Ao Mestre com CarinhoSobre Fazer Filmes vale tanto para o cineasta experiente e calejado quanto para o neófito. Isso se dá pela precisão do livro e dos ensinamentos de Mackendrick.
Ao mestre com carinho Por Luis Villaverde Quando pensamos na vida e obra de um cineasta, inevitavelmente olhamos para todos os projetos que ele dirigiu, sejam curtas, longas e mesmo comerciais de TV ou videoclipes. Mas também temos os casos de cineastas que desenvolveram textos, ensaios e livros, como Pasolini, Tarkovsky, Lumet e Truffaut. Mas também temos o caso raro do cineasta que dedicou parte considerável de sua vida para o ensino. Ensinar cinema é complicado, não só por que se trata de uma arte colaborativa e multidisciplinar, que agrega escrita, dramaturgia, música e fotografia - entre tantas outras coisas - mas também por ser notoriamente difícil de definir. Como ensinar o que é a essência do cinema? Tradicionalmente é o diretor que precisa ter a visão que reúne todas essas disciplinas sob uma única visão, que conduz o filme - seja ele uma ficção ou documentário ou o que for - até a sua exibição para um público de massa. Ensinar cinema é buscar compreender aquilo que é a sua essência. E é exatamente isso que Alexander Mackendrick (1912-1993) tenta fazer em seu livro Sobre Fazer Filmes: uma introdução ao trabalho do diretor, recém-lançado no Brasil pela editora Martins Fontes. Trata-se de um pequeno milagre, tendo em vista não só a riqueza do material e do status do seu autor no cânone da Sétima Arte, mas também por que o livro vai na contramão de toda a literatura de manuais de cinema que existem por aí. Para além da didática, Sobre Fazer Filmes é resultado de uma investigação longa e minuciosa sobre a natureza do trabalho de se fazer cinema, feita por um dos diretores mais consagrados do meio. Apesar de ter nascido em Boston, a família Mackendrick voltou para a Escócia após a morte prematura do patriarca. Desde cedo Alexander Mackendrick mostrou aptidão para as artes. Começou sua carreira na agência de publicidade J. Walter Thompson, onde trabalhou como designer, redator e diretor de filmes comerciais e, durante a Segunda Guerra Mundial, realizou peças de propaganda, chegando inclusive a acompanhar a invasão Aliada da Itália. Após o término do conflito, ingressou no estúdio britânico Ealing, onde trabalhou como desenhista de storyboards, cenógrafo e roteirista em diversas produções, até eventualmente dirigir seu primeiro longa-metragem, a comédia Alegrias a granel (1949). A carreira de Mackendrick é dividida em duas fases: primeiro como diretor e, depois, como professor. De 1949 a 1967 dirigiu nove filmes, sendo os cinco primeiros comédias brilhantes, como O homem do terno branco (1951) e O quinteto da morte (1955), que permanecem como os melhores exemplos do gênero do cinema britânico. Aquilo que hoje chamamos de “humor britânico” foi em larga medida desenvolvida por Mackendrick e seus colaboradores nos anos 50, trabalhando em oposição ao estilo realista banal que dominava a cinematografia inglesa desde os anos 30. Nos Estados Unidos, Mackendrick realizou aquele que é sem dúvida seu filme mais famoso, A embriaguez do sucesso (1957), que não obstante seja hoje em dia considerado um clássico, amargou nas bilheterias. Mackendrick faria somente mais três filmes, no geral dramas focados em crianças envoltas no mundo de adultos, com fortes figuras paternas (não há nenhum idealismo nesses relacionamentos, diga-se). Se há uma linha geral temática que podemos traçar em todos os seus filmes é um certo temperamento sombrio - ou noir. Seu universo ficcional é marcado por personagens que existem à margem da sociedade “respeitável”. Muitos deles são golpistas, escroques e canalhas, ou então bufões tolos que são manipulados a contento por tipos mais inescrupulosos. Mesmo nas suas comédias podemos detectar esse elemento mais cínico e amargo, uma desconfiança com o mundo que emergiu das ruínas da Segunda Guerra Mundial: a Inglaterra vivendo seus tempos de pós-Império, com seus valores morais e culturais escorrendo pelo ralo, deixando somente a escumalha na superfície; nos Estados Unidos, o triunfalismo da vitória, somada a uma nova etapa particularmente