Você lembra em quem votou? Todo mundo adora reclamar do governo. Absolutamente tudo é culpa do governo. Mas o Datafolha descobriu uma coisa curiosa: a maioria dos brasileiros nem lembra em quem votou para deputado e senador em 2022. É o único relacionamento da vida em que você esquece o nome da pessoa dois anos depois e ela continua mexendo na sua carteira. A gente lembra do Enéas, que morreu há 20 anos, mas não lembra do deputado que contratou por quatro. Esse virou testemunha protegida. O brasileiro trata o voto para deputado igual aos termos de uso da internet. Não lê nada, clica em “aceito” sem pensar, e depois reclama porque autorizou acesso à câmera, ao microfone e ao Orçamento da União. E aí vêm as frases clássicas: “Esse Congresso...” Só um detalhe: esse Congresso não caiu do céu. Foi entregue no delivery. Você fez o pedido. Agora, quem votou para presidente? Todo mundo lembra. Claro: a polarização resolveu o problema da memória. Só tem dois nomes possíveis. Não precisa nem pensar. É vermelho ou verde, certo ou errado, nós ou eles. Para presidente, o brasileiro tem convicção inabalável. Para deputado, tem amnésia seletiva. É o cidadão que quer comentar a final sem saber quem montou o time. A pesquisa mostrou outra coisa interessante: o brasileiro acompanha cada passo do STF, sabe o nome dos ministros e discute várias decisões do Supremo. Mas esquece justamente quem escreve as leis que esses mesmos ministros vão interpretar. É como assistir MasterChef durante dez anos e nunca descobrir quem compra os ingredientes. A pesquisa também perguntou se as pessoas conseguiam citar um senador. Três em cada quatro não conseguiram. É o que dá quando não dá para dar um Google. Na teoria, eleição é escolha de representante. Na prática, é escolha de quem vai carregar a culpa. Quando o político acerta, foi mérito dele. Quando erra, “político é tudo igual” Só que político não aparece do nada tipo anúncio de bet no intervalo da Copa. A boa notícia é que daqui a dois anos tem eleição de novo. A má notícia é que a gente vai votar com a mesma atenção. Porque o eleitor brasileiro não esqueceu o deputado. Ele nunca prestou atenção suficiente para ter o que esquecer. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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terça-feira, 30 de junho de 2026
#AmnésiaEleitoral
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