermann Broch recebe de braços abertos e desprovido de sentimentos hostis até mesmo o leitor acidental, proporcionando a leitura aleatória em qualquer página. Não é tarefa fácil, evidentemente, e envolve vários desprendimentos de quem desembarca neste porto, mas os resultados valem a pena, pois a prosa sinfônico-poética e o lirismo infinito de Broch irá capturar o incauto num raro mar de beleza e artifícios literários levados ao extremo. Não é preciso compreender tudo para gostar do livro. Essa não-compreensão, arrisco afirmar, é mesmo um objetivo do autor, conforme se verá adiante. Mas não por simples capricho ou divertimento. Se há uma coisa que não existe em Hermann Broch é desconsideração para com o leitor. O enredo se passa no nascimento do Império Romano e retrata as últimas horas do poeta Públio Virgílio Maro (70 a. C. - 19 a. C.), autor da Eneida, o grande poema épico latino, que celebra a fundação de Roma através da saga do herói troiano Eneias. No ponto de partida do romance, o poeta Virgílio, muito enfermo, chega junto com a armada imperial ao porto de Brindisi, na Apúlia, sudeste da Itália. Eles vêm da Grécia, onde Virgílio pretendia coletar mais dados para concluir a Eneida, na qual trabalhava há dez anos. Foi convencido por Augusto, entretanto, a seguir com ele de volta à península itálica, para os festejos do aniversário do Imperador. Junto vai o manuscrito, o qual desempenha um papel central na trama, pois, mesmo estando inacabado, tudo se desenrolará em torno dele e de seu destino, assim como da circunstância de que Virgílio pressentia a perda de seu poder sobre seu destino diante da morte que chegava. Após uma descrição carregada de beleza sobre a chegada ao porto de Brindisi, Virgílio será carregado em uma liteira em direção ao Palácio Imperial. No caminho, sofrerá insultos da população local, que o toma por algum nobre e, com grande desconforto, terá dificuldades de adentrar ao Palácio, mesmo sendo um convidado pessoal do Imperador. Vencidos esses apuros, o poeta se encantará com um jovem, Lysâneas, que o acompanhou nesse caminho do Porto ao Palácio e a quem acaba por acolher, autorizando que o acompanhe ao seu aposento. A figura desse jovem sofrerá várias metamorfoses ao longo da narrativa, e ficamos em dúvida sobre sua real existência, se seria uma fantasia do poeta ou se um mero espectro juvenil a perseguir seu caminho em direção à eternidade. Esse é um dos enigmas ambivalentes do livro. Broch parece querer a todo momento nos mostrar os dois lados de uma mesma moeda, mas propõe que olhemos para um terceiro lado, o qual só iremos perceber bem adiante. Esse é o lado não mostrado, que se supõe não existir e assim só pode ser imaginado, ou seja, o interior da moeda. E ele nos apresenta o caminho para isto. Mas é um caminho tortuoso, cheio de armadilhas e dificuldades e cujo itinerário poucos conseguem cumprir. Outros aparecerão com o intuito de demonstrar esta simultaneidade de existências, como, por exemplo, arte e ação, tempo e nada, sonho e vigília. Aliás, é na ideia de tempo que essa diretriz mais se cumpre, pois nos é mostrado que o sentimento do passado está por tudo e só se mostra dentro do presente. No meio disso, a simultaneidade (uma referência mencionada várias vezes, que pertence às intrincadas teorias filosóficas desenvolvidas por Broch em seus estudos filosóficos e que ele embute no livro de forma obscura e sem êxito em demonstrar seu significado) a ser apreendida e sentida é fundamental para a missão almejada para o poeta, pois a poesia que Virgílio idealiza deve se desenvolver nesta atmosfera de passado e presente, do não-tempo. Torna-se mais compreensível se substituirmos o vocábulo por sincronia ou sincronismos de coisas que aparentemente não podem coexistir. E nesse objetivo Broch pretende nos mostrar algo muito maior do que qualquer coisa já vista e sentida em termos literários: o absoluto, o tempo total, a polifonia de significados. Broch