#Cultura: “O assassinato de Rachel Nickell”Documentário em cartaz no Netflix explora as as consequências legais e emocionais de uma tragédia
Uma mulher de 25 anos sai para passear com o filho num parque público em Londres e acontece o pior. É a sinopse do documentário “O assassinato de Rachel Nickell”, em cartaz na Netflix. A história é construída a partir da memória de Alex Hanscombe, seu filho, que tinha apenas dois anos quando presenciou o crime ocorrido em 15 de julho de 1992. O documentário evita concentrar sua narrativa apenas na identidade do assassino ou nos detalhes da investigação, preferindo examinar as consequências emocionais da tragédia sobre Alex e seu pai, André Hanscombe, que, pelo filho, teve de sobreviver com o peso de uma lembrança que atravessa toda uma vida. Diferente da peste do gênero true crime, que gosta de mostrar sangue e entranhas expostas, glorificar criminosos e fazer sensacionalismo com as vítimas, “O assassinato de Rachel Nickell”, prefere medir as consequências deixadas pela tragédia: o pai tentando proteger o filho, a criança crescendo sob uma sombra que não escolheu, a imprensa farejando dor como notícia, a vida privada em exposição pública. Há uma certa delicadeza na recusa ao sensacionalismo que, ao mesmo tempo, cria uma força dramática que vai se prolongando em gestos mínimos, em silêncios, em perguntas nunca respondidas e suposições de como as coisas seriam se não fossem como são. O ponto mais perturbador, porém, está nos erros policiais. A investigação contra um suspeito chamado Colin Stagg, baseada em evidências estúpidas, pressões externas e uma operação secreta intelectual e moralmente duvidosa, revela uma certa patetice inacreditável. Os investigadores totalmente perdidos chegam a apelar às feitiçarias de um velho metido a psicanalista. Ele traça perfis aleatórios de criminosos imaginários e leva a todos a conclusões completamente estapafúrdias. Nesse aspecto, o caso lembra, ainda que vagamente, os Guilford Four, quatro rapazes falsamente condenados em 1975 por atentados a bomba do IRA (Exército Republicano Irlandês) ocorridos num Pub na cidade de Guildford. A história foi contada no filme “Em Nome do Pai”, dirigido por Jim Sheridan em 1993. Em ambos os casos, o Estado parece menos interessado em prover Justiça do que em apresentar uma resposta, qualquer que seja, ao clamor público crescente. A diferença de contexto é evidente, mas a semelhança moral incomoda: quando a polícia erra movida pela pressa, vaidade, pressão política ou pura estupidez, a inocência torna-se a maior vítima. No caso de “O assassinato de Rachel Nickell”, não se trata apenas um crime hediondo, mas do que continua vivo depois dele: a culpa dos que não tiveram culpa, os traumas dos que ficaram, o sensacionalismo brutal da imprensa e um sistema investigativo cheio de boas vontades, mas que, numa incompetência descomunal, pode destruir vidas em nome de uma eficiência meramente burocrática. Se você gostou desse texto, lembre-se que não existe almoço grátis. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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quinta-feira, 11 de junho de 2026
#Cultura: “O assassinato de Rachel Nickell”
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