Obrigado pela sua leitura! Daniel Vorcaro é um incompreendido. Com a eleição em outubro prestes a bater às nossas portas – e com todos os candidatos já definidos – é de se notar que nenhum político brasileiro possui um “projeto de país”. O dono do Banco Master tinha essa visão, mas foi abortado em suas intenções. A única coisa que ele queria é redistribuir a riqueza para a população, desde que, claro, começasse com os três poderes da república. O povo foi apenas um detalhe que faltou no quebra-cabeça. Assim como Joaquim Nabuco, Vorcaro entendeu, mais do que todos os nossos parlamentares, que a escravidão é o pior dos sistemas econômicos e políticos porque se estende a todos os níveis da sociedade e retira, antes de tudo, do homem a possibilidade de ser “a propriedade de si mesmo”. A grandeza do esquema do banco Master é que ele compreendeu que todos somos propriedades de uma escravidão moral, e assim amputamos os princípios que dirigiriam qualquer política saudável. Apenas faltava um passo para a nossa cooptação completa. Por isso, é do conhecimento de todos os cidadãos (em particular Daniel Vorcaro) que este modelo de governo, entre nós desde 1889, aproxima-se de um colapso. São vários os motivos desta ocorrência: centralização do poder na União Federal; sucateamento do aparato burocrático; aparelhamento ideológico do Estado; corrupção endêmica em setores potencialmente lucrativos para o país, como petróleo e energia; alta incidência de carga tributária para resolver os problemas fiscais de um governo incapaz de cortar os gastos públicos. O que Daniel Vorcaro fez foi se aproveitar desse “círculo vicioso”. Aí está o seu “escândalo”, já que ninguém parece saber se há uma luz no fim do túnel ou se a luz que procuramos é a do trem que vem atropelar-nos de uma vez por todas. Esses problemas não são originários exclusivamente do modelo político-econômico proposto por um partido ou uma administração específica. Já existiam no Brasil colonial – e apenas foram sedimentados na chamada “Nova República”, iniciada oficialmente com a Constituição de 1988. Portanto, ao comparar os programas de governo dos partidos que se encontram tanto na situação como na oposição, percebemos um fundo comum, uma mesma raiz que impede a resolução de problemas que deveriam ser debatidos incessantemente, antes de qualquer atitude terapêutica, para que o colapso não se agrave ainda mais. Este fundo comum é a fragilidade do Estado brasileiro como um todo. Ela afeta todos os setores da vida social, a princípio de maneira imperceptível, e depois prejudica o cotidiano da população de tal forma que é necessário um “instituto jurídico” para que o quadro não piore e se transforme enfim numa crise social de proporções extremas. O termo fragilidade é empregado no sentido proposto por Nassim Nicholas Taleb, especialmente na obra Antifrágil: coisas que se beneficiam com o caos, e também em seu artigo “The Calm Before The Storm” (A bonança antes da tempestade), publicado na revista Foreign Affairs em 2016. Para Taleb, a fragilidade é sempre adversa a um estado de desordem. Ou seja, qualquer instituição frágil é incapaz de tirar vantagem de um ambiente de incerteza e confusão. Quando isso ocorre, a instituição fica exposta a eventos imprevisíveis e mostra-se incapaz de reinventar-se, dominada pelos caprichos do acaso, sobretudo em situações de alta volatilidade. São cinco critérios utilizados para caracterizar um país como “frágil”: (1) Um sistema de governo extremamente centralizado (com decisões arbitrárias de cima para baixo, ou seja, do centro do poder instituído para a sociedade civil, sem autêntica representação); (2) Uma economia incapaz de sustentar a diversidade de opções no mercado (por meio do intervencionismo exorbitante); (3) Dívida pública excessiva (alto custo com políticas públicas e programas sociais, sem retorno evidente para o cidadão); (4) Ausência de alternância política (a visão de que qualquer crítico contra o governo é visto como um “inimigo”, não como um “adversário”); e (5) Um registro histórico de não suportar (ou absorver apenas precariamente) choques súbitos em suas estruturas políticas (acentuado pela incapacidade de promover reformas estruturais profundas). O Brasil atende a todas essas características de fragilidade, por mais