tenta alcançar o limite semântico da existência e nos leva a um novo estado dentro do outro, algo que a pura realidade jamais será capaz de fazer. Daí toda a riqueza dessa experiência literária que não apenas nos sensibiliza pela beleza e cativa pelo estrondo de talento, mas nos proporciona a oportunidade de experimentar uma pura condição filosófica. Por isso, Virgílio sentencia que a arte da Eneida é inútil, por sua mera obstinação pela estética e pela perfeição, ambas condenáveis, quando despidas de propósitos supramundanos. Afora isso, clara está sua missão de se prestar a outras finalidades bem menos elevadas, pois se sabe que ela se destina a dar uma origem divina a Roma. Virgílio não se perdoa por ter se prestado a esse papel e, comprovada a culpabilidade da obra, a pena a ser aplicada é a fogueira! Só o sacrifício poderá conferir alguma grandiosidade real ao poema! Mas esse julgador severo não está sozinho e terá que enfrentar forças que estão muito além das suas e que estão dispostas a afastar esse veredito. A partir dessa trama complexa, será demonstrado que não há liberdade do autor sobre a obra, antes mesmo de se tornar pública. Para os fins do romance, será ela propriedade coletiva, do Estado, a quem cabe conduzir os anseios e destinos coletivos. O uso oficial das palavras e da linguagem é o objeto particular deste estudo, seja pelo reconhecimento no romance de uma epistemologia toda original (reflexão a que Hermann Broch dedicou muitos de seus ensaios), seja na sua literatura, seja na ação, que ao fim se revela como o ato supremo da realidade, pois tal enfrentamento marcará os últimos anos do autor nos EUA, onde veio a morrer. A travessia do Atlântico de Broch e a do Adriático de Virgílio, portanto, traçam paralelo inevitável entre autor e obra, já que é conhecido o esforço de Broch para aniquilar seu lado criativo no exílio, já que não valorizava a ação meramente inserida na escrita. Apesar disso, a agonia do poeta não é só o obstáculo visível a levar o enredo simplório à frente. Ao fenecer lentamente nas suas últimas horas, ele nos descreve a que lugares se chega à porta da morte e quem ou o que podemos enfrentar ou encontrar nestes momentos. A agonia como personagem nos transporta à sobreposição de mundos reais ou fantasiados, que só a morte verdadeira poderá revelar. Assim, no cortejo final do poeta é descrito:
Ou seja, a “realidade da palavra nunca ouvida“, mas eternamente esquecida. Transparece aqui a impossibilidade de se fazer uma arte completa, realmente demonstradora de uma sinfônica realidade. Não há assim neste mundo uma verdade absoluta como a do Verbo foi um dia. Mas a profecia em torno da estrela de Belém, mencionada várias vezes, nos deixa confusos sobre se esta realidade é ou não é a mesma que deixa o poeta sem saber o que está estabelecido para além da sua própria falta ou se é a esperança de que algo vai se contrapor ao estabelecido. Como consolo, é importante saber que Virgílio, durante muito tempo, como observa George Steiner, foi conhecido como um mágico e prognosticador sibilino na Itália Medieval. Suas profecias foram estudadas a fundo por pensadores cristãos e não é por acaso que ele é o guia de Dante na Comédia, dada sua aura de iluminação profética e de aceitação do mundo cristão. Isso se relaciona com a busca da verdade e é o que se apresenta como missão à arte na compreensão de Broch. Mas a obra como produção literária tem um valor inestimável e cabe aqui perscrutá-la à procura de elementos que subsidiem o pretensioso título deste ensaio. A contrariar o senso comum, não parece infundado dizer que a escrita é por tudo agradável e representa a porta irresistível pela qual somos arrebatados para um mundo de beleza jamais sentido. Ezra Pound escreveu que a “literatura é linguagem carregada de significado“. E encontramos tantos significados a cada leitura deste livro, que imagino que este é um daqueles que podemos ler e reler ao longo