Obrigado pela sua leitura! Enquanto você abre esta newsletter para fingir que sabe a respeito do que se passou no mundo real, provavelmente já ouviu falar do caso escabroso ocorrido no final de 2023 e que envolveu Jessica Vitória Canedo, uma jovem de 22 anos que teve conversas particulares (e picantes) vazadas com o comediante Whindersson Nunes, divulgadas pelo site de fofoca “Choquei”. O problema é que o diálogo era mentiroso, a moça nunca teve uma relação aprofundada com Nunes - e, para piorar as coisas, ela teria cometido suicídio naquela mesma madrugada, segundo informação transmitida pela família (que, mesmo assim, não disse a causa exata da morte). Seis meses depois, a polícia concluiu o inquérito afirmando que foi Jessica quem criou e divulgou a montagem com as mensagens falsas. Porém, até lá, as conexões entre os fatos foram feitas imediatamente - e as redes sociais entraram em ponto de ebulição. Criado em novembro de 2014, o “Choquei” era uma página mirrada de Twitter e Instagram que ficou notória porque, antes, fazia parte da Banca Digital, a agência de influenciadores da Mynd8, uma das mais poderosas empresas de publicidade que surgiu recentemente no Brasil. Mas não foi só isso: o site de fofocas era um dos favoritos de D. Rosângela Silva, também conhecida como Janja - sim, a primeira-dama da República -, chegando ao ponto de que ela participava de publicações em que dava exclusividade a viagens oficiais, com direito a “furos” sobre o trajeto de Lula ou onde o presidente iria fazer suas compras no exterior. Em janeiro de 2022, apesar da Banca Digital negar que a “Choquei” participava da sua lista de clientes, ela ainda assim estava dentro da página da Mynd8 (e esta nunca fez nenhuma menção ao site). Entre os influenciadores e as celebridades que usaram dos seus serviços, há os nomes de Pablo Vittar, Luiza Sonza e a falecida Preta Gil (que, aliás, era uma das donas da empresa). Os nomes dos “artistas” que são do portfólio da Mynd8 revelam uma rede subterrânea que, de forma direta e indireta, atinge o debate público no Brasil. Em outras palavras: você, como leitor, acha que está lendo uma notícia que deveria ser verdadeira, mas aquilo foi criado apenas para alterar a sua percepção a respeito de como aquela personalidade se comporta na vida real (e que, geralmente, não passa de uma rematada mentira). Além disso, há uma estratégia deliberada para, com o intuito de prejudicar a carreira de concorrentes na mesma área, criar um clima de “cancelamento” permanente. No centro desse emaranhado de interesses, há a figura ambígua de Raphael Gomes, um jovem de 29 anos que fazia anúncios virtuais para empresas de sua cidade-natal, Goiânia, e teve uma ascensão social e financeira impressionante. De acordo com um pequeno perfil feito pela revista Piauí sobre sua pessoa,
(Dois detalhes sobre este trecho - e a importância dele ser publicado aqui de forma extensa. O primeiro é que, ao citar quem comanda a Banca Digital, o nome de Preta Gil sequer foi mencionado; o segundo é que isto acontece justamente na matéria referida no link, que é sobre a mesma Banca Digital, cujo título é, por uma estranha coincidência, igual ao de uma reportagem semelhante que a Piauí publicou há alguns anos, de autoria de Luis Maklouf Carvalho, sobre a FSB, a mais poderosa agência de comunicação corporativa, responsável por influenciar diversas pautas de redação - e a qual ninguém consegue acessar porque o texto está fechado para assinantes da revista. Será um sinal ou somente falta de criatividade dos editores?) Desde então, Raphael foi o Judas da vez, e trancou o seu perfil no Instagram. As acusações foram as de sempre: a de que ele se vendeu para o governo Lula; a de que é necessário ter uma lei de regulamentação das redes sociais para impedir tragédias como a de Jessica; a de que a página de fofocas precisa ser responsabilizada criminalmente pela morte da moça. A situação ficou tão grave para o