que as nossas elites intelectual, política e financeira as neguem. Os pontos acima resumem-se numa única atitude perigosa – e facilmente captados na maioria dos brasileiros que tentam comandar os labirintos do poder: não suportar nenhuma espécie de variação súbita, nenhuma amostra de estresse, nenhum prenúncio de caos. Poucos conseguem tirar vantagem de um evento aleatório, caindo na perigosa ilusão de que um país se constrói com paz e estabilidade quando, na verdade, isso o torna cada vez mais propenso a traumas. A resposta fundamental para isso é aceitar “a metafísica do perigo”, uma expressão maravilhosa de Gilberto de Melo Kujawski que deve ser vista como regra máxima. De acordo com Kujawaski (falecido em dezembro do ano passado), a vida é feita de perigo porque
Ora, no Brasil, ninguém está resolvido neste ponto. Todos vivem fora da sua vocação - até mesmo aqueles que só falam dela, mas depois se vendem a projetos alternativos de poder, disfarçados de “educação do imaginário”. Ninguém é chamado para ser algo; são apenas zumbis, autômatos, sujeitos desprovidos de alma. O perigo, quando é ofertado como se fosse alguma “missão”, é uma impostura que esconde uma vantagem política de segunda categoria. A alternativa, na hora de permitir este perigo, é de que o único lugar na sociedade onde ele é praticado com coerência é o “narcoestado”, em que as facções do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital são os lordes supremos num país que aboliu o risco. Neste aspecto, são igualmente falhos e incompletos os projetos de governo do partido que se encontra no comando do Estado e os da oposição que pretende ocupá-lo. Ambos rumam ao colapso inevitável justamente porque não querem perceber a fragilidade em que estão envolvidos. E quem aceitou isso como poucos foi justamente Daniel Vorcaro. O dono do Master provou que não há “terceira via” para o Brasil. A sociedade brasileira está tão perdida entre escolhas aparentemente contraditórias e incapaz de perceber a fragilidade do Estado nacional, que qualquer solução baseada no “saber de salvação” (nas palavras de Paulo Mercadante) é vista como a panaceia que resolverá o país. Não é bem assim. Há o projeto petista, encarnado em Lula e dissolvido numa dissonância cognitiva que o torna inepto para perceber a mudança na sociedade brasileira ocorrida nos últimos dez anos. Depois temos o bolsonarismo, no qual Flávio, o filho do Capitão, é um senador pusilânime, sem nos esquecer da dupla dinâmica Ronaldo Caiado & Romeu Zema, em que a direita tupiniquim é um sinal de obscurantismo extremamente bem articulado em alguns setores do país (em particular o agro). Chegamos então nas loucuras utópicas de um Augusto Cury ou de um Renan Santos, ambos incapazes de pedir uma pizza por telefone ou até mesmo numa bodega de esquina, apesar de desejarem combater pela “segurança” do povo. Em resumo: o que o brasileiro médio tem em mãos é a danação garantida. Para completar essa desgraça institucionalizada, as soluções dos analistas e especialistas que estão no debate público já não surgem da própria realidade como a julgamos conhecer, mas da incapacidade deles ao escolher entre um modelo de governo “frágil” e outro modelo que tenta superar essas perigosas brechas. Assim, os defeitos da centralização estatal são acentuados em vez das qualidades de uma gestão fundamentada no “autogoverno” – algo que o Brasil jamais experimentou em sua história política, e que vai contra o patrimonialismo que sempre nos acompanhou, como bem demonstraram Antonio Paim, Simon Schwartzman e Alberto Guerreiro Ramos em suas obras clássicas (e hoje injustamente esquecidas). Esta incapacidade de escolha leva ao medo de enfrentar um colapso sistêmico quando, muitas vezes, isso é absolutamente necessário – e, se não for feito, acentuará ainda mais a fragilidade do próprio Estado, afetado pelo temor da “metafísica do perigo” que estimula os governantes, os burocratas e os intelectuais que vivem na sua bolha repleta de “arrogância epistêmica”. O medo de “abraçar o caos”, absorvido na cultura brasileira, impede que a sociedade civil veja que o “colapso inevitável” é fundamental para reestabelecer e rediscutir o papel do Estado no modo como governamos o país. A nossa escolha é entre um paliativo, um “placebo” que parece