da vida e mesmo assim sempre encontraremos algo não visto ou percebido. Como não se render a palavras deste tipo: “a descoberta do divino através do conhecimento introspectivo da própria alma é a tarefa humana da arte, a sua tarefa em favor da humanidade, a sua tarefa de conhecimento, e justamente por isso, a sua razão de ser, demonstrada através da proximidade da morte, porque só nessa proximidade se pode tornar verdadeira arte, assim se desdobrando num símbolo da alma humana” (p. 113). Broch aqui fala pela boca do poeta, pois, nos períodos anteriores, após condenar o artista a ser privado da purificação na vida e na morte, traça o paralelo com o ramo dourado que Eneias colhe com a orientação de Sibila, o qual lhe servirá de guia e caução pelo Hades; absolve-se o artista, no entanto, ou a arte mesmo, pelo conhecimento e pelo autoconhecimento da alma! E a morte ou sua proximidade tem papel fundamental nisso (“Só quem conhece a morte conhece também a vida”; “compreende a morte durante a vida, para que ela alumie a tua vida”, p. 208). Seguem várias considerações sobre o conceito e finalidade da arte, num verdadeiro ensaio, de rara beleza, servindo-se da autocrítica severa do poeta. Novamente o lado que não se vê da moeda, para onde tudo converge e de onde tudo se irradia, um amálgama de passado e futuro, que se mostra nas faces do presente. O presente que se deixa ver e o presente que se esconde, conforme a moeda que gira no seu próprio eixo e cai. E seguindo a torrente da Beleza, surge o encanto com a primeira aparição da musa Plotia: “Ó Plotia, ainda sei teu nome? Nos teus cabelos morava a noite. Semeada de estrelas, pressentindo saudade, prometendo luz e eu, debruçado sobre a sua escuridão nocturna, ébrio pelo hálito da noite cintilante e doce, não me afundei neles. Oh, existência perdida, estranheza mais familiar, familiaridade mais estranha, tu, proximidade mais longínqua, lonjura mais próxima entre todas as lonjuras, primeiro e último sorriso da alma na sua seriedade (...)” (p. 118). Sucede, então, uma longa consideração sobre a morte, que durará páginas e páginas, num fluxo de consciência intrincado, cuja assimilação exige um analista generoso e percuciente, pois logo adiante chega-se à fixação da pena já mencionada: “Queimar a Eneida!” (p. 142). Pelo encantamento da argumentação que exsurge da leitura, sentimo-nos tentados a concordar. Como está no próprio livro, “fácil é o caminho que conduz até Hades e encontram-se sempre abertos os portões de Plutão, mas é difícil o regresso” (p. 111). Ou seja, para o cristão isso significa que estão sempre abertas as portas do inferno para quem entra e sempre fechadas para quem quer sair. Portanto, deixemos essa nau de curiosidades em torno da beleza e da atração pela morte, para tentar nos fixar no ponto da ação, a meu sentir, aquele que cumpre uma importante demonstração do aviso trazido por Broch em relação à realidade que nos ameaça, tema, aliás, tratado nos seus romances posteriores, mas também na anterior e profética trilogia Os Sonâmbulos (publicada entre 1931 e 1932). Tirando a tumultuada chegada ao porto de Brindisi com o penoso percurso do poeta até o Palácio e o episódio dos três embriagados – dois homens e uma mulher que fazem uma choldra logo abaixo da janela do poeta, que a tudo assiste impassivo, inclusive um aparente assassinato – poucos momentos de ação restam na trama do romance. Quase tudo se resume a demonstrar as revelações que vão surgindo a Virgílio, que atravessa toda a trama em alongados e intrincados monólogos interiores, impelido pela consciência da morte iminente . Mas chega um momento no capítulo A Terra - A Expectativa, que essa forma literária dá lugar a um intenso diálogo, num desgastante duelo do poeta moribundo com o César Augusto. Anuncia-se o grande clímax da obra. Plotia ainda está por perto e intervém sem êxito em favor de seu amado em estado febril, pois momentos antes conhecíamos os delírios