rapaz de Goiânia que o “Choquei” foi jogado aos leões por um dos maiores concorrentes da Banda Digital, o “influenciador-metido-a-intelectual-público” Felipe Neto. Todas essas afirmações têm um fundo de verdade - mas não ajudam a entender o problema que ronda esse mundo subterrâneo dos influenciadores que afeta vidas, sem ter nenhuma responsabilidade com as consequências, às vezes mortais. E o problema é o seguinte, meus caros leitores: ninguém sabe o que fazer com este “novo” mundo. Ele já faz parte da nossa realidade, não há como evitá-lo e teremos de aprender a conviver com sua crueldade intrínseca. E não é um mundo tão “novo” assim. Historicamente, a imprensa e a fofoca sempre caminharam de mãos dadas desde o início dos tempos. Poucas pessoas se lembram, mas no início do século XX havia um homem chamado William Randolph Hearst, que simplesmente controlava todo o jornalismo dos EUA (aqui, no Brasil, o equivalente foi Assis Chateaubriand, com o seu conglomerado dos Diários Associados, personagem de uma bela biografia de Fernando Morais, Chatô - O Rei do Brasil). Segundo Otto Friedrich, em seu clássico A Cidade das Redes,
A distância histórica do trecho acima mostra algo que ainda não conseguimos entender agora, justamente porque estamos no centro do ciclone: semelhante a Hearst naqueles tempos e que, ainda assim, conseguiu prejudicar a carreira de Orson Welles - diretor de um filme baseado na sua trajetória (o famoso Cidadão Kane) -, o mundo subterrâneo dos influenciadores também irá perder dinheiro no longo prazo, com um poder limitado sobre a percepção da sociedade. Não foi por acaso que Raphael Gomes, o dono da Choquei, foi preso na semana passada numa operação da Polícia Federal, acusado de participar de um esquema de lavagem de dinheiro e de formação de quadrilha (total: mais de R$ 1,5 bilhão), junto com os influenciadores MC Ryan e MC Poze, suspeitos de serem parte de nada mais, nada menos que o famigerado Primeiro Comando da Capital, a.k.a. PCC. Porém, antes que o imperador ficasse nu, muitas pessoas tiveram a sua reputação abalada e, assim como a família de Jessica Vitória Canedo, suas vidas completamente alteradas - e para pior. E, obviamente, ninguém ficou chocado com isso. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: AVISO: NOVO CURSO - RAÍZES (E CONSEQÜÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIROUM TRECHO LOGO ABAIXO:Queridos leitores: Temos um novo curso: RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO. (No decorrer das aulas, os alunos perceberão que eu falo “Raízes do autoritarismo brasileiro” o tempo todo, mas o nosso departamento de marketing resolveu alterar o título para melhorar as vendas. Não vou discutir.) Trata-se de um prosseguimento do assunto que abordei nos cursos anteriores (mas agora aplicados na perspectiva brasileira), De Zero a Nero - O que Shakespeare ensinou a Peter Thiel sobre os rumos da liderança, e Além do Zero: Vivendo na Religião da Tecnologia, que você pode adquirir respectivamente aqui e aqui. Serão seis aulas, de 30 minutos a 1 hora de duração, todas já gravadas. Aqui vão os temas abordados: O curso é também uma reflexão sobre certas obsessões minhas e que me acompanham desde a época do meu segundo livro, A Poeira da Glória (2015) e depois em A Tirania dos Especialistas (2019), indo até A Disciplina do Deserto, minha obra derradeira. Este livro será publicado em 2026, se os deuses do mercado editorial permitirem. Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará o curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo:martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - CURSO RAÍZES TOTALITARISMO -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível do curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription.
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quarta-feira, 22 de abril de 2026
Choque De Realidade
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