#Literatura: Os clássicos contra a estupidezPara Italo Calvino, o cânone não é uma lista, mas um campo de batalha onde a cultura insiste em sobreviverItalo Calvino morreu em 1985, mas continua vivo no único lugar em que um escritor realmente sobrevive: no vício da releitura. Há autores que se tornam estátuas. E autores que se tornam mecanismos. Calvino pertence ao segundo tipo: ele não é uma figura para ser reverenciada, mas uma máquina de pensar, um estilo que funciona como instrumento. Sua obsessão com a linguagem não era ornamento, era método. Escrever, para ele, era cortar a gordura do mundo. Era tratar cada frase como quem afia uma lâmina. Essa disciplina não vinha de um purismo estético, mas de uma recusa moral. Calvino odiava a linguagem inflada, burocrática, covarde, odiava aquela prosa que usa palavras como cortina de fumaça para esconder a ausência de pensamento. Ele defendia a precisão como virtude e a leveza como estratégia de sobrevivência intelectual. Para ele, era sempre preciso eliminar o peso morto, limpar o excesso, manter o texto em movimento. Sua prosa buscava “scatto e precisione”: agilidade e exatidão, como se cada frase fosse composta para não desperdiçar o tempo do leitor. É nesse espírito que Por que ler os clássicos se torna mais do que um livro: é um manifesto íntimo. Não se trata de um manual acadêmico nem de uma lista escolar, mas de uma declaração de amor escrita com a frieza elegante de um cirurgião. Calvino define o clássico não como aquilo que todo mundo manda ler, mas como aquilo que insiste em continuar falando mesmo quando você acha que já entendeu tudo. O clássico, para ele, não é um objeto do passado, mas uma presença que retorna, que reaparece em novas idades da vida, como se tivesse mudado — quando, na verdade, quem mudou foi você. E nisso há uma ironia fascinante. Calvino, o defensor da clareza, também é o grande engenheiro do jogo literário. Muitos críticos apontam que ele às vezes parece mais fascinado pela arquitetura do texto do que no drama humano da arte; mais interessado no mecanismo do que na história. Por que ler os clássicos carrega um pouco dessa marca: é um livro feito de ensaios reunidos, heterogêneos, escritos em momentos diferentes. Alguns leitores reclamam de lacunas no cânone, reclamam ausências de nomes inevitáveis e preferidos, mas toda lista é injusta. Mas talvez essa incompletude seja precisamente a sua lição: o clássico não é um altar fixo, é um encontro, uma escolha, uma insistência. Tem algo de íntimo e pessoal. No fim, Calvino não defende os clássicos por nostalgia, mas por sobrevivência cultural. Ele os trata como antídoto contra a linguagem automática, contra a prosa contaminada pela pressa, contra o mundo reduzido a slogans. Ler um clássico, para Calvino, é entrar num silêncio antigo onde as palavras ainda têm densidade e, sobretudo, forma. Mas precisamos reaprender a ouvi-las, neste mundo cada vez mais barulhento e caótico. Precisamos, enfim, treinar a mente contra a estupidez cada vez mais ampla e organizada. __________________ Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
Total de visualizações de página
domingo, 15 de fevereiro de 2026
#Literatura: Os clássicos contra a estupidez
Assinar:
Postar comentários (Atom)



Nenhum comentário:
Postar um comentário