eróticos do casal. Subitamente tudo é interrompido pela entrada da sagrada pessoa do Augusto, veneranda mas humana, majestosa mas franzina. Tem início, então, uma projeção histórica que anuncia uma transição no estilo do romance, onde o futuro e o presente se mesclam para definir o passado bem conhecido da instalação do Império Romano. Mas o estilo barroco de tudo que foi dito até então, autoriza-nos ao transporte de um passado distópico, o qual, por sua vez, irá anunciar um futuro que já acontecia à época da elaboração da obra, numa espiral histórica formada por conceitos de pura abstração e harmonia. Não se trata de uma criação produzida no pós-guerra, mas impressionantemente ao longo da guerra, iniciada numa prisão nazista, a que o autor foi conduzido logo após a anexação da Áustria. Liberto, o livro será terminado no exílio nos EUA. E esse fato provavelmente pode ser visualizado em um futuro projetado para além daquele período, a nossa própria época talvez e mais além ainda, num movimento de tempos intercalados. De fato, a tragédia humana em direção ao totalitarismo não tem fim. Não é despido de significado, a propósito, o fato de que o romance foi lançado em 1946, traduzido para o inglês (pela poeta e tradutora Jean Starr Untermeyer com a colaboração direta do autor) e somente em 1947 foi lançada a primeira edição no original alemão, na Suíça. Esse périplo de embaraços, por si só, indica as dificuldades de existência do próprio manuscrito, num claro sinal dos tempos em que foi produzido, revelando seu parentesco direto com o manuscrito da Eneida. Nesse momento, poeta e Imperador discutem de forma exaltada. O tema é a vontade de Virgílio em queimar a Eneida. Aliás, a presença do Augusto se deve apenas a essa resolução, transmitida pouco antes aos amigos Plotius e Lucios, os quais se apressaram em informar ao Augusto, único capaz de opor a esta ameaça a sua própria vontade. O imperador arrosta Virgílio e chega a incriminá-lo por traição: “Por mero orgulho revoltas-te contra teus deveres; para o teu orgulho não é suficiente dar à arte, à tua arte, o papel de um servidor do Estado, e preferes destruí-la por completo a permitir que ela o sirva”. E desafia o poeta: “Otávio, tomas-me por um presunçoso?”, ao que o outro responde “Até aqui não, mas agora pareces sê-lo”. Neste exato momento, Virgílio se dá conta de que não poderá ir adiante em seu intento, dado o peso da mão do Estado romano que lhe pressiona o peito; prosseguirá, no entanto, a demonstrar seu desígnio ao longo do debate, cada vez mais tenso, argumentando com seu conceito da arte e sua missão, bem diferente dos deveres dos homens. O poeta se dá ao direito de esboçar ao Homem-Estado Augusto seu pensamento. Broch nos oferece generosamente a mais pura elegia à liberdade. E o faz em homenagem à arte e à concórdia e não à esperança, que já vislumbrava derrotada pelos fatos do século XX. George Steiner observou essa condição ao notar que “Broch morreu na América em uma estranha e vital solidão, emprestando voz a uma civilização, a uma herança do empenho humanista já condenada à morte” (Linguagem e Silêncio - Ensaios Sobre a Crise Da Palavra). Diante de tudo isso, de toda a desesperança narrada, devemos nos rejubilar com o que há de amor, amizade e admiração mútua entre os personagens. Os amigos Plotius e Lucios, vindos de Roma, são grandes confortos para Virgílio. Ama-os e se alegra por serem atenciosos e verdadeiros amigos. Augusto, por sua vez, apesar de se irritar muito com as pretensões e ideias de Virgílio, ainda assim o ama acima de tudo, à exceção de Roma, que é a sua obra plena, pela qual deve ser admirado e reconhecido, pois com ela se confunde sua existência. Augusto ama o serviço público que instituiu e insere seus amores neste universo coletivo. Não existe um Augusto a definir o que se deve ou não amar, pois ele próprio é o criador da “nova verdade” (um termo essencialmente distópico) em que essa escolha