Aos 13 anos os judeus fazem o bar-mitzvah, cerimônia de maioridade. Muitos, por causa do Nazismo e do Holocausto, não puderam fazer. Foi o caso de Stefan Lippman, de origem alemã. Quando entrevisto um sobrevivente, sempre pergunto se fizeram. Tive a honra de realizar 3 bar’mitzvas. Do único judeu brasileiro preso em Auschwitz, Andor Stern, aos 90 anos; do ex-hungaro Gabriel Waldman, aos 88 anos, e agora do ex-alemão Stefan Lippman. Ex porque são brasileiros. Ex porque tiveram a nacionalidade confiscada. Bom fim de semana. Porque estou fazendo meu Bar Mitzvah hoje, aos 91 anos Aos 91 anos, olho para trás e percebo que a minha história é um mosaico de perdas, sobrevivência e, finalmente, de reencontros. Há alguns anos, fui oficialmente reconhecido como sobrevivente do Holocausto. As memórias mais antigas que carrego na alma, de quando eu tinha apenas três ou quatro anos de idade, são as imagens aterrorizantes do dia em que os nazistas invadiram nossa casa na Alemanha, quebrando tudo o que encontravam pela frente, despedaçando não apenas nossos pertences, mas a nossa paz — um terror que o Sr. Marcio Pitliuk, do Memorial, situou no contexto da trágica Noite dos Cristais. Essa violência cruel me roubou o meu pai. Ele, que tentou sair depois de nós, foi capturado na França e mandado para Auschwitz. Hoje, o Yad Vashem registra friamente o que meu coração sempre soube com dor: ele foi assassinado lá, deixando um vazio imenso e irreparável na minha vida. Quando finalmente cheguei ao Brasil com a minha mãe, eu tinha 11 anos. Porém, eu carregava o peso de uma vida inteira. Era uma criança profundamente traumatizada pela guerra e pela dor indescritível de ter passado cinco anos separada da própria mãe. Ainda assim, com a esperança de retomar alguma normalidade, ela sonhava que, aos 13 anos, eu fizesse o meu Bar Mitzvah, como manda a tradição. Com todo o carinho do mundo, ela havia trazido da Bélgica os presentes para esse dia tão especial: um relógio de pulso e uma caneta-tinteiro. Quando chegou a hora, ela combinou com o Chazan da CIP para me preparar. Mas o destino me reservava mais uma rejeição dolorosa. Depois de algum tempo, esse Chazan — cujo nome, Lachman, carrego gravado na memória até hoje — me declarou “incapaz” de fazer o Bar Mitzvah e simplesmente desistiu de mim. Aquela palavra marcou minha alma. Diante daquela recusa, minha mãe, certamente entristecida, nunca chegou a me entregar os presentes que guardava com tanto amor. A ironia cortante dessa história é que, anos depois, eu provaria minha plena “capacidade” ao me formar engenheiro em uma das instituições mais exigentes de São Paulo: a Escola Politécnica da USP. Descobri, tempos depois, que a CIP preparava até mesmo pessoas com deficiências intelectuais para a cerimônia. Mas para mim, a criança cujas feridas a guerra ainda não havia fechado, a porta permaneceu trancada. É preciso entender que eu não tive culpa por não estar “preparado” como eles queriam. Durante a guerra, para sobreviver aos nazistas, precisei ficar escondido em vários lugares. O mais marcante foi um convento católico em Bruxelas, onde fui educado como católico. A minha rotina exigia que eu recitasse orações cristãs no começo de todas as aulas. A minha verdadeira identidade havia sido silenciada para que eu pudesse viver. Cheguei ao Brasil sem fazer a menor ideia do que significava ser judeu. Foi apenas na Casa da Juventude da CIP, como membro orgulhoso dos escoteiros da Avanhandava, que dei os primeiros passos para me reconectar com minhas raízes. Afinal, a história judaica fazia parte da minha família: meu avô materno e meu tio, que chegaram ao Brasil em 1940, já eram membros da CIP. Ao longo da minha vida adulta, a CIP chegou a tentar me convencer a fazer o Bar Mitzvah já idoso, mas as lembranças daquela rejeição me impediram de aceitar. O que mudou tudo foi o convite caloroso do Memorial do Holocausto. O acolhimento deles, e em especial a sensibilidade da Sarita, tocaram profundamente o meu coração e me convenceram de que nunca é tarde para reivindicarmos quem somos. E é por isso — para curar a criança que teve sua essência escondida, para honrar os presentes que minha mãe não pôde me dar e o pai que perdi em Auschwitz — que hoje, aos 91 anos, com muito orgulho e emoção, eu finalmente celebro o meu Bar Mitzvah. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
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sábado, 17 de outubro de 2026
#MazalTov!
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