André Mendonça fez uma jogada audaciosa. A exposição dos negócios do Xandão com Vorcaro, tragou o STF inteiro e ainda levou o PGR, Gonet, de gorjeta. Mendonça pediu para o PGR se manifestar sobre o conteúdo do relatório da PF. E Gonet está lá, citado junto com o filho. Ele não tinha muito o que fazer a não ser pedir a anulação. Mas… Continue lendo este post gratuitamente no app Substack
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quarta-feira, 2 de setembro de 2026
#CaiuAFicha?
A Misericórdia Do Mundo
Obrigado pela sua leitura! A Misericórdia Do MundoWendell Berry encontrou a difícil solução para a nossa sociedade fraturada
Há solução para a sociedade dilacerada em que vivemos atualmente? Neste mundo atormentado por disputas políticas infinitas, que crescem sem parar, além da evidente incapacidade das nossas elites de resolverem o problema da nossa mera subsistência material, tudo o que parece nos restar é o mergulho no desespero, a desistência de qualquer tipo de esperança. Contudo, não é bem assim que o poeta americano Wendell Berry (falecido na segunda-feira passada) vê as coisas. Por meio da sua obra peculiar – que abarca poesia, romances, ensaios e já sedimentada em seus 92 anos reconhecidos e premiados –, ele não só nos dá uma chance para uma fuga sadia de todo esse emaranhado em que nos metemos, como também nos abre para aquilo que só a grande arte permite: a quietude do espírito. Berry teve dois livros recentemente publicados e que mostram que ele ainda está em pleno vigor. O primeiro é Jayber Crow, lançado nos EUA em 2000, mas que chegou nas prateleiras nacionais em 2023, um romance comovente sobre um barbeiro o qual, em uma vida carregada de questionamentos e silêncios, é testemunha privilegiada do que acontece entre os membros da vila de Port William, lugar ficcional onde o escritor conta, por meio de histórias, novelas e grandes painéis, a história americana dos últimos cento e cinquenta anos, da Guerra Civil até os nossos tempos conturbados. O segundo é The need to be whole – Patriotism and the history of prejudice, um relato escrito no final de 2022 e que mistura autobiografia e pesquisa histórica sobre como o racismo – um pecado mortal que o próprio Berry chama de “a ferida oculta” dos EUA – infectou todas as relações sociais. Em ambos os casos, o que temos são mais do que meras reflexões: são, na verdade, meditações de um homem extremamente vivido e que misturou-se com o próprio fluxo do tempo e, portanto, sabe exatamente sobre o que está escrevendo. É claro que ajuda muito o fato de que Berry é, antes de tudo, um poeta. Isso parece ser um mero detalhe, porém é uma vantagem e tanto. É graças a este ofício que ele pode lidar com algo que a própria poesia (em especial, a contemporânea) deixou de lado – a capacidade da literatura para compreender a existência de diversos mundos dos quais fazemos parte. Da mesma forma que outro poeta-irmão, o inglês W.H.Auden, Wendell Berry reconhece, ao ser um artesão do verso, que vivemos em três categorias de pluralidades: multidões, sociedades e comunidades. Em The Dyer´s Hand, Auden explica a diferença entre elas. As primeiras são aparentemente reais, mas sua existência é pura ilusão; nela, o indivíduo é menos que um, é somente uma estatística, uma abstração. Já as sociedades são um sistema que apenas ama a si mesmo; ali, uma pessoa existe exclusivamente em relação à outra; retire essa conexão entre elas e qualquer vínculo social verdadeiro acaba imediatamente. Com a terceira categoria – as comunidades –, temos a união por meio de algo que transcende os seus membros, um amor que os une além da mera funcionalidade. Nela, o indivíduo é insubstituível e único – e, portanto, os integrantes ali são livres e iguais, pois, para existir tanto uma multidão como uma sociedade, a comunidade abriga diversas comunidades que, por mais diferentes que sejam, elas conseguem encontrar um fundo comum de comunicação e, sobretudo, respeito. Wendell Berry abraça por completo a defesa da comunidade como fundamento de tudo que estrutura – e salva – a nossa sociedade moderna gigantesca, inchada e corrupta. Para ele, trata-se de um organismo vivo e misterioso, cujos moradores sabem muito bem o que acontece com os seus vizinhos, não por uma questão de