não existe. Ele buscou e alcançou a glória deste mundo. O poeta, convencido das impossibilidades do indivíduo, que foram extintas, quer estabelecer uma glória para além do mundo. Os diálogos travados entre Virgílio e Augusto são a culminância da ação trazida na obra, que nos trazem assombro, conhecimento e, sobretudo, uma literatura que revela os pendores de Broch pela filosofia e sua vontade de se distanciar da poesia (um poeta relutante, o batizou Hannah Arendt) e especialmente da autoria de romances. Ele, como Virgílio, tentará levar a cabo esse intuito até o final de sua vida, sem êxito, porém, especialmente pelas exigências prosaicas de sua difícil vida no exílio. Seguindo na contenda, Broch nos isenta da culpa pela dificuldade de compreendermos sua filosofia, ao fazer o próprio César se referir à falta de clareza de Virgílio, ainda que o faça para demonstrar a face do obscurantismo estatal e a censura aos devaneios metafísicos com que Virgílio tenta justificar sua intenção de queimar o poema, expostos longamente por reflexões descritas nos capítulos anteriores, em clara referência à liberdade. Mais um elemento claro de distopia: a demonstração do exercício de liberdade interior exposta ao leitor como demonstração da permanência individual e sua imposição à opressão externa vigente, que se sente ameaçada por tal espécie de devaneios. No decorrer do diálogo, as exposições da teoria do conhecimento defendida por Virgílio muito irritam Augusto, quando a ele são transmitidas. Por consequência, o Estado se irrita profundamente com o poeta, que se põe em risco. Essa será provavelmente a mesma situação em que se colocará Ovídio anos depois, despachado para o exílio por ordem do Imperador em situações não devidamente esclarecidas (para isso, os estudos de Jean-Yves Maleuvre são especialmente esclarecedores, inclusive pela longa lista de desaparecimentos misteriosos de poetas opositores ao regime imperial - v. Jean-Yves Maleuvre). Evidentemente, Ovídio é apresentado pelo meio culto, representado por Plotius e Lucio, como um poeta menor diante da grandeza de Virgílio, sem condições de ser levado a sério. O próprio Virgílio, no entanto, rebate essa opinião: Nós conhecemos tua paixão por sentenças exageradas, Lúcio, e sabemos, apesar disso, que tampouco como nós duvidas da qualidade da poesia de Catulo... Ou será mesmo necessário que te comprove que até Ovídio é um poeta autêntico? Broch tenta afastar assim o poeta da imagem de submissão daquele que compôs a grande obra apologética em homenagem aos feitos de Augusto, através da fundação da própria Roma. Virgílio não quer essa glória e fomenta uma atitude de subversão em seus últimos momentos, a qual, como se viu, forçou a intervenção pessoal do Augusto. Broch nos fornece, ainda, indicações de que na Eneida estes elementos podem ser encontrados, seja pelo oculto, seja pela ironia, e nos fala então sobre a “nova verdade’‘ a brotar da mais profunda mentira. Inclusive, em um determinado momento, Augusto afirma que sente a Eneida como sua e que Virgilio quer lhe tirar a posse. Da promessa de um mundo helênico realizou-se Roma Eterna e a paz que o Augusto trouxe. O Estado romano é dotado de humanidade própria, talvez a única humanidade possível, mesmo que pareça desumana e sem consideração por indivíduos. Sempre que está em jogo o bem-estar público, o indivíduo deve se submeter, assim como a liberdade individual se deve subordinar à liberdade coletiva. O que se exige é apenas a total subordinação ao poder do Estado, inclusive com o direito de reivindicar e anular a vida do indivíduo em nome da sua proteção, da proteção de todos. Aniquilar o indivíduo é um preço a ser bem pago por esta humanidade estatal, com disciplina, isenta de enfraquecimento. E ao longo desse diálogo, que se estenderá por algumas páginas ainda, detalhando-se o que já se sentia sem compreender, admiramos o heroísmo de Virgílio, apesar de derrotado como todo bom herói