Obrigado pela sua leitura! Este texto já foi publicado aqui há três anos, somente para os assinantes pagos desta newsletter, mas depois da lista dos melhores livros de não-ficção do século 21 publicada pela Folha de S. Paulo, tornou-se absolutamente relevante, talvez até mais relevante do que a própria lista em si (que simplesmente flopou devido ao terceiro atentado sofrido por Donald Trump no último fim-de-semana). Portanto, republico-o, agora aberto a todos os leitores, com alguns acréscimos, atualizações e revisões. Divirtam-se. O único problema de rir por último é que o vencedor tem que rir sozinho. Nassim Nicholas Taleb Todo mundo sabe que o Brasil é um país de memória curta; porém, ninguém esperava (minto: eu não esperava) que houvesse um silêncio sepulcral sobre um fato que aconteceu há treze anos, mas que mudou para sempre a nossa História. A sua ausência na lista dos melhores (leia-se: os mais relevantes) livros de não ficção do século 21, divulgada pela Folha neste último domingo, só confirma esta afirmação. Falo do lançamento, ocorrido mais precisamente em 13 de agosto de 2013, do livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, de Olavo de Carvalho - e não seria um exagero afirmar que ele foi o Torto Arado da sua época. A obra foi publicada pela Editora Record, organizada por Felipe Moura Brasil, tornou-se um sucesso estrondoso de vendas e, em outubro de 2018, foi exibida como troféu por Jair Bolsonaro em seu primeiro pronunciamento depois de ter sido eleito ao cargo de presidente da República (havia também na mesa a Bíblia e as Memórias da Segunda Guerra Mundial, de Winston Churchill, mas a imprensa, com sua miopia habitual, só se preocupou com a presença do livro de Olavo). O resto da história, vocês já sabem (eu espero): Olavo tornou-se uma eminência parda no governo Bolsonaro; criou o discurso amalucado de desprezar a pandemia do coronavírus; defendeu golpe de Estado contra o Congresso Nacional; ficou doente; foi se tratar no Brasil (mesmo exilado por conta própria nos EUA); fugiu via Paraguai quando soube que Alexandre de Moraes iria pegá-lo no quarto do hospital do HCor; e, meses depois, morreu da mesma doença que ele menosprezou com tanto afinco (os seguidores de Olavo dirão que não foi nada disso, mas foi, sim). O que vocês não sabem (ou, pior, não querem se lembrar) é que, durante esse meio tempo, todo mundo se esqueceu de que este mesmo livro foi algum dia publicado: a Editora Record o tirou de circulação assim que percebeu (tardiamente) que Olavo não batia bem da cabeça (a decisão corajosa veio do publisher Carlos Andreazza); o seu organizador, Felipe Moura Brasil, posteriormente resolveu processar Olavo (infelizmente, falecido antes do veredito), e não publicou qualquer outro livro, preferindo investir na carreira jornalística. Já os seguidores de Olavo – os chamados olavettes – sequer citam a existência da publicação, como se ela fosse uma lepra que, ao menor sinal de ser mencionada, mancharia a reputação de quem proferir tal lembrança. (Aliás, eles praticam isso com qualquer um que saiu do cabresto mental deles; é só ver o boicote que fizeram com o catálogo da É Realizações ou até mesmo com este pobre escriba que vos fala, com seu Crise e Utopia expurgado da lista da Vide Editorial - a empresa olavette por excelência - por uma ordem proferida pelo próprio Olavo; e não podemos nos esquecer que a mesma Vide, por meio de um dos seus inúmeros selos, criou uma coleção introdutória intitulada justamente “O mínimo sobre”, numa apropriação cultural que faria corar o ministro dos Direitos Humanos Sílvio Almeida - aliás, outro esquecido na lista da Folha, com mirrados seis votos) Nem Mein Kampf, de Adolf Hitler, teve esse destino. O que nos leva à seguinte pergunta: o livro merecia esta sorte funesta? Eu – justo eu, que fui xingado por todos os nomes por Olavo (inclusive de um apelido que já indicava a demência do escritor, tamanha a sua ruindade); que já defendi publicamente a sua prisão e a dos seus defensores no ápice da pandemia (uma coisa é disseminação de conhecimento; outra é incitação ao crime e se opor ao bem da saúde pública); e que fui um apologeta do seu pensamento no passado, para depois ir contra o círculo íntimo de loucura que ele impôs à minha geração, sendo assim chamado de traidor ou ingrato –, eu, sim eu, afirmo com todas as letras: não, não merecia. Explico-me: não reitero isto pelas qualidades intrínsecas da publicação. O mínimo é um livro que envelheceu mal. Os treze anos posteriores ao seu lançamento não foram felizes para a sua reputação. Do prefácio laudatório de Felipe Moura Brasil à seleção dos temas, tudo cheira a ... Jair Bolsonaro. Mas, por outro lado, de 2018 aos nossos dias, o debate público no Brasil só piorou. Tudo o que Olavo, Felipe Moura Brasil e outros (inclusive este que vos escreve) defendiam foi transformado, em maior ou menor grau, neste grande guarda-chuva de besteiras apelidado de “extrema-direita” (um eufemismo para nazista, fascista, racista, o escambau). A intelligentsia brasileira – da qual hoje Moura Brasil alegremente faz parte, queira ele ou não – jamais percebeu o abalo sísmico que Olavo provocou no Brasil, ao menos no âmbito da cultura. Preferem tratá-lo como uma excrescência, como um ponto fora da curva, quando, na verdade, ele é a manifestação exata de tudo aquilo que o próprio criticava