Diário e rememoração, X Por Alexandre Sartório Assisti a O Terceiro Homem (The Third Man, Carol Reed, 1949). Penso em desenvolver um ensaio sobre o livro O Terceiro Homem, do Graham Greene, que ele escreveu a partir do roteiro original do filme, abordando os temas: a Viena em ruínas do Pós-Guerra, dividida entre quatro nações e três línguas, como uma Babel moderna; o homem abandonado à própria sorte, apartado de Deus, por causa de sua própria soberba (elemento evidenciado pela fala de Harry Lime (Wells) na roda-gigante, cena à qual se segue a descida ao sistema de esgoto vienense, cena que é, simbolicamente, a descida ao mundo dos mortos, do qual, ao contrário de um certo homem que também é Deus, não retorna); com as autoridades de Babel em conflito, com a comunidade humana sem um caminho aplainado a seguir e afastada do Bem, resta ao indivíduo guiar seus passos no escuro, indivíduo que se encarna, na trama, em Holly Martins (no livro, ele se chama Rollo Martins; Holly é um nome escolhido com cuidado, pois é um protagonista à Hitchcock: um inocente que, de repente, se vê no centro de um mecanismo do mal, e precisa de forças invulgares para não ser engolido pela injustiça); na Babel confusa com a cacofonia de línguas, o indivíduo precisa recorrer a uma linguagem mais direta, mais próxima possível à vida mesma: uma linguagem popular, sem rebuscamentos, e não uma que só aumentaria a confusão (o protagonista-escritor escreve romances western baratos e, na cena da conferência sobre literatura, mostra-se alheio à grande literatura modernista e complexa; a autorreferência de Greene é clara, assim como a referência aos romances hard-boiled, que carregam desde sua origem certo espírito do homem da fronteira, do solitário que precisa sobreviver na vastidão do Oeste, que é deserto e por onde rastejam serpentes); o apelo à linguagem simples e direta, sem rebuscamentos, é um elogio à literatura hard-boiled (sendo Greene o autor do roteiro/romance, é difícil ser um elogio à América que, de certa forma, foi auxílio fundamental para a recuperação da Europa depois da Guerra – mas isso parece bastante cabível). Assim, O Terceiro Homem parece formular o mundo como ruína, e tratar da necessidade de, mesmo num mundo como esse, o indivíduo buscar seu caminho, com apego ao justo e com o máximo de retidão (uma visão de mundo hard-boiled, digamos assim); e, numa leitura meta-literária, faz um elogio à crime fiction americana (o filme noir e o romance hard-boiled), que, com sua linguagem menos rebuscada e mais vivida nas ruas, posta-se, desafiadora, contra nosso mundo moderno da complexidade e da dissonância, o qual a literatura moderna por vezes mimetiza, mantendo a obscuridade desse mundo e não o clarificando (o que, para mim, são duas possibilidades totalmente válidas para a literatura) – o que, ao fim e ao cabo, não é mais do que um gênio defendendo a nobreza da sua própria criação artística, mesmo aquela parcela dela que ele mesmo costumava depreciar, chamando-a de entertainments. Continue a leitura com um teste grátis de 7 diasAssine Livraria Trabalhar Cansa para continuar lendo esta publicação e obtenha 7 dias de acesso gratuito aos arquivos completos de publicações. Uma assinatura oferece a você:
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quarta-feira, 25 de março de 2026
Diário e rememoração, X
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