Obrigado pela sua leitura! Hamlet dizia que o universo caberia em uma casca de noz. O mesmo pode se dizer de alguns homens que já passaram por aqui. Cito três nomes a esmo: Platão, Carlos Alberto Nunes e George Steiner. Comecemos pelo terceiro, morto aos 90 anos de idade em 2020. Sua última obra foi The poetry of thought, pequeno livro que fala sobre as relações escusas entre literatura e filosofia. O tema suscita debates acalorados: para alguns, a filosofia não pode ser analisada como literatura porque a primeira só quer saber de lógica, de exatidão, de raciocínios que parecem ter saído de geração espontânea; para outros, não há nenhum problema relacionar uma com a outra porque ambas dependem da linguagem humana (em particular, da escrita) e, com isso, deveremos supor que o pensamento teve sua origem em alguém que era de carne, osso — e alguma espécie de alma. Steiner fez parte deste último time. Acreditava piamente que a filosofia deve ser tratada como literatura e vice-versa. Para provar o seu ponto, usa de todos os recursos que o estilo argumentativo nos dá: pula de um autor para outro sem nenhuma cerimônia, faz curto-circuito com truísmos que precisaram de séculos para chegar às suas conclusões, cria trocadilhos com termos em inglês, em alemão e até mesmo em grego e latim. Em tempos de digital barbarism (como diria Mark Helprin), Steiner foi um Google vivo, um antecipador das LLMs (muito mais preciso, é claro), sem que precisasse de um mouse para clicar e descobrir as relações secretas que temos com o mundo maravilhoso da cultura. No quarto capítulo do seu livro, Steiner discorre sobre Platão. Pergunta-se se alguém já analisou o filósofo dos filósofos (Aristóteles que me desculpe, mas Aristeu sempre foi o primeiro) no aspecto puramente literário. Todos leem os diálogos platônicos (o uso do adjetivo diz muito sobre o impacto de Platão nos nossos dias) como se fossem tratados filosóficos. Não são. Foram elaborados como obras de arte, como peças de verdadeira literatura que ele desejava criar uma nova espécie de forma (eidos) de ver o mundo — no caso, a Atenas em crise e prestes a entrar em uma decadência espiritual raras vezes imaginada pela própria população. Platão recuperou a verdadeira experiência de conviver com um sujeito chamado Sócrates e também restaurou os princípios morais que seus conterrâneos perdiam pouco a pouco. Em outras palavras: salvou a Grécia sem que ela soubesse. Graças a Platão, temos um compêndio de como foram vistas as tragédias; quais eram os métodos dos sofistas; como as pessoas riam das comédias de Aristófanes; de como foi o choque de ver Sócrates morrer com um gole de cicuta; de como era o guerreiro Alcebíades era afetado; e, o principal, de como foi testemunhar o fim de um mundo. No Brasil, quem nos deu tudo isso ao nosso vernáculo foi Carlos Alberto Nunes, que, como se não bastasse, também resolveu traduzir Shakespeare na íntegra. Fez o mesmo com Platão. Não satisfeito, traduziu Homero. Se tivesse feito um terço do que pretendia, já merecia estátua, nome de praça, placa de rua e um feriado para homenageá-lo. Mas estamos no Patropi e seu empreendimento foi esquecido por muito, muito tempo. Havia uma edição das obras completas de Platão traduzidas por Nunes lançada pela Editora Melhoramentos: uma capa dura vermelha, com desenhos saídos da Enciclopédia Barsa. Depois, a Universidade Federal do Pará fez uma nova tiragem, com supervisão do primo de Carlos Alberto, o filósofo Benedito Nunes, falecido em 2011. Era um oásis no meio do deserto. Lembro-me que, por exemplo, o IFE, instituto que publicou a Dicta&Contradicta e do qual fiz parte de sua diretoria durante algum tempo, começou graças a um grupo de alguns malucos que resolveram estudar Platão através desta edição. O resto é história (e esquecimento). Agora, a mesma universidade faz uma nova edição, devidamente caprichada, o que significa que terá também o devido preço duplicado. Cada exemplar custa em média cento e vinte reais. Não se preocupe: vale cada centavo. Desta vez, colocaram o original em grego, para cotejo com a tradução nacional. “Mas o que adianta se não estudo o grego?”, pergunta-se o leigo. Este articulista também não sabe nada de grego. Contudo, gosta de ler as letrinhas, perceber seus desenhos, suas simetrias. E o grego antigo é também uma língua de simetrias, de termos que se amalgamam uns nos outros, criando possibilidades e permutações que, vistas a olho nu, mostram nada mais, nada menos como surgia o raciocínio de Platão. Enfim, você pode ver o próprio homem pensando enquanto o lê. Quem mais pode fazer isso atualmente? Eu diria George Steiner, mas não posso cometer a heresia de comparar os curtos-circuitos do grande crítico cultural com a lucidez e a transparência da imaginação platônica. Platão é o topo e a própria casca de noz que revela ser muitas vezes o próprio universo. O único livro que o supera é certamente a Bíblia — e não por motivos religiosos. A diferença é simples: Platão viu o que acontecia dentro de nós; os escritores bíblicos viram o mesmo — mas através do que acontecia além de tudo. Goethe dizia que no princípio não era o verbo, mas sim a ação. Estava certo em parte. No princípio eram a ação e o verbo. Quem consegue fazer os dois também alcança o paraíso de brinde. Platão e George Steiner ficaram com o verbo; Carlos Alberto Nunes ficou com ambos e foi quase esquecido nesta visão do paraíso chamada Brasil. Esperamos que o futuro nos faça recuperar alguém que não precisa de praça ou placa de rua, porque ainda temos de nos lembrar constantemente que necessitamos dessas pessoas se quisermos ainda ser uma civilização. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: LANÇAMENTO DE “A IMITAÇÃO DO AMANHECER” EM SÃO PAULOA última obra-prima de Bruno Tolentino, o enigmático A Imitação do Amanhecer, terá lançamento presencial, com uma conversa entre os dois editores da Pêssoa Editora, Matheus Araújo e Vicente Pessoa, e Guilherme Malzoni Rabello, um dos integrantes do espólio que cuida da obra do poeta. Mais informações na imagem abaixo. Obviamente, estão todos convidados! AVISO: NOVO CURSO - RAÍZES (E CONSEQÜÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIROUM TRECHO LOGO ABAIXO:Queridos leitores: Temos um novo curso: RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO. (No decorrer das aulas, os alunos perceberão que eu falo “Raízes do autoritarismo brasileiro” o tempo todo, mas o nosso departamento de marketing resolveu alterar o título para melhorar as vendas. Não vou discutir.) Trata-se de um prosseguimento do assunto que abordei nos cursos anteriores (mas agora aplicados na perspectiva brasileira), De Zero a Nero - O que Shakespeare ensinou a Peter Thiel sobre os rumos da liderança, e Além do Zero: Vivendo na Religião da Tecnologia, que você pode adquirir respectivamente aqui e aqui. Serão seis aulas, de 30 minutos a 1 hora de duração, todas já gravadas. Aqui vão os temas abordados: O curso é também uma reflexão sobre certas obsessões minhas e que me acompanham desde a época do meu segundo livro, A Poeira da Glória (2015) e depois em A Tirania dos Especialistas (2019), indo até A Disciplina do Deserto, minha obra derradeira. Este livro será publicado em 2026, se os deuses do mercado editorial permitirem. Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará o curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo:martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - CURSO RAÍZES TOTALITARISMO -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível do curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC Invite your friends and earn rewards
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sexta-feira, 8 de maio de 2026
De Como Se Faz Uma Civilização
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