Já estamos acostumados com a relação promíscua de políticos, magistrados e empresários, com suas negociações nada institucionais, pautadas por atalhos na burocracia, vantagens indevidas, tratamentos privilegiados e uma longa lista de facilidades para driblar os trâmites e as regras estabelecidas. Também já nos acostumamos com o fato de eles nunca terem nada a declarar. A “institucionalidade brasileira” sempre tratou o público como se fossem suas propriedades privadas, por isso eles acham que não nos devem explicações. Quando apanhados em maracutaias, o membros da aristocracia política, judiciária e empresarial brasileira preferem acusar a imprensa ou a extrema-direita internacional. Às vezes aparece alguém com uma legitimação filosófica preventiva para toda a picaretagem, como o axioma memorável daquele ilustre jurista do grupo prerrogativas, cujo nome eu me esqueci e não vou me dar o trabalho de lembrar: “o crime já aconteceu, de que adianta punir?”. É verdade que a corrupção é tão antiga quanto a invenção do homem. Na época de Platão, já era tema recorrente. Na República, ele chega a dizer que as democracias podem sofrer com a corrupção generalizada, a ponto dela se tornar não apenas visível, mas tolerada e até mesmo celebrada (Cf. Cap. VIII, 555-557d.) Aí, não se tem mais nada a declarar. Mas a democracia está em crise desde a sua invenção. E sempre que ela se torna disfuncional e corrupta, o povo acaba apoiando soluções populistas e violentas. Então, citando novamente a República, “uma vez desatada a luta pelo poder, ela trará consigo a ruína dos governantes e também da nação” (521a). Diferente da nossa institucionalidade ciminosa, os antigos gregos sempre tiveram algo a declarar. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
#NadaADeclarar
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