Obrigado pela sua leitura! Há seis anos que o inimigo dele é o universo, encoberto no meio da noite com as estrelas que não vão a lugar nenhum, pois o frio o alimenta no meio das florestas que serão devoradas pelo seu ritmo implacável e invisível. Não só as florestas, mas as cidades, as vilas, os bairros, as casas, as famílias – todas trancadas em seus lares, ou todas à espera para que ele enfim as leve para algum quarto na UTI ou algum leito hospitalar ou uma vala que será coberta por terra e cal. Ninguém sabe bem como chamá-lo porque ele pouco se importa com nomes. Às vezes chamam-no de vírus, apesar de que ele gosta mesmo de outra denominação – “peste”. Uma vez que o seu gênero é igualmente fluído, seja como vírus, seja como peste, é justamente essa amplitude de significados que permite que suas vítimas – futuras e passadas, senão inevitáveis – devorem o tempo que lhes resta ao escreverem relatos e ideias que tentam decifrar seus mecanismos insondáveis. Desde 2020, quando ele resolveu ressurgir com força total (com outro nome, similar ao de uma coroa de espinhos, e agora acompanhado com esta nova unidade monetária que é o rato), há pelo menos uma centena desses tomos; todos eles chegaram às estantes do globo terrestre como se fossem alguma espécie de resposta definitiva a este oponente. Obviamente, ele riu de cada uma dessas explicações. Na verdade, fez isso não por desprezo, mas sim porque as achou simplesmente divertidas. Nicholas Christakis, por exemplo, parte da primeira grande metáfora na literatura ocidental – a seta de Apolo como representante da moléstia que assolou o exército de Agamenon logo no início da Ilíada, de Homero – para criar paralelos entre ele e o modo como a humanidade o confrontou durante os séculos. Como previsto, essas tentativas não deram muito certo porque ele (ou seria ela?) permaneceu entre os seres humanos. Mas Christakis é um médico que acredita no progresso humano (e também na benevolência de Bill Gates, que foi um dos poucos que previu o surto, enquanto frequentava a casa de Jeffrey Epstein) e, por isso, assegura que a seta de Apolo é uma exceção na trajetória desta raça que, volta e meia, a peste insiste em eliminar da face da terra. Ela (ou seria ele?) sabe que o nobre doutor é apenas um iludido, mas ainda assim gosta de ver essas quimeras bem alimentadas. Afinal de contas, o vírus se alimenta disso. O mesmo ocorre com a dupla John Micklethwait e Adrian Woolbridge, cientistas políticos que perceberam que o surgimento da praga significava a demolição final daquilo que conhecíamos como “Estado Moderno”. O livro deles tenta ser um alerta contra suas artimanhas, mas é um aviso que já se tornou datado. Ele (ou ela?) sorri quando os nobres professores concluem, mesmo que indiretamente, que o Ocidente (seu território favorito) falhou em tudo o que podia para impedir o seu contágio – especialmente neste mundo tão globalizado em intenção, mas fracassado na ação. Ao menos, a doença reconhece que o alerta dos ingleses não chega a ter a arrogância da tal “denúncia” feita por Benjamin Bratton sobre o fato de que finalmente a sociedade capitalista encontrou a “vingança do real”. O que seria essa realidade para este infeliz?, ela pergunta a si mesma enquanto ceifa algumas vidas a mais para a sua contabilidade extremamente precisa. Para Bratton, é o reencontro com uma perspectiva materialista, cuja meta é rever a importância do corpo, a ser agora governado por uma instância burocrática global que finalmente resolveria qualquer espécie de problema sanitário – em especial, uma pandemia, como agora chamam a última variação da peste. Ela (ou seria ele?) reconhece nessas ideias algo semelhante ao que o italiano Giorgio Agamben já escrevia sobre o “triunfo da biopolítica” (por sua vez, inspirado por aquele careca célebre, Foucault). Por coincidência, foi o mesmo Agamben que escreveu, durante o último surto da moléstia na Itália, que tudo não passava de uma grande ilusão, fabricada pelos estados nacionais, para subjugar ainda mais a população em um permanente “estado de exceção”. O vírus gostou deste raciocínio – menos Benjamin Bratton. Na sua “vingança do real”, a peste percebeu que, na verdade, todo o livro do pensador americano só tinha uma intenção: atacar Agamben. “Que briguem, desgraçados. Neste caso, eu torço pela treta”, ela diz (ou seria ele?), devidamente atualizada na língua das redes sociais (outro palco favorito seu). O que a leva agora a Niall Ferguson. De todas as análises, é o seu favorito. O historiador escocês mostra, em detalhes, como qualquer tentativa de compreender a peste – e, sobretudo, de evitá-la – terminará inevitavelmente em fracasso absoluto. E por motivo muito simples: ela é, por sua própria natureza, inescrutável. Em geral, história e doenças andam de mãos dadas, também acompanhadas pelo acaso. Quando ele (ou ela?) lia a obra de Ferguson, não parava de pensar numa outra