melhorar temporariamente as coisas, mas que, a médio ou longo prazo, agrava ainda mais a doença, e um remédio amargo, porém com efeito duradouro, e que recentemente foi encarnado na figura de Daniel Vorcaro. Ocorre que esta indecisão nunca foi nova na história do nosso país. José Júlio Senna explica-nos que ela sempre existiu para justificar o poder centralizador do Estado, tornando assim a fragilidade do Brasil algo constante a cada momento em que se tentava alguma reforma profunda em nossas estruturas políticas. Aconteceu do mesmo modo na época do Império, quando a mudança de regime para a República não impediu de continuar a imitação das bases econômicas da escravidão. Em seu livro Os Parceiros do Rei (1994), questiona Senna:
E arremata:
O raciocínio acima também explicita a nossa a incapacidade, no registro histórico nacional, de suportar (ou absorver apenas precariamente) choques súbitos em suas estruturas políticas, especialmente em marcos de mudança radicais como a abolição da escravidão ou, para restringir-nos a um período mais recente, a redemocratização do país, durante a qual muitas das práticas desenvolvimentistas do governo militar repetiram-se ironicamente no Estado de Bem-Estar social promovido por seu antípoda ideológico, o governo do Partido dos Trabalhadores. Para ocorrer a libertação destes “grilhões de imitação negativa” é preciso, sobretudo, uma mudança de mentalidade, uma mudança cultural que aceite a existência da “metafísica do perigo” como algo que estimule a responsabilidade por nossos atos. Esconder o fato de que preferimos transferir o risco das nossas escolhas para a fragilidade inerente de um Estado centralizador e intervencionista só aumenta um comportamento próximo da “servidão voluntária”. E é nesta servidão que Daniel Vorcaro entendeu, como poucos, de que “a terra de ninguém chamada Brasil sempre será disputada por duas ou mais facções”, conforme já nos lembrava Ivan Lessa. A pergunta a ser feita ao (e)leitor depois de outubro é muito simples: de qual facção você fará parte? Quem viver verá. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: Queridos leitores: Quando eu falo de vibeshift, falo na verdade de um processo que começou desde 2016, se aprofundou em 2018, foi sufocado em 2020 na época da COVID e se acelerou em 2022 com a popularização da IA. Há um nome específico para ele: “a revolta das elites contra a revolta do subsolo”. Os três cursos que produzi de forma independente confirmam este diagnóstico. O problema é que (quase) ninguém entendeu isso. E daí surge a confusão em que estamos metidos. Aqui, vejam um trecho de uma das aulas: Por exemplo: em RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO, eu analiso como as placas tectônicas da história do nosso país entraram em choque e como o sistema do Estado se tornou incapaz de permitir uma liberdade mínima para o cidadão. Já em ALÉM DO ZERO: VIVENDO NA RELIGIÃO DA TECNOLOGIA, medito a respeito de como a mídia não consegue mais conversar com o leitor comum, pois a internet já entrou em entropia, buscando um “retorno às fontes”, e assim as instituições religiosas estão sem o norte do espírito. E em DE ZERO A NERO: O QUE SHAKESPEARE ENSINOU A PETER THIEL SOBRE OS PERIGOS DA LIDERANÇA, disseco sobre a turma do Vale do Silício, que transforma o planeta e cria o vazio que nos desorienta atualmente. (As informações sobre as ementas de cada curso podem ser lidas em cada link acima) Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará cada curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.(“Ah, mas não é um combo?” “Não deveria ser um único preço?”, perguntarão os impacientes. Bem, eu estou dando a oportunidade de você dar o preço, conforme a sua consciência. Portanto, o mínimo que eu peço é que respeite algumas das minhas condições, certo?) Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo (especificando-o na mensagem a quantia para cada curso):martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - COMBO DO VIBESHIFT -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível de cada curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription.
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quarta-feira, 29 de julho de 2026
Terra De Ninguém
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