selvagem do capitalismo, resultaram num peso corruptor na sociedade norte-americana. Isso é notório em A embriaguez do sucesso, sem dúvida um dos filmes mais ácidos, amargos e perturbadores que Hollywood já produziu. A Embriaguez do Sucesso (1957) detalha o sórdido mundo do showbiz de Manhattan, mostrando esse universo pela perspectiva da arraia-miúda que sustenta a indústria do entretenimento, acompanhando assessores de imprensa, colunistas de fofoca, músicos de jazz e cigarette girls. Todo mundo tem segundas e terceiras intenções, ninguém é digno de confiança e, mais importante, todos tem um preço - e a moeda de troca pode ser dinheiro, sexo, poder ou fama. Com uma câmera rápida e ágil, além de uma deslumbrante fotografia noir em locações, realizada pelo mestre James Wong Howe; diálogos precisos e espirituosos de Clifford Odets; e atuações memoráveis de Tony Curtis como um assessor de imprensa inescrupuloso e Burt Lancaster como um poderoso e perverso colunista social, A Embriaguez do Sucesso é nada menos que uma obra-prima, e um filme que fica confortavelmente ao lado de clássicos noir do período, como A Marca da Maldade, de Orson Welles e Um corpo que cai, de Alfred Hitchcock. Sempre o perfeccionista, Mackendrick pelo menos conseguiu se beneficiar da rigidez e da previsibilidade que mantinham o antigo sistema de produção dos grandes estúdios funcionando. Após 1955 esse sistema ruiu nos dois lados do Atlântico, e era esperado que diretores, agora independentes, vendessem seus projetos e talentos. Mackendrick se ressentiu de ver sua amada profissão reduzida ao mero status de um vendedor de filmes. Ele gradualmente percebeu que não havia mais espaço para uma pessoa como ele nesta nova Hollywood. Cansado daquilo que John Carpenter tão eloquentemente denominou de “Hollywood bullshit”, Mackendrick decidiu se voltar para o ensino, assumindo uma cadeira como reitor na California Institute of the Arts, instituição criada e financiada por Walt e Roy Disney. Assim começa a segunda fase de sua carreira, em 1969. A CalArts tinha como missão a formação de artistas em um ambiente livre e experimental. Para Mackendrick, a posição era um espaço valioso em que ele poderia explorar questões que o intrigavam desde os seus tempos de aprendiz no Ealing: o cinema pode ser ensinado? Ao longo de suas duas décadas como professor, Mackendrick compôs uma quase infinidade de apostilas, textos, exercícios, ilustrações e diagramas, que compreendem desde a fase de roteirização até a montagem de um filme, passando por técnicas de escrita de diálogos, direção de atores e posicionamento de câmera. Esse material foi reunido e compilado por Paul Cronin, gerando o livro em questão (para todos os efeitos, Mackendrick considerava os escritos de Sobre Fazer Filmes a verdadeira obra de sua vida, e seu legado mais duradouro). Seu princípio norteador é simples: como contar a melhor história possível se utilizando de todos os recursos cinematográficos à mão. Dividido em duas partes, sendo a primeira, grosso modo, dedicada ao roteiro, e a segunda à direção de atores e decupagem de câmera, ambas partes se unem num todo coerente. O resultado é um livro didático sobre cinema bastante peculiar. Quando Mackendrick adentra discussões sobre eixo de câmera, ou como comprimir o tempo de uma ação real para que ele se torne mais cinematográfico - uma parte mais técnica, e que já envolve posicionamento de câmera, escolha de lentes e marcação de elenco -, sua discussão prévia sobre composição de roteiro influencia todas essas decisões e ensinamentos. Na verdade, não há uma separação entre a fase do roteiro e a fase da direção no set. É na explicação de cada uma dessas etapas que o detalhismo de Mackendrick aparece, representado na forma de diversos exercícios, técnicas e truques que ele desenvolveu após décadas de prática contínua. Combinando teoria com prática, se amparando em textos que vão de Aristóteles a Graham Greene, passando pela análise de cenas e roteiros, o livro é um material rico que nos permite acessar a mente de um dos realizadores mais consagrados da história do cinema. É surpreendente ver como ele consegue costurar referências à dramaturgia aristótelica