Esse fim de semana, senti algo que não experimentava há muitos anos. Esqueci de levar um carregador comigo e fiquei dois dias na praia sem celular. Meu Kindle igualmente ficou sem bateria. Vivi uma sensação de desconforto que me fez relembrar dos domingos na casa dos meus avós: minha vó assistindo a uma sequência de programas modorrentos de auditório do SBT, enquanto eu ficava no sofá olhando para o teto e pensando nas aulas de segunda-feira. Minha mente vagava longe para vencer o tédio. Quando já não conseguia mais usar a imaginação, eu entrava na biblioteca do meu avô e ficava folheando um volume da enciclopédia Delta-Larousse. Eu lia e relia quase sempre a mesma parte: o verbete sobre dinossauros. Meu fim de semana arrastado na praia fez com que eu percebesse que a sociedade do século XXI extinguiu a maior força motriz por trás da civilização. Do simples ao mais complexo, sempre fizemos de tudo para fugir do marasmo: atravessar o oceano numa caravela; pintar uma obra-prima; escrever um livro, compor uma sinfonia… Agora começo a entender que muito da estagnação atual da humanidade está ligada ao fim do aborrecimento: o declínio na criatividade da cultura de massa, a anomia entre os jovens, a queda no número de relacionamentos amorosos entre aqueles com até 50 anos. O que sempre levou a alguém tirar um livro da estante ou pegar um instrumento musical para aprender a tocá-lo foi o medo, comum a todos, de enfrentar o desconforto da inatividade. O mesmo vale para o impulso que levava o jovem a vencer a vergonha e ligar para uma garota, convidando-a para sair. Correr o risco de ser rejeitado valia a pena diante da certeza do ócio apático. E, por mais feio que fosse o rapaz, a chance da garota aceitar era razoável. Afinal, sair com alguém, mesmo que mal-apessoado, e ouvir seus galanteios e piadas era melhor do que passar um domingo de verão mofando dentro de casa. O próprio ato de pensar, imaginar e ter insights era uma fuga natural espontânea da pasmaceira. Nessa época, a maneira exemplar de castigar um adolescente era mandá-lo para o seu quarto, o que na prática era condená-lo a fazer absolutamente nada por algumas horas. Hoje, os pais se esforçam para tirar os adolescentes dos quartos, afinal o celular acabou com o enfado de se ficar à toa. Permanecer em casa vendo vídeos, jogando, consumindo pornografia, interagindo em redes sociais libera dopamina o suficiente para evitar os estímulos que, em outros tempos, nos fariam fugir da apatia e nos lançar ao mundo. A combinação de internet, telas, smartphones, streamings, redes sociais e uma infinidade de aplicativos achatou nossa vida numa espécie de looping de entretenimento contínuo. O grande desafio do nosso tempo, ao que parece, não é a tão falada crise de significado, mas a falta de monotonia. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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quinta-feira, 2 de abril de 2026
#ElogioDaMonotonia
#PioneirosDoOuro
Veja só o que está rolando na terra da liberdade: Não é a primeira vez que alguém copia algo surgido aqui no Não é Imprensa. Já fomos replicados sem créditos inúmeras vezes, mas, desta vez, é claro que estou brincando. Embora sejamos o Substack mais relevante e lido do Brasil, duvido que algum gringo nos acompanhe. Mas a verdade é que em uma postagem minha lá no início desse nosso site eu fiz um post zombando da reforma do Palácio do Planalto feita pelo Lula e usei justamente a privada de ouro como ícone. A arte que criei foi esta (confira o post logo abaixo). O Diogo Mainardi gostou tanto da ideia que adotou a privada de ouro como o símbolo deste site contra toda essa escória. De lá para cá, inúmeros canalhas já “se sentaram” em nossas privadas de ouro, que se tornou até troféu por aqui. Anos depois, chegou a vez de os gringos fazerem o mesmo. Bom, coincidência ou não, que conste nos autos: Eu pensei nisso primeiro! Hahahaah! Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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