Falar através dos poetasQuando escritores utilizam da voz de outros escritores para criar obras magnificaFalar através dos poetas Por annakroiss Há duas semanas estive no lançamento de Boris e Marina, do autor brasileiro Alberto Martins - neste livro o escritor nascido na cidade de Santos, litoral de São Paulo, emula as vozes de dois grandes poetas do século XX para criar sua própria poesia: Marina Tsvetáieva e Borsis Pasternak - com espaço também, para num último instante ao final do livro, falar Rainer Maria Rilke que, tendo a notícia da morte de Marina, saúda a lembrança dos dois protagonistas da história. Algo curioso é que a própria poeta Tsvetáieva compôs ao longo dos anos uma relevante quantidade de poesias utilizando do Eu lírico de outros autores que ela admirava tanto - Elos Líricos, da editora Bazar do Tempo, contêm dezenas de poemas escritos por Marina na voz (ou tinta) de outros autores, como: Pushkin, Maiakovski, Anna Akhmátova, Blok e o próprio Boris Pasternak. Assim também é para dois outros livros que gosto muito: O que ela sussurra, obra de uma escritora brasileira, Noemi Jaffe. Aqui temos a composição em que Noemi dá voz a Nadejda Mandelstam, esposa do grande autor polonês Osip Mandelstam. O contexto se dá a partir da perseguição política sob qual seu marido passou - tendo sido levado para um campo de trabalhos forçados como punição por suas obras consideradas como atividades contrarrevolucionárias - com isso Nadejda passou a ser constantemente visitada por oficiais que a impediam de reproduzir todo e qualquer escrito que tivesse sido de Osip, dessa forma, por décadas ela teve de sussurrar constantemente para si mesma tudo o que sabia das obras do marido para que não se esquecesse, pois mesmo qualquer anotação física já seria motivo de punição maior. Apesar de se tratar de um eu lírico ficcional, esse livro tem base na real história de Nadejda, e Noemi Jaffe utiliza dos estudos sobre o casal de escritores e da biografia da própria esposa de Osip, no livro Hope Against Hope: A Memoir. Para finalizar, antes que eu me estenda falando de mais uns cinco livros que recordei enquanto escrevia, deixo aqui justamente uma nota para o De Mandelstam para Stálin - livro em que o autor Robert Littell (sim, pai do autor de As Benevolentes, Jonathan Littlell) traça uma narrativa recriada com inspiração no cenário da vida artística e política da Rússia stalinista. Por longos anos, Littell se debruçou sobre arquivos e fez diversas entrevistas para conseguir material suficiente para essa sua criação. Alternando as vozes de personagens fictícios e reais, o livro nos traz figuras desse cenário que ora aborda esses mesmos autores já citados acima, como Boris Pasternak e Anna Akhmatova, ora cria situações surpreendentes. Um livro brilhante, feito a partir de um estudo primoroso de Robert Littell - uma aula de história e de imaginação. O senhor(a) é atualmente um(a) assinante gratuito(a) de Livraria Trabalhar Cansa. Para uma experiência completa, faça upgrade da sua assinatura. |
Total de visualizações de página
sexta-feira, 10 de outubro de 2025
Falar através dos poetas
Assinar:
Postar comentários (Atom)









Nenhum comentário:
Postar um comentário