(Excerto do livro O que restou da política, Diogo Chiuso, ed. Noétika, 2022).
Nietzsche reclamava do estadista que “condena o povo a fazer política, enquanto tivesse coisas melhores a fazer e a pensar”. Elevar a práxis a um princípio fundamental, como fez Marx na sua segunda tese sobre Feuerbach, traz em si a ideia de que é preciso dedicar a vida a transformar o estado presente em função de um ideal a ser conquistado no futuro. Mas essa transformação fundamenta-se tão somente nas necessidades humanas materiais. O novo homem, na concepção marxista, é apenas histórico; não existe integralmente como pessoa, mas apenas como membro da sociedade. A humanidade, segundo Marx, é reduzida ao resultado das situações históricas e suas estruturas econômicas correspondentes, que são determinadas pelo movimento dialético da História: uma realidade traz em si a sua própria contradição, portanto, um regime político econômico sempre irá gerar internamente os elementos que irão dissolvê-lo. O feudalismo gerou a burguesia que o destruiu; a burguesia, o proletariado que é o seu contraditório e a própria negação do sistema capitalista. Como Marx acreditava que a história se repete, a ruína do capitalismo lhe parecia inevitável. Também é inevitável a pergunta: o que virá depois? Todos sabemos que, para os marxistas, a síntese natural desse processo histórico é o comunismo, a sociedade sem contradições de classe, perfeita, sem antítese. Mas com o advento dessa sociedade homogênea, o processo dialético será interrompido? A pergunta deveria causar um paradoxo. Mas numa época em que a razão foi suspensa, exigir alguma coerência de raciocínio parece ter se tornado uma daquelas sutilezas desnecessárias.
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