vigilância ou maledicência, mas sim porque cada um ali tem uma responsabilidade com o seu próximo. Ao contrário do Estado Moderno, que se movimenta por interesses escusos e desejos de poder disfarçados de busca pelo Bem Comum, a comunidade vislumbrada por Berry é amada porque a democracia praticada naquele lugar é a democracia dos afetos, a mesma democracia que respeita os vivos porque sabe muito bem que eles serão os mortos do futuro. É assim que Jayber Crow observa a vila de Port William, a moldura ficcional criada por Berry para restaurar o que aconteceu de errado na América contemporânea. Em um romance impecável, com o ritmo plácido de um rio que reconhece perfeitamente qual é o seu curso, o poeta veste a máscara do prosador para contar a história deste sujeito que, desencantado com a vocação de ser pastor, resolve trilhar um caminho solitário e, para sobreviver, aceita o trabalho de ser o barbeiro da região. O que era para ser apenas uma função, a ser executada mecanicamente, transforma-se em uma posição importantíssima, pois ele é capaz de observar a vida e a morte de todos os personagens essenciais para a existência daquela comunidade. No fim, ser o barbeiro de Port William era a sua verdadeira vocação, mesmo que isto implicasse uma vida confeccionada no silêncio e no segredo, em especial quando Berry descreve o drama interior de Crow ao se apaixonar – sem nunca declarar o seu amor – pela bela (e casada) Mattie Chatham. Esta paixão de décadas se desdobra (e também se reflete) na contemplação amorosa de um mundo que se dissolve aos poucos. Nesse sentido, Crow é também o alter-ego de Berry, que em seus poemas e, principalmente, em seus ensaios, denuncia o maior crime de todos a ser executado contra a única coisa que salva ou destrói uma comunidade: o afeto pela preservação do próprio solo. Sem o cultivo adequado da nossa terra – enfim, da nossa propriedade – sequer somos capazes de agir numa política pragmática minimamente decente. Para Berry, o cuidado com o solo, o lar e a terra é o que importa para a reunificação entre seres humanos extremamente pecadores e falíveis. Não à toa, em seu ensaio clássico, The Unsettling of America (1977) – que influenciou as obras de Christopher Lasch, Philip Rieff e Patrick Deneen –, ele faz uma denúncia brutal contra a máquina implacável do Estado e das grandes corporações que simplesmente destruíram, com seus especialistas e tecnologias impessoais, as comunidades, as sociedades e as multidões de todo um país (e é interessante observar que esse diagnóstico segue uma tradição similar ao que foi feito pela francesa Simone Weil na época da Segunda Guerra Mundial, com sua obra-prima O Enraizamento). Contudo, não pensem que Wendell Berry é um “ludita”, um sujeito deslocado no tempo que não aceita o progresso histórico. Pelo contrário: ele o abraça como poucos. A única diferença é que Berry reconhece que progresso significa uma adição à nossa engenhosidade humana de praticar o Bem Comum, enquanto o que é vendido por nossas elites é, na verdade, uma subtração da nossa dignidade e da nossa capacidade de conquistar o Mal que surge em nossos corações. É nesta dialética que o poeta medita sobre a questão espinhosa do preconceito racial em seu país, em particular no livro The need to be whole, no qual ele argumenta que a “ferida oculta” dos EUA é mais uma consequência dos maus-tratos que o Estado fez com o solo que protegia seus cidadãos. Sem um lar, sem uma terra para cuidar das suas posses materiais e espirituais, tanto os brancos como os negros ficaram impedidos de encontrar uma base moral de comunicação entre eles. A América se transformou em um campo de batalha verbal onde a linguagem é mais uma tática de ataque do que uma estratégia de convivência sadia. O maior exemplo disso é a incompreensão dos grupos de políticas identitárias, em especial o Black Lives Matter ou as facções supremacistas, que querem reescrever a história complexa e complicada da Guerra Civil, causando assim mais ódio e ressentimento entre as diversas classes sociais. Isso impossibilita também que a sociedade americana consiga permanecer dentro do verdadeiro pluralismo que somente existe quando ela se vê como uma comunidade. A tese de Berry é polêmica, sem dúvida. Mas o que é mais