Obrigado pela sua leitura! Paisagens Da DesolaçãoO que liga Daniel Vorcaro, Bret Easton Ellis, Marcelo Odebrecht, Malu Gaspar e U2?Poucas pessoas se lembram, mas Patrick Bateman fez trinta anos em novembro de 2022 – pelo menos no mundo real onde vivemos. Já no universo imaginário criado pelo americano Bret Easton Ellis, ele tem vinte e seis anos de idade. É um executivo em Wall Street, obcecado com marcas e objetos de valor, sexo promíscuo e restaurantes caríssimos. Seus hobbies favoritos são mutilar mendigos, estuprar e matar mulheres, além devorá-las com indiscutível prazer. Tudo isso descrito nos mínimos detalhes na década alucinada de 1980. Quando Ellis lançou, em um distante 1991, Psicopata Americano (publicado no Brasil em uma bela edição da Darkside, com tradução primorosa de Paulo Raviere), o romance que contava a trajetória deste ser do subsolo, a polêmica veio naturalmente. Não seria um exagero que o escritor foi um dos primeiros a ser “cancelados” pela própria mídia que ele ironicamente idolatrava em seus livros anteriores, Abaixo de Zero (1985) e As Regras da Atração (1987). Homossexual assumido e frequentador das rodas da alta sociedade que transitam entre Nova Iorque e Los Angeles, Ellis era tão perturbador naquela época para seus pares que a primeira grande editora (Simon & Schuster) a receber o manuscrito de Psicopata Americano afirmou que não iria publicar o livro por causa das acusações internas, feitas por funcionários, de ser “grotesco” e “misógino”. Depois de vários obstáculos, o relato sobre a vida de Patrick Bateman foi lançado por outra editora respeitada (Vintage). Veio então o esperado frenesi midiático. Nos anos seguintes, isso resultou numa boa versão cinematográfica (com Christian Bale no papel principal) e um inusitado musical na Broadway. Porém, a marca do cancelamento o seguiria por um bom tempo. A crítica literária daquela época acompanhou este tipo de miopia. Há um famoso texto de Alberto Manguel, discípulo de Jorge Luis Borges, no qual ele escreve que, ao tentar ler o livro de diversas maneiras, não conseguiu suportar “a debilidade de seu estilo, seu vocabulário magro e a pobreza com que o autor constrói diálogos e descrições impedem qualquer abordagem, exceto a do pornógrafo”. Por causa desse tipo de ofensa, agora considerada um elogio, é muito provável que Manguel será o próximo cancelado - pela posteridade. O fato é que Bret Easton Ellis não é nem uma coisa, nem outra. Talvez ele seja mais um moralista a lá Dostoiévski ou Karl Kraus e menos um pervertido malgré lui como o Marquês de Sade ou Henry Miller. Sua obra inteira é uma pesquisa obsessiva sobre como a cultura contemporânea – composta por canções pop, pinturas sem valor intrínseco, grifes capitalistas, drogas, perversão sexual e um vasto etécetra – é um gigantesco “trabalho de morte” (deathwork). Na terminologia de Philip Rieff, trata-se de algo que deveria ter um usufruto estético, mas sufoca espiritualmente os indivíduos, que não sabem mais onde começa o mundo imaginário criado por eles mesmos e a realidade concreta onde tentam viver. Só há uma solução para este impasse – e a pior possível: a traição da liberdade interior. Em Psicopata Americano, há uma cena antológica que simboliza perfeitamente o que Ellis desenvolveria em seus trabalhos posteriores, em especial o épico Glamurama (1998) e o volume de ensaios White (2019) – no caso, o mergulho no inferno que são as nossas ilusões. Ali, encontramos Patrick Bateman em um show da banda irlandesa U2, na época em ascensão por causa do álbum The Joshua Tree (1987). Ele imagina que, no meio da apresentação, ninguém menos que Bono, o vocalista do conjunto de rock, está conversando com Bateman – e neste bate-papo singelo um reconheceria no outro o fato de que ambos representam nada mais, nada menos que o “diabo”. No romance de Ellis, Bono passa a ser um modelo de comportamento para Bateman, mas não é o único. Há um segundo nome que ronda os pensamentos perturbadores (e perturbados) desse “psicopata americano”: Donald Trump, na época magnata imobiliário e bajulado pela imprensa, vinte e cinco anos antes de ser o presidente dos EUA mais discutido dos últimos tempos. A coincidência não é