e chamava (na época em que tinha talento verbal) de O Imbecil Coletivo. É por isso que Olavo ainda tem (alguns) seguidores. E é também por isso que, mesmo com nojo da imprensa e dos apaniguados dos petralhas (sim, Reinaldo Azevedo, a sua expressão deve ser retomada porque aqui a memória ainda sobrevive e eu sei o que você fez no verão passado), ele não é apenas um meme de caveira reforçando que está morto e enterrado. Na verdade, Olavo é um espectro que assombra a vida intelectual de muitas pessoas – e a solução para que isso não aconteça contigo é escrever com toda a sinceridade possível sobre ele e sobre tudo o que o envolva. E isto significa uma coisa que deve ser feita, e de maneira desapaixonada: discutir suas ideias, confrontá-las e separar o joio do trigo pois, por mais que a figura de Olavo seja perturbadora (e é), ele já faz parte da história intelectual brasileira, justamente porque seus escritos fizeram um diagnóstico preciso do que aconteceu na nossa sociedade nos últimos trinta anos (e a solução foi uma catástrofe, como sabemos). E a melhor introdução a este universo, para o bem ou para o mal, ainda é a coletânea concebida por Felipe Moura Brasil. Contudo, o esquecimento deliberado de O mínimo, feito justamente por seus criadores e pelo culto de Olavo (que só chegaram a ter alguma relevância midiática por causa desse livro, é bom lembrar), indica paradoxalmente que o fascínio do autor de O Jardim das Aflições está a se esvanecer com o passar do tempo. E quem o está substituindo na condução do novo Zeitgeist? Ora, ninguém menos que o seu duplo continental, o russo eurasianista Aleksandr Dugin, com quem, aliás, Olavo teve um debate acalorado em 2011, e que perdeu miseravelmente porque o conselheiro-mor de Vladimir Putin sabia manejar com destreza os conceitos do Tradicionalismo de René Guénon e Julius Evola (ninguém mandou Olavo ser um macaco de Frijoft Schuon). As evidências estão aí, diante dos nossos olhos: um canal de YouTube, criado por esbirros bolsonaristas de quinta categoria, faz uma longa e adocicada entrevista com Dugin (o mesmo foi praticado por Breno Altman, o escudeiro de José Dirceu, em uma publicação da esquerda); o autor de um livro sobre Olavo não consegue lançar sua obra na pequena paróquia de uma igreja dominada pelo séquito de Antonio Donato; um movimento político como o MBL, que se dizia liberal, agora abraça cada vez mais as teses totalitárias do eurasianismo; e, pouco a pouco, um jovem e arrogante talento (não vou citar nomes para não constranger o coitado), estudante obcecado por Guénon, fica enamorado por Evola e afirma, por enquanto timidamente, que Dugin não é tão ruim assim. Sem contar, claro, o tio Aldo Rebelo, que é uma mistura do russo com Macunaíma. Lentamente, Aleksandr Dugin substitui Olavo de Carvalho nos corações e nas mentes da juventude da nova direita brasileira que vem aí. Se isso é uma estratégia de propaganda russa ou é um fenômeno espontâneo, provocado pelo velho e bom mimetismo descoberto pelo outro René, o Girard, só o futuro irá dizer. Agora, o que a posteridade prepara para o Torto Arado de Olavo de Carvalho (e para o restante da sua obra) é muito fácil de imaginar: ele será o livro mais amaldiçoado que já foi publicado no Brasil. E quem diria que seria eu, o mesmo sujeito que os olavettes adoram colocar no “cone do silêncio”, a praticar o que tem de ser feito, dentro dos meus limites, para o maior sucesso do mestre deles ser relembrado com alguma dignidade (e sabendo que, no fundo, foi o estopim da gigantesca tragédia da qual ainda sofremos as consequências). Isto é muito engraçado, no mínimo. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: AVISO: NOVO CURSO - RAÍZES (E CONSEQÜÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIROUM TRECHO LOGO ABAIXO:Queridos leitores: Temos um novo curso: RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO. (No decorrer das aulas, os alunos perceberão que eu falo “Raízes do autoritarismo brasileiro” o tempo todo, mas o nosso departamento de marketing resolveu alterar o título para melhorar as vendas. Não vou discutir.) Trata-se de um prosseguimento do assunto que abordei nos cursos anteriores (mas agora aplicados na perspectiva brasileira), De Zero a Nero - O que Shakespeare ensinou a Peter Thiel sobre os rumos da liderança, e Além do Zero: Vivendo na Religião da Tecnologia, que você pode adquirir respectivamente aqui e aqui. Serão seis aulas, de 30 minutos a 1 hora de duração, todas já gravadas. Aqui vão os temas abordados: O curso é também uma reflexão sobre certas obsessões minhas e que me acompanham desde a época do meu segundo livro, A Poeira da Glória (2015) e depois em A Tirania dos Especialistas (2019), indo até A Disciplina do Deserto, minha obra derradeira. Este livro será publicado em 2026, se os deuses do mercado editorial permitirem. Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará o curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo:martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - CURSO RAÍZES TOTALITARISMO -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível do curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription.
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quarta-feira, 29 de abril de 2026
O Livro Mais Amaldiçoado Já Publicado No Brasil
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