seta, semelhante à de Apolo, a ser relembrada por outro grego – no caso o estagirita Aristóteles: “Sorte é a seta que atinge a pessoa que está ao seu lado”; e não fica nem um pouco triste ao admitir, como escreve Ferguson, que se você sobreviver a uma catástrofe de proporções épicas (como o que aconteceu a partir de 2020), a única conclusão que lhe resta é que a peste (ou o vírus?) não estava nem aí pela sua pessoa, em todos os sentidos desta expressão. Contudo, há um ponto em que o escocês não consegue aprofundar: se tudo não passa de um problema sistêmico, de um panorama de desastres civilizacionais dos quais a humanidade não tem condições técnicas e políticas de resolvê-los – então, não haveria responsabilidade nenhuma por essas ações ou omissões? Ninguém seria culpado? Todos estariam livres para cometerem suas sandices? A peste dá outra gargalhada. Pois ela (ou seria ele?) sabe que esta é a meta final da sua existência (ou da ausência dela). A confusão é o seu reino, a tragédia é o seu espetáculo. É tudo isso o que ela deseja: o fato de que ninguém saiba mais o que deve ser feito quando ela contamina a todos, inclusive a nossa noção de certo e de errado, o que é verdade e o que é mentira. Apesar de admitir, por exemplo, que líderes como Donald Trump e Jair Bolsonaro foram imprudentes na condução deste desastre contemporâneo, Ferguson cai nessa esparrela, imperdoável para quem faz da história a sua profissão. Ela (ou ele?), se fosse sua amiga (mas espera-se que ninguém anseie por tal preocupação), até o avisaria disso; contudo, o que ganharia? Nada, é claro – apesar de que o “nada” é tudo o que ele (ou seria ela?) planeja. Quando o vírus surgir novamente, sob quaisquer outros disfarces, não alertará a ninguém que é óbvio que há uma responsabilidade objetiva em tudo o que o ser humano realiza neste globo terrestre, ao menos enquanto houver algum traço de consciência individual a andar por essas plagas. Afinal, para quê contar essa verdade? É no reino da mentira que ela (ou seria ele?) prolifera. Já dizia um outro escriba que narrou os feitos da doença no distante século 17, Daniel Defoe: “Uma peste é um inimigo formidável, e arma-se com terrores que nenhum homem está suficientemente preparado para combater, muito menos lidar com o choque que vem dela”. Nenhum homem pretende assumir o fardo de que ele é, em si mesmo, uma doença a ser extinguida da face da terra. Mas, por outro lado, ninguém quer admitir que, entre catástrofes e falsidades, há um outro reino a nos sustentar, por incrível que pareça. Porém, ao ouvir isso de novo, o vírus (ou seria a peste?) deixa de sorrir e busca outras vítimas para alimentar o vazio que consome o seu único inimigo – no caso, o nosso universo. Quem viver verá. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: EVENTO: 1o Congresso Internacional José Ortega y GassetNo dia 27 de maio (quarta-feira), darei uma palestra às 15h30, sobre o tema Contra Uma Filosofia Dos Espectros: Ortega e a nossa “religião da modernidade”, no 1o Congresso Internacional José Ortega y Gasset, que acontecerá no espaço INNSIDE do Meliá Hotel na Rua Iguatemi (endereço na imagem acima). Obviamente, estão todos convidados, mas antes precisam se inscrever neste link. As vagas são limitadas. AVISO: NOVO CURSO - RAÍZES (E CONSEQÜÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIROUM TRECHO LOGO ABAIXO:Queridos leitores: Temos um novo curso: RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO. (No decorrer das aulas, os alunos perceberão que eu falo “Raízes do autoritarismo brasileiro” o tempo todo, mas o nosso departamento de marketing resolveu alterar o título para melhorar as vendas. Não vou discutir.) Trata-se de um prosseguimento do assunto que abordei nos cursos anteriores (mas agora aplicados na perspectiva brasileira), De Zero a Nero - O que Shakespeare ensinou a Peter Thiel sobre os rumos da liderança, e Além do Zero: Vivendo na Religião da Tecnologia, que você pode adquirir respectivamente aqui e aqui. Serão seis aulas, de 30 minutos a 1 hora de duração, todas já gravadas. Aqui vão os temas abordados: O curso é também uma reflexão sobre certas obsessões minhas e que me acompanham desde a época do meu segundo livro, A Poeira da Glória (2015) e depois em A Tirania dos Especialistas (2019), indo até A Disciplina do Deserto, minha obra derradeira. Este livro será publicado em 2026, se os deuses do mercado editorial permitirem. Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará o curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo:martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - CURSO RAÍZES TOTALITARISMO -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível do curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription.
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quarta-feira, 13 de maio de 2026
Um Inimigo Formidável
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