com a composição de escaletas, por exemplo. Indo do teórico ao prático, chama a atenção a clareza cristalina do texto de Mackendrick, gerando uma leitura fácil e ágil. Isso sem dúvida destoa de todos os manuais de cinema e roteiro que abundam no mercado e nas oficinas e cursos por aí. Não há também fórmulas encantatórias que garantem um “roteiro de sucesso” ou qualquer coisa do tipo. Para ele, fazer cinema é um processo constante de prática e refação, algo que exige disciplina e rigor. Uma das formas como isso aparece no livro é como ele encoraja os alunos a reescreverem e a repensarem continuamente os roteiros. Uma linha comum aqui é a de estimular a imaginação. Estudando o roteiro de O terceiro homem (1949, de Carol Reed), clássico film noir roteirizado por Graham Greene, Mackendrick propõe um exercício de reescrever a mesma história trocando os pontos de vista de cada personagem. O objetivo, aqui, é descobrir quem realmente é o protagonista da sua história. Nesse caso em específico, vemos caminhos alternativos da mesma história aparecerem, mas Mackendrick direciona seus alunos a sempre buscarem o caminho que exprime o máximo de ação dramática. Essa mesma linha imaginativa reaparece na discussão sobre enquadramentos, decupagem de cena e montagem. O tempo todo o diretor precisa estar pensando e repensando a cena em todas as suas possibilidades - por isso que ter um roteiro bem construído, e atores bem preparados, já é metade do caminho. Apesar de comentar sobre filmes como Cidadão Kane (e outros que ficaram de fora da edição de Cronin), o mais interessante é ver a forma como Mackendrick discutia os próprios filmes. O capítulo mais longo do livro é dedicado a examinar uma das cenas mais complexas de A embriaguez do sucesso: o momento em que J.J. Hunsecker (Burt Lancaster) é apresentado, sentado à mesa de um restaurante, e é importunado por Sidney Falco (Tony Curtis). Temos mais outros três personagens na mesa, entre eles um poderoso senador. A cena é uma maestria de diálogo, decupagem, montagem e direção de atores, e Mackendrick nos expõe como ele construiu minuciosamente a cena com seus atores, fotógrafo e roteirista. O foco do capítulo é examinar a construção de subtexto nos diálogos: Hunsecker é ríspido e grosseiro com o senador, mas na verdade dirige seus ataques a Sidney; seus convidados à mesa vão apenas gradualmente compreendendo que estão sendo usados por Hunsecker, que se dirige a Sidney quando pretende atacar o senador (uma técnica de diálogo que Mackendrick chamava de “ricochete”). Mackendrick explora também questões como construção de ritmo e a composição de personagens coadjuvantes que servem como contrastes aos seus protagonistas. Assim, é interessante também ver como ele enxergava o diretor como essencialmente um intérprete, alguém que deve primeiro ter uma forte intuição sobre a história que quer contar para que, num segundo momento, ele descubra como deve refinar essa intuição com técnicas e experiência adquiridos com a prática. Mackendrick encoraja seus alunos a estudarem atuação e drama, a escreverem contos e ficção e, por fim, terem alguma noção de desenho, para que rascunhem seus próprios storyboards. Parece muito? Sem dúvida. Mas Mackendrick queria preparar seus alunos para um mercado exigente, duro e muitas vezes injusto. Como Sidney Falco (Curtis) afirma em A Embriaguez do Sucesso: “Acorde! É assim que o mundo é!”, Mackendrick parece querer preparar seus alunos para o mundo cínico e muitas vezes cruel da indústria do entretenimento. Em 17 de janeiro de 1994 um terremoto abalou Los Angeles e destruiu boa parte do campus da CalArts. A biblioteca foi destruída, lançando livros e documentos por toda parte, que depois foram encharcados pela água dispensada pelo sistema de sprinklers. O material de Mackendrick, no entanto, ficou intacto: estava cuidadosamente organizado em caixas na garagem da faculdade, tendo em visto que o cineasta-professor havia morrido poucas semanas antes (os alunos e professores brincaram dizendo que o terremoto era resultado da primeira discussão do sempre combativo Mackendrick com Deus). Esses documentos sobreviventes representam somente uma fração do trabalho docente de