Uma pesquisa nacional inédita realizada em 2025 revela um dado preocupante: o desconhecimento dos brasileiros sobre o Holocausto é profundo, desigual e cria um ambiente propício à disseminação de fake news, à banalização da violência e ao avanço do antissemitismo no país. O levantamento ouviu 7.762 pessoas em 11 regiões metropolitanas.
O estudo foi realizado pelo Grupo ISPO, a pedido da Confederação Israelita do Brasil (CONIB), do Memorial do Holocausto de São Paulo, do Museu do Holocausto de Curitiba e da StandWithUs Brasil.
Embora 59,3% dos entrevistados afirmem ter algum conhecimento sobre o Holocausto, apenas 53,2% conseguem defini-lo corretamente como o extermínio sistemático de seis milhões de judeus promovido pelo regime nazista. Quando o tema exige referências históricas mais concretas, o desconhecimento se intensifica, revelando lacunas graves na formação histórica da população brasileira.
Conhecimento superficial dificulta combate à desinformação
A pesquisa mostra que apenas 38,5% dos entrevistados identificam Auschwitz-Birkenau como um campo de extermínio, enquanto 51,6% declaram não saber responder. Os dados indicam que, para grande parte da população, o Holocausto é compreendido de forma genérica e fragmentada, sem contextualização histórica adequada.
Esse tipo de conhecimento superficial dificulta a identificação de fake news, teorias conspiratórias e discursos negacionistas, que circulam com facilidade nas redes sociais e em aplicativos de mensagens. Em um cenário de crescente polarização e radicalização, a ausência de informação histórica sólida amplia a vulnerabilidade da sociedade à manipulação.
Escolaridade e renda aprofundam desigualdades no acesso à informação
O estudo evidencia que o nível de conhecimento sobre o Holocausto está diretamente ligado à escolaridade. Entre entrevistados com ensino fundamental, apenas 27,2% acertam a definição correta do genocídio. Já entre aqueles com pós-graduação, o índice chega a 86,2%. A desigualdade se repete na identificação de Auschwitz-Birkenau e em outros elementos centrais do tema.
A renda familiar segue o mesmo padrão. Apenas 42,6% das pessoas com renda de até dois salários-mínimos conseguem definir corretamente o Holocausto, contra 87,1% entre entrevistados com renda superior a dez salários-mínimos. Os números revelam que o acesso à educação histórica qualificada permanece restrito e profundamente desigual no Brasil.
Escola é principal fonte, mas não garante compreensão profunda
A escola aparece como a principal fonte de informação sobre o Holocausto, citada por 30,9% dos entrevistados. Em seguida vêm filmes e livros (18,6%) e internet e redes sociais (12,5%). Museus, memoriais e instituições especializadas são mencionados por apenas 1,7% da população.
O dado evidencia uma fragilidade estrutural: embora o tema esteja presente nos currículos escolares, a abordagem nem sempre garante compreensão crítica, aprofundada e contextualizada. Além disso, o baixo acesso a espaços de memória limita experiências educativas capazes de transformar informação fragmentada em conhecimento histórico sólido.
Antissemitismo cresce em ambiente de desinformação
O cenário descrito pela pesquisa ganha gravidade diante do aumento de casos de antissemitismo no Brasil. Nos últimos anos, cresceram os registros de ataques verbais, ameaças, conteúdos conspiratórios e distorções históricas envolvendo judeus e o Holocausto, especialmente no ambiente digital.
Sem base histórica consistente, parte da população encontra dificuldades para identificar narrativas falsas, relativizações e discursos que banalizam crimes contra a humanidade. O desconhecimento histórico passa, assim, a ter impactos diretos na convivência democrática e na segurança simbólica de minorias.
Importância reconhecida, engajamento ainda é baixo
Apesar das lacunas de conhecimento, 64,4% dos entrevistados consideram fundamental o ensino do Holocausto nas escolas, e 56,6% atribuem papel prioritário a museus e memoriais. Ainda assim, o engajamento prático é mínimo: 87,3% afirmam nunca ter participado de palestras, eventos educativos ou visitas a museus sobre o tema.
O descompasso entre reconhecimento da importância e participação efetiva reforça a necessidade de políticas públicas e ações institucionais que ampliem o acesso à educação histórica de forma contínua e estruturada.
Educação histórica como ferramenta de proteção democrática
Para o rabino Toive Weitman, gestor do Memorial do Holocausto de São Paulo, os resultados da pesquisa funcionam como um alerta sobre os riscos do desconhecimento em um contexto marcado pela desinformação. “Quando o Holocausto não é compreendido de forma clara e contextualizada, abre-se espaço para fake news, relativizações e discursos de ódio. A memória precisa ser ensinada e atualizada constantemente, porque é ela que nos permite reconhecer o antissemitismo e outras formas de intolerância no presente.”
A pesquisa reforça que o ensino do Holocausto não se limita à preservação do passado. Trata-se de uma ferramenta essencial para combater a desinformação, enfrentar o antissemitismo e fortalecer valores democráticos em um cenário de crescente circulação de discursos de ódio no Brasil.
Nenhum comentário:
Postar um comentário