O polonês, de J. M. Coetzee, tem menos de 200 páginas, poucos personagens e quase nenhuma trama secundária, o que o coloca só a um passo além da fronteira entre novela e romance. Coetzee deliberadamente optou pelo que se denomina “estilo tardio”, termo cunhado em 1937 pelo filósofo Theodor Adorno, que assim o descreveu:
A maturidade das obras tardias não se assemelha àquela que encontramos nas frutas. Em sua maior parte, não são arredondadas, mas sulcadas, até mesmo castigadas. Desprovidas de doçura, amargas e espinhosas, não se entregam a um mero deleite.
É verdade que em 1937, nem Adorno nem os intelectuais que o rodeavam estavam imbuídos de qualquer deleite. Nascido na Alemanha em 1903 de mãe católica e pai judeu há muito tempo convertido ao Protestantismo, cresceu em um ambiente de alta cultura. Estabeleceu-se como filósofo, foi logo muito reconhecido e disputado pelas melhores universidades. Apesar disso, sua paixão pela música o levou a Viena em 1924 para estudar intensamente com o compositor Alban Berg. Compôs peças musicais que tiveram sucesso e escrevia crítica musical e ensaios filosóficos. Pouco a pouco a ordem de prioridades inverteu-se novamente: retomou sua carreira de filósofo como principal. Também aí teve grande sucesso, o que contribuiu para chamar a atenção do Partido Nazista, àquela altura já maioria na Alemanha. Em 1933 seu departamento na Universidade de Frankfurt, bem como sua casa, foram saqueados, e sua licença como Professor Universitário revogada porque era “restrita a pessoas que pertencem à nação germânica por profundos vínculos de caráter e sangue”. Ou seja, de nada lhe ajudou o fato de sua mãe ser católica (portanto pela lei judaica ele não era judeu) e seu pai ter se convertido ao Protestantismo muitas décadas antes. Se os judeus de esquerda, hoje tão ávidos de se distanciar de sua identidade, aprendessem com a História, talvez ela seria diferente.
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