antiutópico, pois a Eneida seguirá seu destino. Compreende-se agora muito do que se leu anteriormente, das teorias e dos devaneios. O incompreensível, que se mencionou ao início como necessário, é a arma contra a inevitável perseguição do obscurantismo. Compreendemos que a liberdade dos homens não é completamente anulável e pode ser acomodada no soturno, na ignorância, na mesquinharia e no sofrimento ou na morte. Até mesmo a violência, que é regulada como monopólio do Estado, pode escapar desse controle. E os sonhos serão sempre sinônimo de liberdade. É a ação que se manifesta na escuridão, poderosa arma contra a névoa dominadora. O nada do indivíduo perante o Estado não deixará de existir. “Somos propriedade do Estado e na medida em que lhe pertencemos, pertencemos ao povo”, pois o Estado encarna o povo. Todavia, o povo é uma criança e permite que por ele pense e se sinta amparado. O povo, assim como o Estado, é eterno, mas precisa ser conduzido. Quem o conseguir, conduzirá também os objetivos do Estado. Força, símbolos, uma imagem na qual se reconheça, tudo isso nos é muito familiar. Já a caminho do desfecho, a morte que está no título prepara-se para un grand finale: a ascensão. O cortejo, o Éter ou quintessência, são narrados de forma sinfônica, de modo a preencher o vácuo e a completar junto com a Água, o Fogo e a Terra os quatro elementos da formação clássica. Ao éter se reserva o final talvez para indicar a elevação libertária que se pretende presente na Morte, ou o regresso, como o título registra, em que irrompe o entendimento “mais alto do que toda a compreensão”, sob a forma do “puro Verbo”. Ao sugerir esta espécie de absoluta liberdade, Broch desvenda a opressão e seus efeitos totalizantes, bem como toda a ordem de ideias que regem não só os estados totalitários do século XX que ele conheceu, mas também o comportamento totalitário coletivo que se encarnou nas mentes dos indivíduos e resultou na sua quase completa anulação nas décadas seguintes. Temos, portanto, uma distopia que, ao contrário das clássicas, apenas se projeta para o futuro, só se fazendo entender muitos séculos depois, na qual seus habitantes têm o privilégio trágico de habitá-la numa realidade virtual que a todos acomete e leva o mundo a um destino onde nunca se sabe o lado da verdade, porquanto a linguagem está a serviço de outras forças. Está lá a noção de Estado contemporânea, com seu Direito Público e os ambíguos conceitos de interesse público, evoluído em direitos coletivos, um poder difuso, ou seja, o dever do indivíduo obedecer a uma vontade coletiva que não tem a menor noção de como se formou e nem de quem a exerce de fato, mas apenas de direito, na inversão dos valores do paradigma. Broch na verdade antecipa Orwell e explica Huxley (com quem, aliás, mantinha conhecida correspondência). A morte de Virgílio é na verdade o aceno à morte do conceito do indivíduo. Não há missão a ser cumprida por esta obra. Não mais. O aniquilamento exterior já fez o seu trabalho inevitável. E a questão que parece querer nos fazer é: podemos nos consolar decorando livros ou evitar que sejam queimados ou simplesmente pensar contra o partido? Virgílio, o nosso Winston Smith, defende o conhecimento e a criação como dependentes um do outro e centro do indivíduo e acusa o Estado augustano de exterminar ambos. Augusto se defende e menciona suas realizações, sua paz, o fim das atrocidades, sua piedade, apesar de desprezar isso tudo na sua verdadeira missão. O povo quer imagens fortes e sem equívocos, que possam compreender! Assim, o próprio Augusto é o símbolo de deus e do povo ao mesmo tempo, tanto que nem mesmo o sacrifício que o poeta quer levar a cabo ao queimar a Eneida, não deve ser autorizado pelos deuses, mas por ele, Augusto. O Estado comanda também os desejos divinos, a quem cabe sua guarda. E se o sacrifício envolve a Eneida e esta é a obra que reflete a obra do Augusto, então o poeta comete o mais grave