Mackendrick, cuja importância de Mackendrick para a história do cinema vem sendo gradualmente reconhecida. Além de estudos sobre sua obra, por Philip Kemp e James Naremore, além do próprio Sobre Fazer Filmes, ao menos onze livros sobre ele vem sendo preparados, sendo três deles materiais didáticos, que completariam uma trilogia formada pelo livro em questão. Mas mesmo a didática é uma parte de sua vida e obra: Mackendrick escreveu peças, inúmeras resenhas de livros, análises e estudos detalhados sobre roteiros e filmes d outros cineastas e também jornalismo - foi radialista durante a guerra (além de ter incentivado a produção local - foi ele quem autorizou a produção de Roma, cidade aberta, em 1945, filme de Roberto Rosselini que marca o início do neorrealismo). Mesmo com essas publicações no horizonte, Sobre Fazer Filmes continua sendo um livro fundamental para compreendermos não só o cinema, mas principalmente a prática de se fazer filmes, além de ser um fascinante vislumbre para a mente e os métodos de um cineasta reverenciado por gente como Martin Scorsese, Michael Powell, Joel e Ethan Coen, James Mangold e, mais recentemente, os irmãos Benny e Josh Safdie. Não espere a equação completa do cinema neste livro. O próprio subtítulo anuncia que se trata de “Uma introdução ao trabalho do diretor” e não “A introdução”. No epílogo, Mackendrick é enfático: não existem regras definitivas e imutáveis. Cinema é muitas coisas, e elas estão em constante evolução. Acreditar em regras e segui-las à risca não é garantia de sucesso - na verdade, é o contrário - e, hoje em dia, elas mais servem para treinar algoritmos e ferramentas de Inteligência Artificial do que a fazer bons filmes. Mas existem técnicas, recorrências e elementos que funcionaram no passado, e que continuam funcionando hoje. Mackendrick ambiciona depurar as essências desses elementos para determinar o específico da arte cinematográfica. Por isso, Sobre Fazer Filmes também ganha uma importância maior nos dias de hoje. Não vivemos mais o “Século do Cinema” mas sim a “Era do Conteúdo”. Cinema, TV, vídeos do YouTube, matérias de jornal e dancinhas do TikTok - tudo é conteúdo. A nivelação e bastardização da Sétima Arte sob essa rubrica genérica serve somente para desvalorizar a arte como um todo. Segundo Mackendrick, se 70-80% de um filme puder ser compreendido, mesmo que seu diálogo seja em uma língua estrangeira, então se trata de um “filme de verdade”. Esse é sem dúvida um ensinamento valioso para os dias de hoje (um dos capítulos mais valiosos do livro é, justamente, “Cortando Diálogos”). Por isso é importante estressar o quanto que o livro e a própria didática de Mackendrick são resultado de um artista que chegou à teoria depois de décadas trabalhando a prática e a técnica. Há uma investigação aqui, não só sobre a linguagem cinematográfica e a dramaturgia, mas sobre a natureza de se contar histórias em um meio que ainda é muito jovem, uma arte que chegou aos cem anos de idade há pouco tempo. Apesar de olhar para o passado, a preocupação de Mackendrick é com o futuro - no caso, seus alunos. Sobre Fazer Filmes vale tanto para o cineasta experiente e calejado quanto para o neófito. Isso se dá pela precisão do livro e dos ensinamentos de Mackendrick. De certa maneira, seu estilo é mais antiquado e modesto. Não há uma defesa romântica ou filosófica da arte aqui. O que temos são décadas de experiência e genialidade condensados em reflexões que visam o aprendizado pela prática constante e esforçado. Para Mackendrick, a arte narrativa cinematográfica é uma experiência comunal enriquecedora e fundamental aos seres humanos - algo que fazemos desde os tempos de Aristóteles. É um privilégio podermos acessar os ensinamentos de um dos seus maiores mestres. E ora, se o próprio Martin Scorsese - que assina o prefácio - diz ter aprendido com o livro, sem dúvida você também poderá. O senhor(a) é atualmente um(a) assinante gratuito(a) de Livraria Trabalhar Cansa. Para uma experiência completa, faça upgrade da sua assinatura.
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quarta-feira, 8 de abril de 2026
Ao Mestre com Carinho
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