apenas assustadora para a nossa era; ela mostra que, como grande moralista, Bret Easton Ellis previu tudo o que aconteceria no Ocidente a partir de 2016, com a eleição de Trump para a Casa Branca, a vitória do referendo do Brexit, a colonização meteórica de Jair Bolsonaro no inconsciente brasileiro e, por consequência, o surgimento de Daniel Vorcaro, este “sacerdote de Dionísio” do mercado financeiro (segundo um amigo meu que prefere ficar anônimo). Para ser exato, ele articulou, com assustadora presciência, a “política do fim do mundo”. Não à toa, naquele mesmo ano em que Patrick Bateman surgiu nas prateleiras das livrarias americanas, o seu outro modelo de vida – o cantor e compositor Bono – lançava com os colegas de banda (o guitarrista The Edge, o baixista Adam Clayton e o baterista Larry Mullen, Jr.) um novo álbum: Achtung Baby. O título da obra remetia à época nefasta do nazismo; era também uma piada macabra, retirada de uma das falas do filme de Mel Brooks, a comédia Primavera para Hitler (The Producers, 1967), cujo uso da língua alemã também rememorava o próprio ambiente caótico onde foi gravado o disco dos irlandeses. Mais especificamente, em uma Berlim recém unificada após o Muro que marcou a Guerra Fria e foi derrubado em 1990, enquanto os quatro músicos tentavam desesperadamente reinventar suas carreiras depois do triunfo que foi The Joshua Tree. A sombra de um outro “trabalho de morte” – a imaginação totalitária que permeou o século 20 – acompanha Achtung Baby em cada uma das suas faixas. Isso fica evidente na canção “Until the end of the world” (Até o fim do mundo), que parece ser uma conversa entre dois amantes, mas, pouco a pouco, percebemos que se trata de um diálogo de Judas com Jesus Cristo, o melhor amigo a quem traiu por trinta moedas de ouro. A diferença entre a versão bíblica deste personagem e a da banda irlandesa é que, ao contrário do que se pensa, Judas não mostra um pingo de arrependimento, como um bom totalitário. Na realidade paralela em que vive, ele não se encontra na tradicional desolação onde o colocaram por séculos. Para ser exato, o traidor até gosta do inferno onde habita: “Nos meus sonhos, eu afogava minhas tristezas”, canta por meio da voz e da persona de Bono, “mas elas aprenderam a nadar [...]/ Ondas de remorso e ondas de alegria, alcancei aquele que desejava destruir.” Patrick Bateman (e Daniel Vorcaro?) tem o mesmo tipo de comportamento. Pouco se importa sobre o destino das suas vítimas. Sua meta é copiar Donald Trump e Bono em todos os detalhes, especialmente na criação de um mundo imaginário onde, numa versão falsamente heroica, ele seria um psicopata ensandecido que pisa em cima de quem é um empecilho na sua vida. Ocorre que Bateman é apenas mais um pateta. Ninguém do seu círculo social o suporta, nem mesmo a família. Por meio de diálogos fragmentados e uma narrativa cheia de lacunas – nitidamente influenciados pela ambiguidade estilística de Don DeLillo, em particular os romances Os Nomes (1982) e Ruído Branco (1985) –, Ellis dramatiza a psique fragilizada de um infeliz que não consegue, tal como Judas, admitir que sua existência é apenas uma gigantesca “notícia falsa” [fake news]. No Brasil, o mesmo fenômeno ocorreu, mas não no governo destrambelhado de Jair Bolsonaro, como alguns supõem. A mentira institucionalizada tornou-se apenas consequência de um longo adeus da redemocratização. Neste exemplo em particular, a indústria dos fatos falsos foi criada na administração anterior, quando o PT (Partido dos Trabalhadores) dominava a República junto com a construtora Odebrecht, conforme narra a jornalista Malu Gaspar na sua obra-prima A Organização (2020). Com uma narrativa minuciosa, digna de Janet Malcolm, Gaspar decifra ao leitor comum os labirintos da corrupção institucional que contagiou o Brasil nos governos Lula e Dilma, assim como não hesita contar uma tragédia familiar – como é o caso do rompimento dos líderes da gigantesca empresa, Emílio Odebrecht e seu filho e herdeiro, Marcelo, ambos pegos no pulo pela operação Lava Jato. Por outra estranha coincidência, o ano crucial para a sedimentação deste império foi justamente 1991. Mas o que conecta esses personagens reais