#Literatura: Sob o Sol de Satã, de George Bernanos(2)Ao contrário das visões modernas que tratam o diabo como uma metáfora para a fragilidade psicológica humana, Bernanos apresenta Satanás como uma força literal, ativa e inteligente no cosmos
Parte 2Diz o poeta que ser santo é fácil, difícil é ser gente. Nunca fui santa, não posso confirmar. Mas sei que ser gente pode ser bem difícil. Em ídiche, uma espécie de alemão arcaico falado desde o século 10 pelos judeus da Europa Oriental, a palavra mensch (pronuncia-se “mentsh”) que significa “gente” ou “ser humano” carrega uma imensa responsabilidade. Um mensch é alguém de alta integridade, honra, bondade e profundo caráter moral. O dilema dos personagens de Bernanos em Sob o sol de Satã ou querem ser santos, ou querem ser gente, mas nenhum deles está muito perto de conseguir. Bernanos apresenta Padre Donissan como santo — o nome já sugere. Quando Donissan se depara com o Príncipe da Escuridão pela primeira vez, pergunta-lhe o que ele quer. Quero tentá-lo pelo resto de sua vida, é a resposta. Para alguém disposto a torturar-se ao extremo dia e noite a fim de livrar-se do pecado, o desafio parece fácil. Interessante o conceito - estrangeiro, para mim - que causar dor física, feridas concretas que podem até colocar a vida em risco possa ser o antídoto para a abstração que é a tentação. Se Satã tivesse um número limitado de truques para tentar os homens, seria fácil, mas o cara é criativo. Donissan vai descobrir o quanto. Após o fim da 1a Guerra Mundial, havia aqueles que reagiram aos horrores abandonando a fé, em troca de ciência, política, arte. E pelo mesmo motivo, havia aqueles — em menor número, verdade — que se entregaram à fé muito mais do que antes. Se para alguns só a não existência de Deus explicaria o massacre, para outros, só Deus poderia dar-lhes forças para continuar apesar de. Esses eram numerosos o suficiente para tornar esse romance um best-seller imediato. Talvez a Weltanschauung contrarreformista (”visão de mundo”) de Bernanos também tenha atraído o público como uma reação a escritores seculares, como André Gide, cujas histórias refletiam uma ética situacional. Essa é uma moldura moral que define se determinado ato é justo ou não baseando-se em quatro conceitos: pragmatismo, relativismo, positivismo e personalismo, ou seja, nenhuma lei ou regra pode estar acima do bem-estar do ser humano, todas dependem da circunstância. Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Continue lendo este post gratuitamente no app Substack
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segunda-feira, 21 de setembro de 2026
#Literatura: Sob o Sol de Satã, de George Bernanos(2)
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