Todos querem um pedaço de Kafka. Um pedaço de sua fama, de sua inteligência, de sua profundidade. No entanto, ninguém quer nem um pedacinho do território interior de sua cabeça.
...a fronteira perpetuamente trêmula entre a vida cotidiana e o terror que parece mais real.
Segundo ele mesmo, esse era o tema que o afligia, por isso está em toda sua obra: a vida cotidiana, que deveria seguir regras e lógica, em conflito com o mundo do terror, que no entanto parece mais real, onde não há justiça, compaixão, nem explicação. Então ele escrevia contos e romances desse mundo interior apavorante, cada dia da sua vida mais parecido com o mundo que o rodeava.
Afirmei em outra parte deste ensaio que O processo é uma de suas obras mais importantes porque contém todos os elementos de sua originalidade, tudo que torna sua obra incontornável. À primeira vista, é um romance sobre a luta contra a Lei. Não a lei (com minúscula), uma instituição nobre e necessária, já que o homem é imperfeito, mas a Lei (com maiúscula), representada, em seus livros, por seres desprovidos de qualquer senso de humanidade. Lei sem humanidade não é justiça.
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