polêmico vem a seguir: a cura para esse dilaceramento moral entre os cidadãos de uma única república – seja os EUA, seja o Brasil – não virá da ajuda técnica das nossas instituições democráticas. Para o poeta, será o perdão – sim, ele mesmo, o tal do perdão que absolve nossos erros – a única ferramenta prática capaz de reunir não só os dissidentes de qualquer país, mas também a nossa psique fraturada. O preconceito racial surge da nossa dificuldade de aceitarmos o perdão como um instrumento realmente válido. Acreditamos que ele é apenas algo “abstrato” – enquanto o ódio seria algo “concreto”. Ocorre que, para Wendell Berry, sem o perdão, nada funciona – desde as comunidades em que vivemos até a arte que produzimos. E é neste aspecto que ser um barbeiro (como Jayber Crow), um soldado, um agricultor e, enfim, um artista, ajuda mais do que atrapalha, pois são posições (e não profissões) que lidam com o indivíduo o tempo todo e que fazem cada um conhecer o seu próximo em sua peculiaridade irredutível. O escritor sabe que sua obra de arte é a tentativa de equilibrar a liberdade e a lei que regulam os cidadãos – e que um bom poema (assim como um bom romance ou um bom ensaio) é análogo a uma harmonia provisória que, por meio do perdão proferido pela limpidez do verbo, nos reconcilia diante da misericórdia do mundo. É esta misericórdia que Wendell Berry recupera naquilo que ele articulou nos versos célebres de um dos seus poemas mais singelos (e mais conhecidos), intitulado “O medo do amor”. Tememos porque amamos o que iremos perder – seja como parte de uma multidão, de uma sociedade ou de uma comunidade, seja como parte de nós mesmos. E o que nos resta, no fim, é imitarmos a quietude de um campo aberto, onde as flores e as folhas germinam, pois estão enraizadas de tal forma que nenhum vento forte possa quebrá-las. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: Abaixo, a conversa que tive com Bruno Magalhães e Lucas Mendes sobre o fato de que dois livros meus - A Poeira da Glória e A Tirania dos Especialistas - foram escolhidos entre a lista das 25 Obras Brasileiras Mais Relevantes Do Século 21, publicada pela Gazeta Do Povo: Queridos leitores: Quando eu falo de vibeshift, falo na verdade de um processo que começou desde 2016, se aprofundou em 2018, foi sufocado em 2020 na época da COVID e se acelerou em 2022 com a popularização da IA. Há um nome específico para ele: “a revolta das elites contra a revolta do subsolo”. Os três cursos que produzi de forma independente confirmam este diagnóstico. O problema é que (quase) ninguém entendeu isso. E daí surge a confusão em que estamos metidos. Aqui, vejam um trecho de uma das aulas: Por exemplo: em RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO, eu analiso como as placas tectônicas da história do nosso país entraram em choque e como o sistema do Estado se tornou incapaz de permitir uma liberdade mínima para o cidadão. Já em ALÉM DO ZERO: VIVENDO NA RELIGIÃO DA TECNOLOGIA, medito a respeito de como a mídia não consegue mais conversar com o leitor comum, pois a internet já entrou em entropia, buscando um “retorno às fontes”, e assim as instituições religiosas estão sem o norte do espírito. E em DE ZERO A NERO: O QUE SHAKESPEARE ENSINOU A PETER THIEL SOBRE OS PERIGOS DA LIDERANÇA, disseco sobre a turma do Vale do Silício, que transforma o planeta e cria o vazio que nos desorienta atualmente. (As informações sobre as ementas de cada curso podem ser lidas em cada link acima) Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará cada curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.(“Ah, mas não é um combo?” “Não deveria ser um único preço?”, perguntarão os impacientes. Bem, eu estou dando a oportunidade de você dar o preço, conforme a sua consciência. Portanto, o mínimo que eu peço é que respeite algumas das minhas condições, certo?) Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo (especificando-o na mensagem a quantia para cada curso):martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - COMBO DO VIBESHIFT -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível de cada curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC Invite your friends and earn rewards
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