tanto ao que foi imaginado por Bret Easton Ellis, como ao que foi narrado nos relatos bíblicos, não é somente o ato de traição que cometeram com seus semelhantes. É a traição que fizeram sobretudo contra si mesmos, ao destruírem a liberdade interior que deveria ampará-los. Esta é a síntese da política do fim do mundo que nos espera a partir de agora, seja no Brasil, com o Golpe Master de Daniel Vorcaro, ou nos EUA – este último, com ou sem a presença contaminada de Donald Trump. Cada um de nós gostaríamos de afogar nossos remorsos, mas, ao acordarmos do sonho, veremos que eles aprenderam a nadar – e de maneira primorosa. O exemplo de Marcelo Odebrecht é o mais comovente, justamente porque é o mais real – e o mais próximo de nós, mesmo que ele nos pareça profundamente antipático, até porque a sua história é, no fundo, a nossa história. Afinal, como qualquer ser humano, traiu e foi traído. E o mesmo acontecerá com Daniel Vorcaro. Não é por acaso que a jornalista que foi a fundo na história desses dois homens, Malu Gaspar, afirma que, no caso de Marcelo Odebrecht, ele se tornara “um personagem deslocado no tempo e no espaço. Não era mais poderoso, nem tampouco o criminoso número um do Brasil. Perdera os elos com a empresa pela qual vivera e o lugar de honra na família que, no passado, havia tido tanto orgulho. Ainda assim, continuava a se comportar como o vencedor de outros tempos. Estoico e orgulhoso, certo de que estava com a razão, encarava tudo como uma jornada heroica que, não importava quanto demorasse, ainda o levaria à vitória”. As mesmas palavras podem ser aplicadas ao dono do Banco Master. Exatamente como Patrick Bateman diante de Bono naquele concerto de rock que ocorria somente na sua cabeça. Ao fim e ao cabo, a corrupção feita pelo PT, pela Odebrecht, pelo bolsonarismo e por Daniel Vorcaro foi o nosso “trabalho de morte”. Não há como negar isso, por mais que as notícias falsas de qualquer lado político afirmem o contrário, custem o que custar. O que sobra para todos que insistem caminhar nesta trilha de traição são as últimas e amargas palavras de A Organização, ao descrever como o filho maldito de Emílio via o seu futuro, após dois anos de cadeia, ao ser condenado pelo ex-juiz federal Sergio Moro: “Eu não tenho horizonte”. Pois nesses panoramas da desolação, todos forjados há trinta anos, os Judas que sempre estiveram no poder finalmente conseguirão alcançar aquilo que desejavam tanto destruir: nós, o povo. Quem viver verá. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: *** AVISO: NOVO CURSO - RAÍZES (E CONSEQÜÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIROUM TRECHO LOGO ABAIXO:Queridos leitores: Temos um novo curso: RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO. (No decorrer das aulas, os alunos perceberão que eu falo “Raízes do autoritarismo brasileiro” o tempo todo, mas o nosso departamento de marketing resolveu alterar o título para melhorar as vendas. Não vou discutir.) Trata-se de um prosseguimento do assunto que abordei nos cursos anteriores (mas agora aplicados na perspectiva brasileira), De Zero a Nero - O que Shakespeare ensinou a Peter Thiel sobre os rumos da liderança, e Além do Zero: Vivendo na Religião da Tecnologia, que você pode adquirir respectivamente aqui e aqui. Serão seis aulas, de 30 minutos a 1 hora de duração, todas já gravadas. Aqui vão os temas abordados: O curso é também uma reflexão sobre certas obsessões minhas e que me acompanham desde a época do meu segundo livro, A Poeira da Glória (2015) e depois em A Tirania dos Especialistas (2019), indo até A Disciplina do Deserto, minha obra derradeira. Este livro será publicado em 2026, se os deuses do mercado editorial permitirem. Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará o curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo:martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - CURSO RAÍZES TOTALITARISMO -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível do curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription. |
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quarta-feira, 25 de março de 2026
Paisagens Da Desolação
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