dos crimes contra a ordem estabelecida e o faz assim contra todo o povo romano. E aí se revela que Virgílio não tem qualquer poder sobre seu trabalho, nem mesmo um precário direito de posse. Declarada propriedade pública, o Estado encarna o povo e o povo deve encarnar o próprio Estado, desapropriando-se a criação e desprendendo-a do espírito criativo. Ao poeta é permitido apenas terminá-la. Esse o direito que lhe reconhece o Augusto, que mesmo assim lhe confisca o manuscrito antes de sair do leito de morte, com sorriso sincero. Desnuda-se aqui o moedor de carne da individualidade humana. E mesmo assim, seus efeitos não impediram os rumos que foram tomados. Afinal, a única humanidade possível é a humanidade do Estado. E a consequência lógica é que aquele que não se submete a este dever pode simplesmente ser eliminado. A segurança e a proteção da coletividade reivindicam esse aniquilamento. Há uma grande vantagem trazida por esse coletivismo, que é o desaparecimento da culpa individual, o que paradoxalmente abre uma porta praticamente irresistível para os desejos mais insanos serem colocados em prática e marca todo tipo de totalitarismo conhecido. Virgílio, inserido num mundo distópico por Hermann Broch, rende-se ao pessimismo e aponta o único caminho para escapar desse destino perverso do indivíduo, o Éter. Broch escreveu a Aldous Huxley logo após publicar A Morte de Virgílio: “For in my mass psychology I am ultimately working on the same problems as in the Virgil: here, too, I am concerned with the processes with lead the human being to the loss and regaining of his ‘verités fondamentales’, in short, his religious attitudes” (extraído de Hermann Broch, de Ernestine Schlant). Broch a essa altura era um escritor desiludido com as possibilidades da literatura, tal qual seu Virgílio. Ao que tudo indica, os anos no exílio e todos os acontecimentos que marcaram o século XX o deixaram profundamente infeliz com as próprias escolhas de sua vida. Mesmo A Morte de Virgílio padece um tanto desta resistência, ao veicular o ensaístico inserido na estrutura de obra de literatura. Ao lado da filosofia, a ação concreta, às voltas com refugiados da crise na Europa e propostas legais em torno da proteção de direitos humanos e da possibilidade de uma democracia global, foi uma das saídas que a criatividade de Broch encontrou para seu refúgio frente ao desencanto com a arte. Esta atitude orientou seus últimos dias de vida. Por seu inestimável valor poético, no entanto, A Morte de Virgílio nos seduz por sua busca do integral e do absoluto. É um romance polifônico e épico. Mas também é filosofia e é romance histórico, assim como ensaio literário. Ambiciona sintetizar a totalidade dentro da linguagem, que funciona como veículo para transpor as barreiras do mero conhecimento. À linguagem é dispensada, com grande talento, a função grandiosa e gloriosa de transportar o humano para o além, para o domínio do Éter, levando ao extremo as convenções e formas que caracterizaram os modernismos do século XX. Mais uma vez George Steiner é preciso: O estilo de Broch tem um estranho encanto, por existirem, tangenciais a ele, vislumbres de códigos de afirmação inteiramente diferentes, como o uso do silêncio (como Calder usa o espaço) ou a projeção na linguagem da gramática da matemática. A literatura contemporânea mal começou a dispor dos incitamentos de Broch. Expõe-se ou se tenta expor toda a multiplicidade e heterogeneidade do mundo interior dos seres humanos, valendo-se de uma linguagem total, abrangendo a totalidade do mundo conhecido e isto parece ser a verdadeira arte mencionada pelo poeta. No momento, você é assinante grátis de Livraria Trabalhar Cansa. Para aproveitar a experiência completa, faça upgrade da sua assinatura.
|
Total de visualizações de página
domingo, 20 de setembro de 2026
A morte de Virgílio e a distopia romana de Hermann Broch
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário