Obrigado pela sua leitura! Evocação Ao ExílioEsperamos eternamente por um Führer ou um mestre terapêutico que nos ajude a sair da nossa vala espiritual.
A linha do horizonte era clara e límpida, delimitava o mundo, a Irlanda e toda a praia de Sandycove, e um veleiro passava lentamente no mar quando James Augustine Joyce cortou o ar com seu polegar, ao fazer uma cruz. O vento batia calmamente no seu rosto naquele dia 16 de junho de 1904 e a Martello Tower — o pior local de toda a região de Dublin para se morar — cheirava a uma umidade que não tinha nenhum charme. Seus olhos não estavam muito bons e seus dentes doíam. Vestiu sua melhor roupa e apoiava-se delicadamente na bengala que comprara há alguns meses. Tinha apenas 22 anos e já se considerava um amigo dos enigmas, um construtor dos labirintos. Gogarty, seu colega de quarto, apelidava-o de “Dedalus” e zombava de sua estranha teoria em que provava, algebricamente, que Shakespeare era o pai de Hamlet e Hamlet ao mesmo tempo. Zombava também por seu ódio por Dublin, uma cidade cheia de paralisados, de vermes que não sabiam se mover. Mas naquela manhã Joyce não queria pensar em Gogarty. Ao acordar, escutou três palavras que o agarraram pelo pescoço. De onde vieram? Quem falou aquilo? Anotou-as rapidamente no seu caderninho de epifanias. O que significavam aquelas três palavras?, meditava ele ao contemplar o mar e aquela cristalina linha do horizonte. Havia outra coisa a se pensar — a moça de Galway. Nora. Encontraria-se com ela hoje à noite. Sem dúvida, uma moça jeitosa: boas pernas, bom busto, uns olhos que iluminavam o que ficava para trás. E o que ficaria para trás? Dublin? A Irlanda? A História que queria escapar como um pesadelo? Nora. Um nome que soava permanência, estabilidade. E qual é o irlandês que gosta de estabilidade? Nora. Um belo nome. Uns belos olhos. O que ele deveria ter com os seus olhos míopes e os dentes estragados? O vento soprava para onde queria e Joyce resolveu ir embora da torre. Desceu as escadas, cumprimentou Gogarty (“Olá, jesuíta imundo”, ele disse), tomou um copo de leite para fingir que era um desjejum. Entregou à velha leiteira (que ficou surpreendentemente quieta, a observá-lo com seu olho de vidro cor branca, fitando o rosto magro dele) as poucas moedas que tinha no bolso da calça. As três palavras — qual era o significado delas? Poderia perguntar a Gogarty, mas ele também não saberia responder. Estendeu a bengala e despediu-se. Tenho de ir embora de Dublin. Quem iria comigo? Nora. A praia já estava ocupada, crianças brincando, pais olhavam seus filhotes a se prepararem para atingir uma vida adulta algum dia, quem sabe. A possibilidade das possibilidades. Viu duas irmãs a brincarem com dois bebês e uma enorme bola colorida que rolava para lá e para cá, quase chegando à praia. Em cima de uma pequena colina, havia uma terceira dama, que observava as outras e encarou Joyce. Ele apertou a vista, o que lhe causava pontadas agudas na gengiva, e viu que, com uma clara dificuldade, que os olhos dela eram muito parecidos com os de Nora. Seria Nora? Não, não era. Os olhos continuavam a fitar o rapaz e o que se estabeleceu foi uma modesta paralisia de tudo que rodeava a praia de Sandycove e tudo que rodeava aqueles dois seres, em que presente, passado e futuro se misturavam e formavam uma perpétua abstração. Sim, eu sei o que significam as três palavras, a moça disse em silêncio. Elas serão o seu guia para criar o seu próprio continente, o seu próprio mundo, a sua própria História. Elas serão a arma que o ajudará a se libertar da consciência fraca da sua raça e darem um sentido mais puro às palavras da tribo. Elas serão o destino. O seu destino. Uma criança gritou e uma gaivota atravessou o ar. De repente, não se olhavam mais. A moça foi embora, não virou para trás. Ele tirou o caderninho e leu as três palavras. Silêncio, exílio e astúcia. O seu destino. O destino de todos que estavam ao seu redor. Silêncio, exílio e astúcia. Nora — este foi o primeiro nome que lhe veio à cabeça. Os olhos dela iluminavam tudo que encontrava, cada passo da trilha, cada trilha do seu passo. Girou em direção ao mar e, com a ponta da bengala, escreveu na areia: I AM. Silêncio, exílio e astúcia — a santíssima trindade da fuga e do engenho. E então James Joyce começou a sorrir e andar, subindo em direção a Dublin, para se encontrar com Nora Barnacle, camareira de Galway e sua futura companheira, ouvindo as ondas que se chocavam contra as pedras, pronto para aplicar seu espírito às artes desconhecidas e proteger-se do grito do frio que todos — as crianças, os pais das crianças, os futuros filhos destas mesmas crianças — começariam a respirar em breve. *** Talvez porque ontem foi Bloomsday (16 de junho), ou talvez porque os nomes de James Joyce e de Sigmund Freud significam a mesma coisa em suas respectivas línguas — “alegria” ou “júbilo” — , decidi que não falaria nem sobre um, muito menos sobre o outro, pois, para o escritor irlandês, não havia acidentes para os homens de gênio, e o mundo era motivo de descoberta. Tudo isso é muito bonito. Mas até mesmo os gênios têm os seus momentos de bobagem, correcto? Aliás, pode-se dizer que um gênio só vive alguns (e poucos) momentos de lucidez. Sua vida inteira é baseada na espera de uma exceção que o salvará da burrice completa e ela dominará todos os outros instantes da sua vida. O gênio é só exceção; a sua tão propalada inteligência muitas vezes pode ser considerada loucura e, de certa forma, o sujeito realmente inteligente é aquele que consegue se manter constante, tanto no pensamento como nas decisões concretas. Joyce e Freud eram gênios — mas gênios que beiravam a insanidade. E todo esse “clima de opinião” em que ambos se transformaram (a expressão é minha homenagem singela a um poeta verdadeiramente inteligente, W.H. Auden) foi o que impulsionou o tecido do mundo moderno a se tornar somente uma caricatura de rupturas em relação a uma tradição a qual o homem contemporâneo não se importa mais. Vejam bem: tanto Joyce como Freud precisaram da própria tradição para realizarem suas obras. Mas cada uma delas, em sua respectiva área, destruiu o que essa mesma tradição defendia — a velha e boa questão da “reforma versus revolução” de que já tratei em A Poeira da Glória, especialmente sobre os casos do nosso Modernismo Brasileiro e o exemplo de Joaquim Nabuco. Eis o nó górdio: como transformar sem destruir? Joyce teve de criar uma linguagem incompreensível (em particular, no Finnegans Wake), ainda que, com ela, construísse uma terceira cultura, a que vivemos justamente agora, pelo menos segundo Philip Rieff em seu My life among deathworks. E Freud, de acordo com o mesmo Rieff, elaborou uma nova antropologia, na qual os instintos substituíram as virtudes, o acidental tornou-se a substância e a partir daí foi só ladeira abaixo. Contudo, ambos sabiam que o ser humano não era só isso. A prova está no próprio Ulysses de Joyce ou no final do seu conto “The Dead”; e Freud nunca poderia escrever aquele brilhante livro de stand-up comedian que é O Mal-Estar da Civilização se não acreditasse que o ser humano era um animal incapaz de dar risada no meio de tanta desgraça. Enfim, eis o homem: intermédio entre o tudo e o nada, um caniço pensante, como diria Pascal — este sim um sujeito que soube amarrar sua inteligência e seu gênio. Mas o gênio moderno não quer entender isso. O que ele quer é, de fato, cortar a capacidade de pensar do caniço e, muitas vezes, o próprio caniço. Os pseudo-seguidores de Joyce e Freud acham que qualquer mudança vale uma revolução de meia tigela e, dessa forma, a ruptura é a única maneira de se refazer uma cultura. Não, não é. Uma cultura se faz com cultivo (eis aí sua etimologia), com persistência e, sobretudo, continuidade. Qualquer tentativa de civilização se dá apenas com uma “perfeita mediocridade”, em um ambiente de “perfeito tédio”, onde as pessoas comuns podem desenvolver o seu talento e frutificar a sua vocação. Contudo, nossa alegria está no encontro com o gênio, com a ruptura, com a exceção. Esperamos eternamente por um Führer ou um mestre terapêutico que nos ajude a sair da nossa vala intelectual e espiritual. Eis uma escolha bem trágica. O fato é que não existe nada disso; o que existe é nada mais, nada menos que a perseverança numa vida sofrida de estudos. Solidão e secura são o que esperam o sujeito que deseja se desenvolver como um mensch neste mundo insano. Ainda assim, depois disso tudo, se ele conseguir vencer esses obstáculos, sem dúvida encontrará aquele espasmo de alegria que só a verdadeira inteligência proporciona — e jamais o desejo de ser apenas um gênio. Nesta semana do Bloomsday, I’ll drink to that. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: AVISO: NOVO CURSO - RAÍZES (E CONSEQÜÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIROUM TRECHO LOGO ABAIXO:Queridos leitores: Temos um novo curso: RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO. (No decorrer das aulas, os alunos perceberão que eu falo “Raízes do autoritarismo brasileiro” o tempo todo, mas o nosso departamento de marketing resolveu alterar o título para melhorar as vendas. Não vou discutir.) Trata-se de um prosseguimento do assunto que abordei nos cursos anteriores (mas agora aplicados na perspectiva brasileira), De Zero a Nero - O que Shakespeare ensinou a Peter Thiel sobre os rumos da liderança, e Além do Zero: Vivendo na Religião da Tecnologia, que você pode adquirir respectivamente aqui e aqui. Serão seis aulas, de 30 minutos a 1 hora de duração, todas já gravadas. Aqui vão os temas abordados: O curso é também uma reflexão sobre certas obsessões minhas e que me acompanham desde a época do meu segundo livro, A Poeira da Glória (2015) e depois em A Tirania dos Especialistas (2019), indo até A Disciplina do Deserto, minha obra derradeira. Este livro será publicado em 2026, se os deuses do mercado editorial permitirem. Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará o curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo:martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - CURSO RAÍZES TOTALITARISMO -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível do curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription.
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quarta-feira, 17 de junho de 2026
Evocação Ao Exílio
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