No início dos anos 2000, quando o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva ainda desfrutava de uma alguma euforia política, Diogo Mainardi publicou uma coluna acusando parte da imprensa brasileira de manter uma relação promíscua com o novo poder. E nada mudou. Daniel Vorcaro comprava jornalistas e influenciadores (cuja diferença é quase nenhuma) no varejo. Soltava uma grana preta para que muita gente fizesse o trabalho sujo de defender suas picaretagens e ainda perseguir quem as expunha publicamente. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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quinta-feira, 5 de março de 2026
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#Interlúdio: Como Edmund Burke explicaria o Irã
#Interlúdio: Como Edmund Burke explicaria o IrãO problema, na concepção burkeana, não está na substituição de um regime por outro, mas na tentativa de reorganizar toda a sociedade segundo utopias ideológicas
A história da Revolução Iraniana de 1979 pode ser lida à luz de uma intuição central de Edmund Burke: a ideia de que sociedades não podem ser reconstruídas a partir de abstrações revolucionárias sem que se destrua, no processo, o delicado equilíbrio entre tradição, instituições e liberdade. Em Reflexões sobre a Revolução na França, Burke advertia que a liberdade não nasce de rupturas radicais, mas de uma evolução histórica lenta, na qual costumes, instituições e práticas sociais se sedimentam ao longo do tempo. Quando uma revolução decide recomeçar do zero, ela frequentemente substitui uma ordem imperfeita, que pode ser reformada e aprimorada, por um despotismo irremediável. A ascensão de Khomeini confirma esse diagnóstico. Nos meses que antecederam a queda do regime, o ele se apresentou como uma figura moderada e conciliadora, sugerindo que o Irã poderia encontrar um caminho para a modernização política, social e econômica. Os iranianos desejavam se livrar de uma monarquia extremamente corrupta e repressiva, por isso aceitaram cegamente a liderança de Khomeini, que fazia promessas mirabolantes que jamais pretendia cumprir. Nas Reflexões sobre a Revolução na França, Burke descreveu exatamente esse tipo de entusiasmo revolucionário, em que a ânsia por mudanças políticas extremas inviabiliza qualquer análise prudente sobre as consequências das ideias que estão sendo apresentadas. O problema, na concepção burkeana, não está na queda de uma monarquia ou na substituição de um regime por outro, mas na tentativa de reorganizar toda a sociedade segundo utopias ideológicas. A Constituição inspirada no tratado de Khomeini, que concebia a sociedade como um rebanho que precisa dos cuidados de um extremista religioso, rompeu completamente com a ideia de pluralidade institucional que sustenta a liberdade e, sobretudo, a democracia. Todo revolucionário promete destituir a tirania, restaurar a liberdade e dar uma vida boa a toda a população. Diante da retórica do “despertar do povo”, seja da alienação de classe social ou das conspirações antissistêmicas, as pessoas vão se deixando convencer de que é preciso virar o mundo do avesso. Mas a liberdade não surge do nada nem pode ser criada por decretos políticos. Ela é resultado de um processo histórico longo, no qual instituições, costumes e leis evoluem gradualmente. Nas suas Reflexões sobre a Revolução na França, Burke desenvolve essa ideia de que as liberdades políticas são conquistas acumuladas da civilização, não direitos inventados por filósofos ou ideólogos. A verdadeira estabilidade política nasce, portanto, da continuidade histórica e da prudência institucional. Quando essas condições são destruídas em nome de uma utopia revolucionária, o resultado costuma ser exatamente o que ocorreu no Irã: décadas de repressão, instabilidade política e econômica e uma sociedade que luta permanentemente para recuperar as liberdades perdidas com a ascensão de uma teocracia autoritária e terrorista. Se você gostou deste texto, ASSINE e contribua com o nosso site. A gente precisa da sua ajuda a manter e ampliar o nosso trabalho. Reflexões sobre a Revolução na França Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. © 2026 Não é Imprensa |





